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Lar, quente lar

Lar, quente lar

Atualizado: Sexta-feira, 17 Setembro de 2010 as 11:41

Embora minha formação acadêmica não me confira cacife para discorrer sobre as implicações das edificações na subjetividade da contemporaneidade ou vice-versa, todavia, atrevo-me a tecer alguns comentários sobre a atual dinâmica da engenharia das edificações.

Posso estar equivocado, mas a impressão que tenho é que os edifícios atualmente estão:

MAIS COMPACTOS

Atualmente as casas se apinham umas sobre as outras. Não bastasse isso, os prédios que antigamente eram preferencialmente comerciais hoje se assumiram abrigos. As casas literalmente subiram pelas paredes. E na mesma velocidade que os condomínios avançaram sobre a topografia das cidades, as pessoas também se modificaram. Quanto mais próximas as portas dos apartamentos, mais distantes os inquilinos. Nem no dia do vencimento, locador e locatário se encontram. Afinal os boletos “unem” os interessados. Quem conhece os seus vizinhos do mesmo andar? A gente só sabe o nome do síndico e por razões óbvias. Um mesmo teto abriga diversas famílias. Pessoas distantes e desunidas, inclusive.

MAIS CONECTADOS

No mundo pós-moderno a conectividade subjaz a todo o pensamento e o retroalimenta. Da cobertura ao barraco. Do blindado ao utilitário do catador de papel. Do doutor ao indouto. Todos se conectam. Na era do celular, até o relógio foi dispensado. As nossas vidas se cruzam não mais na esquina de casa, mas nas vias da net. Os amigos virtuais parecem bons porque apenas são virtuais. Mascaramos e tentamos subverter o nosso psiquismo na medida em que entendemos como grupo de amigos um punhado de “adicionados” ou “seguidores”. Quanto mais nos conectamos com o mundo, mais nos alienamos da vivência afetiva.

MAIS PADRONIZADOS

Os grandes centros urbanos da contemporaneidade ratearam o seu espaço convenientemente. É a favelização e a glamourização do espaço. Não necessariamente de forma contrastante. Cor, dimensão e forma dos condomínios residenciais nem sempre representam o anseio dos seus moradores. Parece que a cosmovisão predominante e a depreciação econômica têm dado o tom da escolha. A uniformização predial não parece refletir as mentes disformes da atualidade. O pensamento contemporâneo em sua desconstrução ideológica segue uma via dialética e essencialmente distinta.

MAIS CONFORTÁVEIS

O sofá e a rede perderam a primazia no quesito de reduto de descanso. O conforto não se resume mais apenas à questão do estar, mas do sentir. Hoje o conforto vai desde a iluminação adequada ao ambiente, passando pela estofaria milimetricamente calculada para permitir total bem-estar ao indivíduo, aos climatizadores de ar, densidade adequada para o melhor sono (?), utensílios politicamente corretos para a não ocorrência de incidentes domésticos, e por aí vai. Os condomínios mais novos já são obrigados a oferecer o melhor custo-benefício para os seus moradores. A casa, enfim, é projetada para oferecer conforto. Muito conforto. Talvez, só conforto. Mesmo porque um lar feliz não depende necessariamente de uma casa ergonomicamente perfeita. A felicidade já descobriu o endereço do barraco de muita gente. Da mesma forma, na casa do conforto é possível que a angústia bata à porta.

MAIS SEGUROS

Nunca se viveu com “tanta” segurança. A velha e desdentada cerca deu lugar a muros altos, fiados e eletrocutados. A sensação de estar sendo vigiado tornou-se uma realidade. Não bastassem as câmeras de circuito interno, agora elas invadiram as ruas dos grandes centros. Se você ficar muito tempo parado na calçada, talvez apareça na próxima imagem do satélite que rastreia a vida na terra. Curioso: quanto mais proteção mais insegurança. Pena que não dá prá dormir mais com a janela aberta para ver a lua e sentir o frescor da noite. Por que mesmo aqueles que estão enfurnados em seus quartéis-generais ainda permanecem instáveis? Cadê o resultado prático da segurança?

MAIS CLIMATIZADOS

A lareira ainda resiste bravamente, todavia alternativas modernas permitem-nos escolher de que forma nos aqueceremos. A idade do fogo foi substituída pela era do gás e da eletricidade. O clima, eu diria, está perfeito para o amor. Originalmente, a lareira derivou-se do termo “lar”. A rigor, lar é lugar de lareira. Lugar de fogo. De calor. De amor. A lareira da compreensão e acolhimento precisa aquecer-nos da frieza das nossas relações. E não existe lugar melhor do que o nosso lar-quente-lar.

MAIS ALTOS

Nos tempos em que as casas ficavam defronte uma das outras, ainda assim era possível enxergar o horizonte, ver o sol nascer e começar a contar as primeiras estrelas no ocaso do dia. Hoje em dia, mesmo morando uns encima dos outros, é raro encontrar alguém procurando estrelas, mesmo porque dificilmente conseguirá vê-las. Quem se atreve a acordar cedo para ver o sol nascer? O estresse do dia-a-dia não permite. A vida moderna e suas implicações são bem interessantes. É possível que um morador da cobertura de um edifício perca o sono em função das suas múltiplas preocupações e somente consiga conciliar o sono após automedicação. Também é possível que um indigente que se abriga sob a sua marquise durma até babar e ser despertado pelos transeuntes. A distância do solo parece não ter evitado o desconforto da insônia. A depressão, por exemplo, pode ser acometida por qualquer um. Não será uma “cama nas nuvens” que garantirá uma boa noite de sono. No edifício da saúde psíquica, o número de andares talvez apenas mascare o fosso da depressão sobre o qual está erigido.

Finalmente, não é a edificação que determina essencialmente a qualidade de vida do indivíduo, muito embora, esta qualidade possa ser provocada pelos recursos e instrumentos que a modernidade nos premiou. O cenário urbano tem mudado radicalmente desde que Caim fundou a primeira cidade (Gênesis 4.17). A cidade futurista, em contrapartida, já é uma realidade.

Nunca os anseios do homem foram tão concretizados; embora a modernidade crie novos anseios aos indivíduos. Quanto mais se tem, menos se percebe as conquistas. Cabe a cada um inserir no seu projeto existencial a satisfação e contentamento que não se limitam a quatro paredes.

Se não for possível recuperar o lar doce lar, certamente é viável a construção do lar quente lar. Quentura não das brasas da lareira, das chamas do forno ou do gás encanado. Quente como o órgão que acusa a temperatura de nossas vivências: o coração.

Neir Moreira

Neir Moreira   é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, psicólogo formado pela UFPR e pós-graduando em Educação. www.neirmoreira.com

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