É a vez dos introvertidos!

É a vez dos introvertidos!

Atualizado: Quinta-feira, 11 Março de 2010 as 12

Bill era uma criança quieta. Gostava mais de escutar do que de falar e preferia lugares sem muita gente. Tinha poucos amigos. Essa história, que mostra o estereótipo de uma criança introvertida, é na verdade um pouco da infância de Bill Gates, 54 anos, fundador da Microsoft e um dos homens mais famosos, ricos e influentes do mundo. Pessoas introvertidas podem ser os melhores líderes. Essa é a teoria da executiva em negócios e coach Jennifer Kahnweiler, que estuda há anos o comportamento de líderes introvertidos, autora de The Introvertd Leader: Building on Your Quiet Strengh (algo como O Líder Introvertido: Construindo em Sua Força Quieta), sem previsão de lançamento no Brasil. Segundo dados de pesquisas realizadas por ela, cerca de 40% dos executivos assumiram que encaixam-se nesse perfil. Entre o restante, há os introvertidos não-assumidos, além dos extrovertidos. Outro estudo, feito nos Estados Unidos com 2.300 empresas, mostra que os líderes são mais reservados, principalmente os CEOs.

A notícia é ainda mais supreendente porque, hoje, a sociedade privilegia os extrovertidos. “As crianças introvertidas sempre são vistas como diferentes, aquelas que não se encaixam no grupo", diz. Para Jennifer, a introversão não pode ser encarada como uma barreira. Ao contrário. Os introvertidos (inclusive as crianças) são mais pacientes, têm uma capacidade de reflexão maior e bom controle sobre suas emoções. Todas essas qualidades são bem vistas, e esperadas, no mundo dos negócios.

Não, não são todos os introvertidos que vão alcançar o topo. Dependerá da capacidade de cada um de argumentar, por exemplo, além da educação e oportunidades que você proporciona ao seu filho. E dependerá, ainda, do modo como você vê a introversão.

O que os pais podem fazer

Para alguns pais, é difícil lidar com a ansiedade que eles sentem em relação ao comportamento da criança. Por isso é importante achar um equilíbrio: você precisa respeitar a personalidade do seu filho, mas também tem de instigar a curiosidade dele e estimulá-lo a se comunicar (sem pressão!). O objetivo não é tornar seu filho popular, mas ensiná-lo a mostrar o que pensa e o que sente. É preciso entender também que timidez e introversão não são sinônimos. A timidez está ligada à capacidade de estabelecer relações sociais. É a criança que fica corada quando precisa dizer oi, mesmo para um conhecido. Os introvertidos são introspectivos e não falam muito por opção – mas você pode incentivá-lo. Afinal, vivemos na era da comunicação.

Ao saírem para comer fora, por exemplo, diga que ele vai pedir o prato. Pode parecer simples, mas você está estimulando a criança a fazer escolhas e a conversar com uma pessoa que ela não conhece. Na hora de inscrevê-lo em uma atividade extracurricular, privilegie o que seu filho gosta. Talvez ele não se sinta à vontade em uma aula de futebol, mas adore a ideia de fazer aulas de circo. “Se ele for obrigado a fazer coisas que não gosta, pode se sentir desestimulado e deixar de ir", diz Mariana Tchauer, psicóloga da clínica Edac (SP).

Veja se não é o caso de repensar a maneira como você vê seu filho na escola. “É comum ouvir: ‘Meu filho não faz muitas perguntas na sala de aula. Isso é ruim?’ Se a criança domina os assuntos, acompanha as aulas, por que o fato de não perguntar ganha tanta importância? É preciso ter uma visão mais global", diz Mariana. Se seu filho é mais recatado mas conversa com os amigos, têm bom desempenho nos estudos, consegue expor ideias, está tudo bem. Quando isso não acontece, é importante procurar um especialista.

Os professores também têm papel decisivo. Feche os olhos e imagine essa cena: as aulas de leitura. Quem não se lembra? Cada um lia um parágrafo. Na hora que o primeiro começava, o último fazia as contas para saber quando seria sua vez. Se para toda criança esse momento é difícil, para o introvertido pode ser um tormento. Em vez de propor essa atividade, o professor pode perguntar à criança que é mais reservada se ela gostaria de ler uma frase de um conto ou trazer de casa um livro que goste para os colegas conhecerem. Aos poucos, ela vai se sentir à vontade e participar mais. Sim, seu filho não vai ser o mais popular da turma. Como você viu, essa não é (mesmo!) a única maneira de ele ser bem-sucedido.

Do que eles gostam (ou não)

A autora Jennifer Kahnweiler, com base nas entrevistas que fez para escrever o livro, listou as principais características de líderes introvertidos. Nós adaptamos algumas dessas dicas para você compreender melhor seu filho. Os introvertidos:

• Gostam de ficar sozinhos por um tempo, para recarregar as baterias, e se sentem mais à vontade brincando com grupos pequenos.

• Preferem escrever a falar. Os sites de comunidades para crianças, como o Club Penguin, podem ajudá-lo a fazer novas amizades.

• Ouvem mais do que falam. Você precisa estimulá-lo a conversar um pouco mais, a dizer o que pensa. Um dos problemas dos líderes introvertidos é que passam a ideia de que não gostam de participar.

• Não gostam de ser o centro das atenções. Pedir para ele mostrar os brinquedos que ganhou no aniversário para desconhecidos, por exemplo, pode ser uma tarefa muito difícil. Em situações especiais, combine com ele antes como vocês podem fazer e diga quem vai estar presente.

• Adoram se aprofundar nos assuntos que têm interesse. Aproveite essa brecha para mostrar coisas novas, pedir para que leia trechos de um livro e argumentar com ele.

Por Thais Lazzeri

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