Religião - fé, fadas e fobias

Religião - fé, fadas e fobias

Atualizado: Terça-feira, 13 Julho de 2010 as 4:30

Por ser a religião de caráter inefável, qualquer tentativa em defini-la nos faria tão-somente substituir um inefável por outro. No máximo que poderíamos chegar é substituir o incompreensível pelo desconhecido. Muda um pouco mas, não avança muito. Esse ''passo'' talvez aplacaria um pouco a consciências dos ociólogos, psicólogos ou até de alguns teólogos que não conseguem ''dar o salto'', conforme quer Kierkgaard, para o mundo da fé, que é a relação com o sagrado, o transcendental o encantado e acromático de Rudolf Otto. Pois é neste sentido preciso, e em nenhum outro mais antológico, é que a religião permite a transcendência.

A crise está no fato de pararmos na encruzilhada da existência e perguntarmos: Definiremos a religião através de experiências transcendentais ou de dogmas definitivos?

Seria simplesmente improvável a possibilidade de percorremos toda a largueza e demandas dessa encruzilhada dada insuficiência da nossa auto- suficiência. O próprio fato de reconhecermos esses limites nos dá um ''start'' para acionarmos a dinâmica caleidoscópica de nossas possibilidades. Com isso não estou reduzindo o meu juízo ao nada, mas, talvez, partindo de um pressuposto que religião pertença a uma família de curiosos e às vezes embaraçantes conceitos que a gente compreende perfeitamente até querer defini-lo. O espírito humano é bastante humilde de proibi-lo pensar sobre Deus e, ao mesmo tempo, também, bastante fraco para banir o excesso de ambição transcendental de sua alma pelo sublime. É o que poderíamos chamar de ''escravidão desejante'' - credo, ergo sum !

A etimologia do vocábulo ''teologia'' já seria - pensando assim - uma limitação que o homem se auto-impõe; uma limitação precedente da qual ele não consegue se livrar: Sabe que não sabe por não saber o quanto sabe. Daí as múltiplas e variegada manifestações do sentimento religioso visto, revisto e concebido por todas as etnias ao redor do globo. Nesse sentido poderíamos conceituar as manifestações dos sentimentos religiosos como uma ansiedade existencial em busca de uma segurança ontológica.

Essa ''obsessão religiosa'' é incurável. Se nela o finito busca o infinito e, se é infinito, como alcançá-lo? Como o finito pode alcançar o infinito sem a ''mágica'' da revelação? Certamente que é por isso que o cristianismo seja feérico - a religião da fé transcendente. Nele a transcendência invade o tempo, o fato e o homem.

Entristece-me muito quando as igrejas querem encapsular Deus em seus ritos. Parece-me que as liturgias de hoje querem explica tanto o fenômeno da transcendência que acaba reduzindo-o ao previsível, governável, manipulável; não compreendendo que talvez na duvida sincera, na dor inexplicável, nos sentimentos ambivalentes se encontram a verdadeira religião: Acreditar sem explicar, possuir sem poder dominar; sair ao encontro do sagrado com a convicção de que precisava mais - mais saber, mais possuir, mais crer e, ainda mais se entregar.

As religiões cristãs modernas caem na bizarrice de explicar o inexplicável, como se pudessem ser o vigário que conduz o fiel até o fim do infinito. Assim religião que é uma agência de ''bem de consumo'' não consegue fidelizar os consumidores que ela mesma criou. Eles saem dos ritos religiosos cheios de promessas e vazias de transcendência. Daí o auditório religioso ser sempre flutuante, instável e auto-descartável: Onde falta o mistério não cabe a fé.

A religião definitiva não elimina todos os buracos e gretas da alma: Não consegue extinguir o medo último do abandono e nem consubstanciar o vazio de quem está cansado, ''louco'' para encontrar um colo onde descansar para sempre. A religião institucionalizada passa por um viés ao contrário: Propõe a idéia da auto-suficiência humana quando propugna que a essência da religião concentra-se em tarefas que os seres humanos podem executar: Campanhas de oração, votos, promessas e tantos outros condões que pragmatismo triunfalista celebra e consagra.

Com esse foco a religião momentânea quer ''driblar'' o sonho escatológico, inerente ao ser humano. Se tudo se resume ic et nunc, a alma do cultuante sem a expectativa do amanhã, sem utopias se torna vazia ofegante. A única esperança que lhe resta é a tênue certeza de que os receptores da graça (santos, eremitas, místicos, monges, ascetas, dervixes, padres e pastores), lhe traga pronto, materializados pelos abundantes signos aquilo que os próprios orantes gostariam de encontrar pelos caminhos da fé transcendental.

Rev.   Cícero Brasil Ferraz   é psicanalista, formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pastor da Igreja Presbieriana de Vila Maria, em São Paulo (SP)

e-mail:   [email protected]

veja também