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Um dia de fúria

Um dia de fúria

Atualizado: Sexta-feira, 17 Setembro de 2010 as 1:21

Gosto de filmes que nos fazem refletir sobre a vida e levam o coração para além dos anestésicos da rotina. Sempre que enfrento filas ou quando me submeto a qualquer tortura de descaso, lembro de um filme intitulado Um Dia de Fúria (1993), direção de Joel Schumacher.

Avenidas congestionadas. Nas lojas e restaurantes, o cliente raramente tem razão. A pressão da vida nas cidades incomoda qualquer um. Para Bill Foster, isso tudo é mais do que um incômodo. Para ele, chegou a hora de dar o troco. Foster assume essa postura enquanto abandona seu barulhento carro, num congestionamento danado e num dos dias mais quentes do ano. Michael Douglas é Foster, um cara comum em guerra com as frustrações do dia-a-dia. Um Dia de Fúria é a história de um homem comum, um suspense alucinado e não convencional que pergunta: “Estamos perdendo a calma?”

Fico imaginando que cada pessoa que existe no planeta já teve seu “dia de fúria”. Fúria: essa indignação em forma de raiva ou de ira acumulada durante todo o processo de desprezo, insensibilidade e rejeição que passamos na vida. Fúria: nascida como resposta ao desprezo à nossa vida pacata, às tentativas de diálogos sem resultados, ao descaso produzido por aqueles que se sentam detrás das “escrivaninhas”, e usando da função massacram nosso bom humor.

Filas cortadas para beneficiar amigos, o sistema da rede bancária que “sai do ar” justamente depois do meio-dia, quando falta meia dúzia de pessoas para chegar à nossa vez. As desinformações e morosidade que nos leva a pensar que estão nos fazendo de palhaço. A violência parece ser a última alternativa quando os meios dignos já foram aviltados pelo descaso! É nesse momento que dá vontade de jogar uma bomba naquela agência bancária que tudo anda menos a fila e de entrar com um trator dentro daquele hospital onde o atendimento fere mais do que a doença! Sou contra a toda e qualquer forma de terrorismo. E entre a vontade de fazer e o fazer existe uma grande diferença. Ela se encontra no bom senso - que não significa que os meus direitos terão sempre que saírem perdendo para que a normalidade do aviltamento continue. Indignar-se é também usar o bom senso!

Lamento o fato de que o nosso país não teve uma formação revolucionária. Sem o espírito revolucionário consideramos que o máximo que podemos fazer é fofocar baixinho. A ditadura e outros meios incutiram o medo em nós. Todo o sistema é para a domesticação social. Quando alguém, depois de sofrer contra sua moral, dignidade e bem-estar, tem seu dia de fúria, logo surgem os “domesticadores” para dizer: “Fulano parecia tão pacato, mas é tão ignorante e mal-educado!” Parece que em nosso país é crime indignar-se e agir por indignação. Martin Luther King Jr, prêmio Nobel da Paz (1964), disse: “O que me preocupa não é o barulho dos violentos, e sim, o silêncio dos justos.” Ficam todos olhando para a cara do outro dizendo com o olhar: “Os políticos estão nos roubando, esse banco está me fazendo de bobo...!” Porém, nenhuma voz ecoa. E se ecoa, a repressão do olhar do outro ou da máquina de opressão da domesticação o faz calar imediatamente - é necessário manter a ordem (do aviltamento de nossa pessoa)!

O que mais amedronta à impunidade é o escândalo. Eles querem que todos pensem que tudo está bem sem estar. Quando alguém grita: “Estão me roubando!” Eles gritam: “Aqui em nosso país não existe roubo! Cale-se!” E quem gritou fica imaginando que está sofrendo de algum problema mental ou está morando em outro país.

Estamos perdendo a calma? Sim. E mais do que isto. Estamos perdendo nossa dignidade, nossos direitos e nossa paz e tranquilidade. Os dias de fúrias podem ser mais constantes na vida de muitos. Até o próprio Jesus teve seu dia de fúria e indignou-se. A injustiça, o aviltamento e a impunidade têm limites. Felizes são os pacificadores, disse Jesus. Ai do momento em que é necessário a guerra para promover a paz! Dizia meu pai: “Por causa de um grito se perde uma boiada!”

Diga não a todo e qualquer terrorismo! Fuja da violência! A paz tem meios mais eficazes para restaurar a justiça. Que no “dia de fúria” não andemos pelo caminho do crime, da violência gratuita e da transgressão. Não existe coisa pior do que perder o direito por não agir no direito!

Espero pelo dia em que em vez de “dia de fúria”, tenhamos cada vez mais dias de paz, tranquilidade e respeito. Que a única fúria que impulsione o nosso coração seja para amar a Deus e ao próximo. Que a resistência através da não-violência seja sempre a nossa defesa!

Rev. J. A. Lucas Guimarães   é historiador e pastor-auxiliar da Igreja Presbiteriana de São Vicente/SP. Tem experiência em implantação e consolidação de igrejas. Mestrado em Teologia (concentração em Bíblia), especialista em História e Sociologia e bacharel em Teologia. Possui licenciatura em Ciências da Religião e cursa mestrado em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo/SP.  

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