A cura do envelhecimento

A cura do envelhecimento

Atualizado: Sexta-feira, 7 Outubro de 2011 as 9:17

Nos últimos dias, uma notícia veiculada em alguns jornais e sites da internet fascinou alguns, ao mesmo tempo em que preocupou outros: um cientista afirmou que a “cura” para a velhice não demora a acontecer.

Claro que, de certa forma, todos sonhamos com a imortalidade, porém esta idéia levanta uma série de questionamentos, os quais tentarei levantar a seguir.

1-    O envelhecimento não é uma doença, portanto, não faz sentido tentar sua cura. Como já mencionei em outros artigos aqui no site, é necessário desvincularmos esta associação do envelhecimento à doença ou à dependência. O envelhecimento é um processo natural do organismo e pode ser apenas um declínio gradual, normal, sem necessariamente a ocorrência de doenças e síndromes crônicas. Desvincular a idéia de envelhecimento à de doença é um passo na tentativa de minimizar o preconceito pela velhice, muito presente em nossa sociedade.

2-    As terapias que prometem o aumento da longevidade envolvem sérias questões de bioética. Na referida entrevista, falam de novas terapêuticas que ainda carregam consigo incerteza e novos experimentos, como, por exemplo, as células-tronco e as terapias genéticas. Mas tudo que é novo causa incertezas. Como, por exemplo, julgar o que é ético e o que não é ético frente a algo novo? Isto leva tempo e a construção de novas concepções de “certo” e “errado”.

3-    Durante o período de transição entre os “mortais” e os “imortais”, o que será feito de nós, mortais? À medida que estes seres humanos “imunes ao envelhecimento” forem sendo criados, inicialmente eles terão que conviver com pessoas como nós, que nasceram, cresceram, se desenvolveram, envelheceram e que um dia irão morrer. Seremos seres imperfeitos numa sociedade de pessoas perfeitas, que não adoecem e não envelhecem. Que fim estes seres quererão para nós? As únicas causas mortis serão relacionadas a eventos externos ao indivíduo? Não mais se morrerá de doenças? Nos países com maiores índices de violência e acidentes de trânsito, por exemplo, será tão simples chegar aos 200 anos?

4-    O envelhecimento não é um processo apenas biológico, porém biopsicossocial. A reportagem falava apenas do envelhecimento do corpo. Mas não podemos separar as instâncias psicológicas e sociais. O corpo não envelhece, mas será possível manter-se jovem psicologicamente e socialmente por 200 anos ou mais? Como seriam as relações com filhos, netos, bisnetos tataranetos? Como seriam as relações conjugais por tantos anos?

5-    Questões como saúde pública, habitação, previdência e planejamento familiar teriam que ser repensadas. Se a taxa de mortalidade irá diminuir e a expectativa de vida irá aumentar, o planeta será superpovoado. Provavelmente será necessária a adoção de medidas rígidas para o controle de natalidade, visto que o planeta não teria espaço e recursos disponíveis para a sobrevida de tantas pessoas. As pessoas irão se aposentar com qual idade, já que viverão mais? Os países terão renda para a Previdência de tantos aposentados?

6-    Irão viver mais apenas quem puder pagar pelas novas terapêuticas ou as mesmas estarão disponíveis para todos? A meu ver, esta é uma das questões mais importantes. O sonho da imortalidade estará disponível a todos, como direito concedido aos usuários dos sistemas públicos de saúde de cada país ou apenas para aqueles que tiverem condições de custear pelos tratamentos anti-envelhecimento? Caso seja esta última opção, além de a “cura para a velhice” ser preconceituosa do ponto de vista etário, será também do ponto de vista econômico e social.

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