Cristianismo e sensibilidade social

Cristianismo e sensibilidade social

Atualizado: Sexta-feira, 7 Outubro de 2011 as 10:33

A omissão é um pecado que se faz não fazendo (Padre Antonio Vieira)

Dentre os diversos acontecimentos que provocam perturbação social, um - em especial - tem me entristecido e inquietado profundamente: os acidentes de trânsito e seus desdobramentos. A cada dia, recrudesce o número de acidentes graves que culminam em seqüelas irreparáveis e mortes violentíssimas. Os dados estatísticos são aterrorizantes: segundo a Folha de São Paulo de 20 de setembro, nos seis primeiros meses de 2011, as delegacias da cidade registraram 378 boletins de ocorrência de acidentes com morte. No mesmo período de 2010, o número foi de 269. Um aumento de 40%! Desde 2007 não havia tantos registros de colisões, capotamentos ou atropelamentos com pessoas mortas. Definitivamente, são números estarrecedores! De acordo com o jornalista Marcelo Coelho, os brasileiros estão inventando um tipo novo de "assassinato social". Consiste em beber bastante, entrar num carro - quanto mais caro e poderoso, melhor - e dizimar quem quer que esteja passando pela calçada. 

Rafael Baltresca, um engenheiro de apenas 31 anos ainda se ressentia da perda recente do pai (vítima de um infarto), quando sua mãe de 58 anos e a única irmã, de 28, foram mortas atropeladas na zona oeste da cidade de são Paulo. Apesar de a velocidade máxima permitida no trecho do acidente ser de 70 km/h, o velocímetro do Golf dirigido por Marcos Alexandre Martins registrava 100 km/h após a batida. Mas ele poderia estar em uma velocidade ainda maior porque possivelmente tenha freado antes do acidente. Segundo a polícia, ele apresentava sinais de embriaguez. Mas recusou-se a fazer o teste de bafômetro.

De acordo com o capitão Paulo Oliveira, comandante do policiamento de trânsito de são Paulo, "metade dos acidentes acontecem porque as pessoas estavam alcoolizadas”. Por mais absurdo que possa parecer, em decisão tomada recentemente, o Supremo Tribunal Federal entendeu que o motorista que bebe e mata alguém em um acidente deve responder por homicídio culposo (quando não há intenção), e não doloso (quando assume o risco de matar). É indubitável que chegamos ao paroxismo! Mas, felizmente, a sociedade parece ter começado a reagir diante desse descalabro: inúmeras mobilizações foram realizadas em todo o país. No último dia 20, médicos ortopedistas saíram às ruas gaúchas para chamar a atenção da população para a necessidade de reduzir a violência no trânsito e suas conseqüências. O estágio em que a situação chegou conduz-me à conclusão de que os entes públicos não avançarão além de onde se encontram. Parece-me que já atingiram seu limite! Chegou a vez – e a hora é agora – em que a sociedade deverá exercer seu papel de efetivo protagonismo, aliás como convém a uma sociedade verdadeiramente democrática.

A sociedade brasileira precisa ser mais contundente em suas participações, ou o caos já estabelecido se ampliará dia após dia. Nos Estados Unidos, duas mães cujas filhas tinham sido vítimas de motoristas bêbados, criaram a Mothers Against Drunk Driving (Mães Contra Dirigir Bêbado – MADD). A fundação está completando 31 anos, tem 300 filiais e faz pressão em Washington e nas assembléias legislativas estaduais. Faz um estardalhaço quando descobre que um motorista bêbado, responsável por algum acidente, escapou do juiz com punição leve. A MADD foi o grupo que mais intensamente contribuiu para a criminalização e o combate ao consumo de álcool por motoristas.

Mas, e a comunidade evangélica - que tem crescido exponencialmente nas últimas décadas – como tem se posicionado? Confesso que me sinto bastante inconformado com a indiferença dessa comunidade em relação a variadas questões de ordem social. Os evangélicos reúnem em vários dias e horários da semana, milhares e milhares de pessoas, que demonstram um elevado nível de dedicado ativismo. Entretanto, excluídas algumas poucas e honrosas exceções, sua agenda ainda é constituída fundamentalmente de assuntos espirituais e de questões internas, com uma pauta voltada para si mesma, endocentrada, alheia aos assuntos externos. Em suas manifestações, conseguem juntar multidões. Têm portanto, um potencial de mobilização extraordinário. Mas não utilizam esse potencial para tentar interferir na dura realidade social. Dá a impressão de que como o mal não ocorreu em seu núcleo familiar mais próximo ou com algum membro de sua igreja, eles têm o direito de ignorá-lo solenemente.

Ocorre que essa (im)postura tem nome: pecado (Tg 4:17). E a situação atingiu um patamar tal que nenhum grupo social organizado – e minimamente consciente - tem o direito de ignorar esse genocídio cotidiano que ocorre nas ruas das várias cidades de nosso país e suas inofensivas conseqüências jurídicas, que acabam contribuindo para a banalização da vida. É imprescindível e urgente que a igreja evangélica moderna se esforce por resgatar o exemplo e a coragem de nosso irmão batista, o Reverendo Martin Luther King Jr. que afirmava que o que o preocupava não era o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons.

A igreja evangélica brasileira está desafiada a sair urgentemente de sua zona de conforto e engrossar os movimentos sociais que lutam diária, árdua e incansavelmente contra as injustiças sociais que atingem milhares e milhares de brasileiros criados a imagem e semelhança de Deus. Está pois lançado o desafio. Quem se habilita?

José Guido dos Santos é Diácono evangélico e profissional de Relações Públicas com pós-graduação em Marketing Institucional. Especialista em Planejamento e Organização de Eventos, atua também como Mestre de Cerimônias. Interessado em questões do terceiro setor, já presidiu diversas entidades sociais. É Consultor em Diaconia e Assistência Social e atualmente é Conselheiro da AACD. Foi secretário parlamentar das Câmaras Municipal de São Paulo e Federal.

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