A boa noite dos jovens

A boa noite dos jovens

Atualizado: Domingo, 7 Fevereiro de 2010 as 12

No title Uma antiga canção infantil dizia:

Seis horas de sono para o trabalhador

Sete horas para o professor

Oito horas para o bobalhão

E para o ricaço que não vale um tostão.

Houve um tempo em que dormir era sinônimo de desperdício de tempo, coisa de gente preguiçosa, um hábito quase indecente. Mas, se fosse somente coisa de indolentes, o sono seria um tremendo equívoco (talvez o maior) do processo evolutivo. Pessoas saudáveis passam um terço de sua existência dormindo, e são cada vez mais claras as evidências de que o sono noturno não serve apenas para repor as energias gastas durante o dia. Ele mantém fortes as defesas do organismo, protege o cérebro e, de quebra, ainda remoça.

Dormir é essencial. Mas não qualquer sono. O sono proveitoso é aquele do qual despertamos bem-dispostos, não importa o número de horas. Das cinco etapas em que ele pode ser dividido, as mais importantes são a terceira e a quarta, as do sono profundo. Nelas, a pressão sanguínea cai, os batimentos cardíacos diminuem, os músculos se relaxam e a hipófise, uma glândula localizada na base do crânio, passa a produzir GH, o hormônio do crescimento. A deficiência de GH está associada aos sintomas mais comuns da velhice. Conforme o tempo passa, a quantidade de sono profundo tende a diminuir. O descanso noturno de um adolescente tem 80% a mais de fases 3 e 4 do que o de uma pessoa de 50 anos. A idade também interfere na secreção de GH. A partir dos 35 anos, a produção do hormônio, entre os homens, é 75% menor do que na juventude. Dormimos menos porque envelhecemos ou envelhecemos porque dormimos menos? A questão ainda é uma incógnita para a ciência.

O que se tem por certo é que uma sucessão de noites maldormidas leva ao envelhecimento precoce. Além de acarretar uma queda na produção de GH, o sono precário diminui a secreção de outros hormônios. Responsável pela sensação de saciedade, a leptina é uma das substâncias fabricadas durante uma boa noite de sono. É por falta dela que, quando dormem mal, as pessoas em geral ficam mais vorazes no dia seguinte. A falta de descanso noturno também desequilibra a produção de cortisol, o hormônio do stress. Nesses casos, ela se mantém em alta durante todo o dia. E excesso de cortisol inibe o sistema imunológico, eleva a pressão arterial e os níveis do colesterol ruim. Já está provado também que a privação de sono atrapalha a conexão entre os neurônios, o que compromete o aprendizado e a memória. É durante o sono que o cérebro organiza e assimila os dados selecionados como essenciais. As informações desnecessárias são apagadas. O cérebro de um insone fica atrapalhado. Por último, há de se lembrar que uma noite em claro equivale a uma pequena embriaguez. E, como toda bebedeira, afeta os reflexos e a coordenação motora.

Falar é fácil. No mundo estressante de hoje, está cada vez mais difícil ter uma boa noite de repouso. No Brasil, três em cada dez adultos sofrem de insônia. Muita gente recorre às drogas indutoras do sono. Os medicamentos mais modernos preservam todas as fases dele, inclusive as mais profundas. Convém, no entanto, não abusar. O uso ininterrupto de remédios por mais de três semanas pode ter conseqüências nefastas. O organismo se acostuma às drogas e elas deixam de funcionar. Resultado: insônia provocada por remédios. Se o único caminho for tomar medicamentos, é preciso contar com a supervisão de um especialista e, juntamente com ele, estabelecer um limite de tempo para o tratamento. O médico também pode ajudar o paciente a adotar uma rotina que permita que ele consiga dormir sem drogas indutoras.

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