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MNTB entrevista Ronaldo Lidório

MNTB entrevista Ronaldo Lidório

Atualizado: Sexta-feira, 1 Outubro de 2010 as 3:21

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

Confira na íntegra, a entrevista feita pela Revista MNTB com o Missionário e Pastor Ronaldo Lidório:

É um grande prazer podermos contar com sua presença em nossa Revista missionária. Sua palavra sem dúvida enriquecerá a revista.

Obrigado por esta preciosa oportunidade. A Missão Novas Tribos do Brasil, bem como a publicação “Confins da Terra”, sempre foram de grande valor em nosso ministério. Uma das motivações para a obra missionária foi o trabalho da Novas Tribos no Senegal quando eu ainda estava no Seminário, em 1988.

O irmão teve uma experiência no trabalho entre nativos na África por vários anos e agora está entre os indígenas do Brasil. De forma suscinta, que diferenças observou entre as realidades de lá e a daqui?

África e Amazônia são cenários gravemente distintos. Na África lidamos com grupos étnicos enormes como os Konkombas, por exemplo, um dos menores em Gana, com mais de 300.000 pessoas. Aqui os grupos são pequenos e dispersos. Na África ocidental a quase totalidade étnica é animista messiânica, enquanto que entre os indígenas há um perfil cultural mais naturalista, que tem menor apelo por uma mensagem escatológica. A politização certamente está presente de forma quase igual nos dois lugares e há grandes carências sociais. De forma geral, na África, os africanos formam os países e são o governo. Aqui os indígenas, apesar de brasileiros, ainda lutam muito para garantir valor à sua palavra. Falta cidadania e sobra paternalismo. Por outro lado, as questões mais profundas do coração humano são as mesmas em qualquer continente, sistema cultural ou religioso e passam pela procura por Deus e uma resposta para os conflitos diários da vida como a fome, enfermidade, relacionamentos e medo.

Como o senhor vê a situação da política indigenista brasileira de modo geral?

Deixe-me primeiramente enfatizar que realmente não é fácil, seja para o governo ou para órgãos relacionados ao universo indígena, desenvolver uma política indigenista uniforme e ao mesmo tempo racional pela diversidade étnica e dispersão geográfica que encontramos. Por ter sido praticada por diferentes frentes organizacionais, gerou, ao longo das décadas, um cenário muito complexo onde o indígena chega a ter direitos de vida e subsistência mas não de decisão e auto-regência. Assim tenta se alojar dentro das expectativas externas onde por vezes é visto como um selvagem, outras vezes como um mendigo, às vezes como o patrão ou mesmo um herói ambientalista. Tenho perguntado a algumas lideranças indígenas o que eles desejam e, via de regra, a resposta passa por soberania e dignidade. Não podemos trabalhar para o índio mas sim junto com ele. Temo o crescente número de discussões acadêmicas em torno do futuro indígena, onde o próprio indígena possui uma representação pequena, as vezes nula. Certamente é preciso ouvi-los e isto não aconteceria de qualquer forma, em uma reunião de 2 horas dentro de uma sala fechada.

Após mais de 500 anos de Brasil ainda existe um grande número de tribos indígenas sem o evangelho. Como o senhor vê esta situação e o que fazer para levar o evangelho a todos?

Segundo o missiólogo Paulo Bottrel da AMTB, há ainda 103 grupos indígenas sem presença missionária. E certamente não iremos completar a tarefa sem um despertar da Igreja Brasileira para este grande desafio, pois estes se dividem em diversas famílias linguísticas, distintas culturas e enorme dispersão territorial. Entretanto, tenho pensado nestes dias sobre os outros 100 grupos, onde há presença missionária mas ainda não nasceu uma igreja autóctone. É preciso juntar forças em oração e investimento nestes lugares onde homens e mulheres têm lutado bravamente durante anos ou décadas persistindo no alvo da evangelização. Normalmente são áreas com graves resistências. O afã da Igreja brasileira nos impulsiona a olhar sempre para frente. É preciso também olhar para trás, perceber onde já entramos e investir nas emoções, capacitação, finanças e ministério daqueles que escrevem a sua história pessoal associada à evangellização de um grupo indigena.

A igreja brasileira está usando todo o seu potencial missionário?

Ainda não, mas está caminhando. Hoje o missionário, creio eu, tem mais valor eclesiástico e a obra missionária ganha dimensões de prioridade em algumas igrejas e denominações. Também há amadurecimento quanto à missão integral. Percebo que também se fala muito mais sobre o pastoreio missionário, o que é muito bom. Houve um bom investimento em cursos de preparo missionário em diversas partes do país e as conferências são cada vez mais numerosas. Por outro lado, preocupa-me perceber que o número de obreiros que chega à linha final e são enviados é muitíssimo pequeno. O missiólogo Enoque Faria menciona que temos hoje praticamente o mesmo número de missionários entre os indígenas que tínhamos há 10 anos atrás. É preocupante. Certamente o envio para o exterior nas duas últimas décadas foi bem maior e, por razões históricas, compreensível. É preciso despertar a causa indígena na Igreja Brasileira e isto não acontecerá sem ajudá-la a entender que o compromisso que temos com Jesus e o evangelho é fazê-lo chegar a todos os grupos étnicos sobre a terra, sem distinção populacional, seja uma tribo com meio milhão na Ásia ou um grupo com 15 pessoas no meio da Amazônia. É preciso compreender que uma alma vale mais que o mundo inteiro, e que isto não é apenas um slogan bíblico.

Se fôssemos apontar falhas a corrigir no movimento missionário brasileiro quais seriam as mais graves?

Sou inexperiente demais no trabalho indígena para ter uma percepção clara a respeito. Poderia mencionar , entretanto, algumas nuances maiores, mais visíveis e já conhecidas. O trabalho indígena cresceu, em boa parte, dissassociado do movimento eclesiástico brasileiro, o que fez a Igreja pensar por um bom tempo que esta era uma tarefa para as Agências. Muito mudou e hoje se percebe uma abençoada aproximação, mas é preciso fazer mais. No preparo, na formação missiológica e também no estudo lingüístico, temos nos tornado bem responsáveis, mas falta-nos caminhar um pouco mais na terceira coluna de formação missionária: a antropologia cultural. Quase todas nossas dificuldades do passado tiveram raízes culturais. Do ponto de vista do campo, creio que faltou-nos, no passado, uma consciência maior da missão integral, isto é, ver o índio como um ser preso entre os diversos cenários montados pelo não indígena nos últimos séculos, confrontado com a própria cultura e atraído por uma estrutura de país onde não consegue se sentir cidadão. Hoje esta consciência é bem mais perceptível e fico contente ao poder afirmar que, dentre as iniciativas de valorização do índio e sua cultura, os evangélicos estão sempre nos primeiros lugares em diversas áreas do Brasil. Motivo de louvor a Deus.

Sua participação no trabalho entre as tribos brasileiras dará uma grande cooperação neste setor do evangelismo pátrio. Fale-nos um pouco dos seus projetos missionários no Brasil.

Na verdade temos uma participação direta muito limitada, focada em algumas áreas na Amazônia, onde desenvolvemos um trabalho em equipe com outros onze queridos missionários. Nosso desejo é atingir uma área com treze grupos indígenas ainda sem presença missionária. Extra campo estamos trabalhando em uma capacitação antropológica que venha cooperar com a reciclagem de missionários de campo e formação dos novos. Também temos como alvo dedicar 30% do nosso tempo no Brasil participando de encontros onde possamos, de alguma forma, cooperar com a melhoria da visão missionária na Igreja brasileira. Estou trabalhando em 4 livros que devem ser lançados em breve. A Editora Ultimato lançou um livro que tive o privilégio de organizar (Indígenas do Brasil), escrito por mais de 15 autores capacitados sobre a questão indígena. Alguns deles das Novas Tribos como os queridos Edward Luz e Silas de Lima. Mas ainda estamos também engajados no trabalho em Gana, África, onde tentamos passar 2 meses a cada dois anos no treinamento de líderes Konkombas. Em outubro de 2004 lançamos o Novo Testamento Konkomba-Limonkpeln que está sendo abundantemente utilizado, motivo de muita alegria pessoal. O restante do nosso tempo é utilizado em consultorias informais, especialmente em campos missionários que demonstram certa resistência cultural. Tem sido uma grande oportunidade para aprendermos a tratar destes assuntos com irmãos muito experientes e zelosos.

Finalizando, que palavra o irmão gostaria de transmitir à igreja usando este espaço de nossa revista?

A vida passa como um vento e há muito a ser feito. As oportunidades, por vezes únicas, não batem novamente à nossa porta. Hoje temos o privilégio de poder participar deste incrível projeto de Deus levantando a Sua Igreja para se envolver com a obra missionária mundial e indígena. Os desafios são diversos e não são fáceis. Alguns são projetos de uma vida inteira, outros envolverão sacrifícios e perdas, mas temos três boas razões para nos envolvermos com a obra missionária indígena. Em primeiro lugar pela nossa história onde olhamos para trás e percebemos que a influência missionária evangélica contribuiu para minimizar o etnocídio e valorizar o índio como gente. Ouvi recentemente um antropólogo mencionar que no rio Içana, trabalho das Novas Tribos do Brasil, há baixíssimo índice de conflitos e bebedeiras entre os Baniwa e Kuripako. Louvado seja Deus! Em segundo lugar pela nossa mensagem, pois cremos que há um Deus interessado em todo homem, e isto inclui o indígena mais distante da mata ou da cidade. É uma mensagem que precisa ser ouvida. Em terceiro pela nossa expectativa. Cremos no futuro dos grupos indígenas como gente mais digna, menos subserviente e também menos paternalizado, que valoriza a própria história e cultura e acha com alegria um lugar neste grande Brasil. É um projeto de Deus do qual vale a pena se aproximar e participar.

Ronaldo Lidório   é pastor, teólogo, missionário e escritor. Atuou quase dez anos na África com plantio de igrejas e tradução bíblica para a língua Limonkpeln de Gana. Atualmente, lidera uma equipe missionária na Amazônia. É autor de vários livros, dentre eles ''Com a mão no arado'', ''Unafraid of the sacred forest'' e ''Restaurando o ardor missionário''.  

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