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Democracia: fábrica de ilusão!

Democracia: fábrica de ilusão!

Atualizado: Quarta-feira, 20 Outubro de 2010 as 10:35

Sempre que abro um jornal encontro todo tipo de comentário político. É nessa onda que surfarei, pois sinto que é hora de meu desabafo. Minha tese sobre o Estado democrático é radical: "Democracia" é uma palavra inventada para iludir o povo e dá-lhe uma impressão de que estão decidindo alguma coisa.

Para defender esta "tese" vou à Atenas, berço da democracia. Ali os cidadãos se reuniam para decidir o futuro da polis (a cidade grega). O que significava o futuro da polis? O futuro dos cidadãos. Quem eram os cidadãos? Eram os escravos ou os livres? Não. Eram os poderosos da polis. Ali estavam eles cuidando de como continuariam poderosos, os escravos permaneceriam escravos e os livres sem merecimento algum. Os cidadãos tinham como dignidade o "ócio" e, por isso, não podiam trabalhar. Trabalho era coisa para escravos e livres que, como tais, eram indignos: o trabalho e o trabalhador!

Dali até os nossos dias tem sido assim. Os nossos representantes (conforme a ilusão da democracia) vão à Brasília (ou mesmo às Câmaras dos Vereadores) cuidar de nossos interesses (conforme a ilusão da democracia).

Democracia é uma palavra que em nome dela é possível fazer qualquer coisa até mesmo afirmar que somos livres, menos para não votar e pagar impostos (daí a César o que é de César!)! Do povo, pelo povo e para o povo! Onde foi que na História você viu essa realidade? Em nenhum momento! Os representantes não são do povo (e quando são deixam de ser, pois se tornam políticos!), nem pelo povo e muito menos para o povo. Até tenho pensado que a palavra "democracia" é formada por duas palavras tirânicas: demo = demoníaco, cracia = poder, isto é, poder demoníaco, dominador. Existe uma possessão no poder político. Tantos entrem quantos são possuídos. Quanto à fórmula para exorcizar tal espírito do mal, ou a perderam ou escondem-na muito bem!

Começo a imaginar que não importa o sistema de governo ou sua forma. Mais vale um ditador que promove o bem-comum (se é que isto é possível!) do que um democrata corrupto. A diferença entre um ditador e um democrata é que o primeiro, como não quis ser cínico, não perguntou ao povo se o aceitava. Ele tomou o poder! Já o democrata perguntou porque queria ser cínico! Nós ficamos com "dor de cotovelo" diante do ditador, pois gostamos mesmo é de produzir ditadores e cínicos. O ditador é sem o nosso consentimento! Desta forma, votamos num democrata (é claro, na ditadura não votamos!). Daí saímos contando o nosso grande feito: "Tornou-se ditador, mas fui eu quem o coloquei! E vou tirá-lo para colocar outro ditador". Só que o nosso ditador é cínico. Ele finge que os interesses são do povo e que seu poder emana do povo. Exatamente. Tudo o que ele tem, gasta, manobra, superfatura e rouba emana do povo e nunca mais voltará para ele. Sejam bem-vindos à ditadura democrática!

Lamento que o Brasil tenha herdado uma falsa monarquia (a portuguesa) e uma falsa democracia (imitação do ensaio americano de democracia), mas viveu uma verdadeira ditadura (na ditadura não existe falsidade, apenas crueldade!). Entre a falsidade e a crueldade não existe um mal menor a escolher? Eu considero que não!

Deixando as "teses" de lado (fruto de desabafo!), um dado histórico nos remete à nossa realidade. Nenhuma sociedade foi capaz de suportar a corrupção. Impérios e governos caíram sob sua tirania. O que fazer diante dessa calamidade política?

Pedimos forças a Deus para pronunciá-la a resposta e muito mais para torná-la o antídoto desse mal que corroí a nossa nação e faz milhões de brasileiros vitima da tirania da política do enriquecimento ilícito. Indignação temos. Justiça pedimos: a divina e a humana! Da nossa cruz oramos: "Senhor, não os perdoem pois sabem o que fazem". A esses ladrões que olham para a nossa cruz pronunciamos: "Hoje não entrarás comigo no Paraíso (da consciência limpa)!" Pretensão? Não. Profecia? Sim. Quem for corrupto que atire a primeira pedra!

Antes que a última pedra seja usada, é necessário declarar minha esperança na democracia do amor. Esse poder que nos preenche e faz-nos buscar o bem do outro e assumir a sua dor. Para além da política (e poderia ser a partir dela!) essa democracia acontece de forma livre e humana. A bondade se espalha e ajuda. A fraternidade reúne e abraça. A amizade torna o diálogo saúde ao coração. Vejo anônimos tornando-se heróis nas ruas em sua presa de socorrer o caído, e dá a mão ao desvalido!

A democracia do amor torna o sorriso um gesto comum a todos e a arte de buscar o bem do outro uma forma de construir o caráter, de aperfeiçoar os sentimentos e de sentir o coração mostrando que a vida é bem melhor ao lado de alguém.

Acho que chegou a hora dessa democracia destituir a fábrica de ilusão e forjar a verdadeira força que emana do povo: a solidariedade! Quem tem esperança que jogue fora a primeira pedra e assuma a dinâmica nascida do Reino de Deus que destitui o egoísmo e proclama a oração do Senhor: "Pai nosso... seja feita a tua vontade"! "Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram" (Salmo 85.10).

Rev. J. A. Lucas Guimarães   é historiador e pastor-auxiliar da Igreja Presbiteriana de São Vicente/SP. Tem experiência em implantação e consolidação de igrejas. Mestrado em Teologia (concentração em Bíblia), especialista em História e Sociologia e bacharel em Teologia. Possui licenciatura em Ciências da Religião e cursa mestrado em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo / SP.  

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