Cristianismo e política

Cristianismo e política

Atualizado: Quarta-feira, 28 Julho de 2010 as 9:35

“De todas as vocações, a política é a mais nobre (...). O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se a sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme num jardim”. Rubem Alves

A atividade política normalmente não é bem entendida pela maioria da população. Percebo uma deturpação no seu entendimento. Certamente, vários fatores contribuem para isso. Dentre eles, o senso comum de que todos os políticos são corruptos; a atuação da grande mídia que - na esmagadora maioria das vezes - divulga com alarde o que é negativo e muito timidamente o que é positivo e também a efetiva falta de decoro e compostura por parte de muitos homens públicos que de fato desonram o cenário público.

A igreja evangélica, como numeroso e importante grupo social que é, tem contribuído pouquíssimo para que a política seja vista e entendida como de fato é, com a relevância que efetivamente possui.

Noto que no interior das igrejas, muito tempo é dedicado a muita coisa, várias delas muitíssimo menos relevante do que a política. Entretanto, são raras aquelas que colocam em seu plano de ação, alguma atividade com vistas ao esclarecimento, conscientização e formação políticas. É uma pena porque os membros das igrejas, em contraposição a afirmativa de Salomão de que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria...” (Pv. 9:10), acabam por reproduzir frases e posições que só evidenciam ignorância em relação ao assunto, e em nada contribuem para a elevação da consciência cidadã e para as transformações sociais que ainda precisam ser realizadas mas que só se dão através do protagonismo político dos agentes vivos da sociedade, nos quais a igreja evangélica deveria se incluir.

Só mesmo a ignorância ou a má fé são capazes de explicar o distanciamento que muitas igrejas evangélicas procuram deliberadamente ter da política. Ora, a política é - ligeira e despretensiosamente definida como - “tudo o que se refere a cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil, público e até mesmo sociável e social”; é ainda “atividade ou conjunto de atividades que, de alguma maneira, tem como termo de referência a polis,  ou seja, o Estado” e também “tudo o que interessa a todos nós enquanto membros, com direitos e deveres, da coletividade a que pertencemos”. Baseados apenas nessas simples definições, já seria extremamente forçoso justificar o comportamento equivocado das igrejas com relação a política. Sempre é bom, necessário e honesto acentuar que existem no universo das igrejas evangélicas, algumas honrosas exceções que confirmam a regra.

O bispo anglicano Desmond Tutu, uma das figuras centrais da política Sul-Africana e prêmio Nobel da Paz em 1984, dizia com toda a propriedade de quem ostenta um currículo de ativismo social como o dele, não haver “nada mais político do que dizer que a religião nada tinha a ver com política”. Com efeito, pois afinal, é impossível separar fé e política hoje, da mesma forma que o era na Palestina do século I. Na terra de Jesus, quem detinha o poder político também detinha o poder religioso e vice-versa. Ainda na introdução de seu evangelho, Marcos mostra como as curas operadas por Jesus (o homem de espírito mau, a sogra de Pedro, os possessos, o leproso, o paralítico e o homem de mão aleijada) desestabilizaram de tal maneira o sistema ideológico e os interesses políticos vigentes, que levaram dois partidos inimigos – o dos fariseus e o dos herodianos – a fazerem aliança para conspirar em torno de “planos para matar Jesus” (Mc 3:6). Assim, vê-se que as implicações políticas da ação salvadora de Jesus tornaram-se tão graves e ameaçadoras que induziram Caifás, em nome do Sinédrio, a expressar que era “melhor que morra apenas um homem pelo povo do que deixar que o país seja todo destruído” (João 11:50). Ao introduzir-nos nos relatos da prática de Jesus, Lucas primeiro nos situa no contexto político, para informar o momento em que o Senhor enviou sua palavra à João, filho de Zacarias, no deserto.  “... No ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia, e seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes...”. Isso tudo demonstra que  não é apenas o texto que revela a Palavra de Deus, mas também o contexto social, político, econômico e ideológico no qual se desenrola a prática evangelizadora de Jesús. É por essas razões que Frei Betto afirma que Jesús não morreu na cama, mas na cruz, condenado à pena de morte, o que faz de todos nós cristãos “discípulos de um prisioneiro político”.

Para o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, “não há nada tão cientificamente inexato e conceitualmente  impossível do que a pretensão de ser apolítico, porque ser político é algo inerente à condição do ser humano(...) Todo homem é cidadão de um Estado, sujeito de deveres e direitos. Todo homem (incluindo o cristão) é sócio, do nascimento até a morte, de um organismo político”. Ainda segundo o bispo, que foi diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, onde lecionou as disciplinas de "Política Internacional" e "Religião e Política", “...Não há lugar mais político do que uma igreja. O que são os sistemas episcopal, presbiteriano e congregacional, senão formas eclesiásticas de governo? O que fazemos quando elegemos um pastor ou excluímos um membro?...”

 Escrevendo aos Gálatas, o Apóstolo Paulo disse que “Vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl. 4:4). Paulo era alguém que tinha pleno conhecimento da importância da política na vida das pessoas. E de que sabia reivindicar seus direitos de cidadão romano quando se fazia necessário, como na ocasião em que, juntamente com Silas, foi despido, açoitado e preso, sem nenhum processo formal. Quando os soldados foram libertá-los, insurgiu-se. Exigiu que os magistrados fossem até eles e os libertassem. Os magistrados atemorizados, foram até eles, se desculparam e os libertaram. (At. 16:35-39).

Foi através de ação política que o Reverendo batista americano Martin Luther King Jr. (filho e neto de pastores batistas) lutou pacífica e incansavelmente até a morte pelos direitos civis da comunidade negra americana. Enquanto lutava pela igualdade de direitos de todos, independentemente da cor da pele, dizia que o que o aborrecia não era “o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons” e prosseguia, intimorato, alimentando seu grande sonho.Em agosto de 1963, diante do Memorial de Abraham Lincoln e de aproximadamente 200 mil pessoas, na conclusão da Marcha sobre Washington D.C. pelos Direitos Civis, King proferiu seu mais famoso discurso, transmitido pela TV e assistido por toda a nação norte-americana. Num dos trechos do discurso, o pastor batista dizia ter um sonho “... de que meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter...”. Nosso irmão batista tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz em 1964, pouco antes de seu assassinato. Ele não conseguiu ver o resultado de sua luta, mas algumas décadas depois de sua morte, sua luta foi quem possibilitou que um negro chegasse ao mais alto posto da nação mais rica do planeta.

Nesse ano teremos eleições quase que gerais. 135,8 milhões de eleitores estão aptos a votar nas eleições de outubro. Essa multidão está convocada a participar do clímax da democracia: o exercício do voto. Momento de extraordinária celebração cívica, quando todos são realmente iguais. Quando o pobre tem a mesma importância que o rico, pois pode exercitar soberanamente seu legítimo direito de escolher seus representantes na cabine indevassável e de acordo com sua consciência. Nesse momento, o mais imponente líder se submete a decisão da pessoa mais simples e humilde, que com seu gesto define quem de fato deseja que o represente. Serão escolhidos um novo (ou uma nova) presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e 1059 deputados estaduais.

Certamente as igrejas evangélicas têm um papel importante nesse processo. Dadas as responsabilidades dos novos eleitos com relação as decisões que deverão tomar e afetarão os destinos da nação, as igrejas evangélicas podem (e no meu entender devem) desempenhar um papel ativo no sentido de esclarecer e informar os membros de sua comunidade. Devem conclamar seus membros a participar de maneira responsável do processo eleitoral. Devem conscientizar que somos todos chamados a exercer nossa responsabilidade cristã, testemunhando, por meio de nossa participação ativa, nosso compromisso com a cidadania e a construção de uma sociedade mais justa e solidária. Da necessidade da construção de um país melhor para todos, com atenção especial para os menos favorecidos. Em um processo eleitoral dessa magnitude, sem prejuízo de outras questões, é fundamental reafirmar à todos e à todas quanto a responsabilidade do voto. De que o voto não pode ser mercadejado em nenhuma hipótese, pois voto não tem preço, tem conseqüência.  Por fim, sugiro que as igrejas propiciem espaço e momentos específicos dedicados a orações em favor dos novos líderes, tanto da nação quanto dos estados e congresso nacional. Que disponibilizem dependências da igreja, assim como das instituições educacionais para informação, reflexão, conscientização e debates, de maneira plural e sem discriminação de nenhuma ordem, de modo a contemplar todos os espectros políticos representados no atual processo de disputa eleitoral.

É fundamental ressaltar que nossa esperança real está na iminente “parousia” e na conseqüente posse efetiva do Reino. Mas enquanto nossa espera não se materializa, atentemos para os cuidados com o Reino que já começou aqui e estamos vivenciando, esforçando-nos para que os valores que tanto almejamos, característicos dele, sejam vividos aqui e agora.

Cuidemos para que como “sal e luz”, exalando sempre o “bom perfume de Cristo”, tenhamos um comportamento cívico condizente com aquilo que espera de nós o nosso Deus. O Senhor da igreja e da história.

José Guido dos Santos   é diácono evangélico e profissional de Relações Públicas com pós-graduação em Marketing Institucional. Especialista em Planejamento e Organização de Eventos e atua como Mestre de Cerimônias. Interessado em questões do terceiro setor, já presidiu entidades sociais, é Consultor em Assistência Social e atualmente é Conselheiro da AACD. Também atua como secretário parlamentar da Câmara Federal.

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