Adultos usam o medo para controlar o comportamento das crianças

Adultos usam o medo para controlar o comportamento das crianças

Atualizado: Sexta-feira, 3 Abril de 2009 as 12

Por esses dias, presenciei a seguinte cena: uma garotinha, lá pelos seus cinco anos, queria sair do lugar onde estava, já tarde da noite, para dar uma andada pela rua. Dizia que queria ir apenas até a esquina, mas que não sairia de lá. O porteiro do local (um buffet infantil), com a melhor das intenções, talvez um pouco cansado da algazarra da molecada, falou para não ir. Ameaçou-a docemente com a presença do homem do saco.

Quem é o homem do saco? Ninguém sabe, nem nunca viu. Mas todos já ouviram falar. Com os olhinhos arregalados, a menina desistiu de ir até a esquina e resignou-se, assustada, a ficar onde estava aguardando seus pais.

Essa é uma história comum. Todos já foram protagonistas ou já presenciaram fatos assim. Diante da necessidade de controlar o comportamento das crianças, muitos adultos usam deste artifício. Usam do medo para que elas obedeçam.

Há vários personagens criados que se prestam a esse papel: o homem do saco, o bicho papão, a bruxa má, o lobo mau e outros que ficam por conta da criatividade de alguns. Como fazem parte do imaginário das pessoas, sem um correspondente na realidade, é um prato cheio para que essas histórias criem asas além do suportável para os pequenos.

E são justamente elas, pelo perfil que apresentam, as vítimas adequadas para caírem nessas histórias. Têm uma capacidade de imaginação muito grande e dão vida a tudo _com uns toques pessoais que vão ao encontro com seus receios.

Além desses personagens de medo, há um clássico, usado por muitos para que os pequenos se comportem: a injeção. "Se você não parar de correr, vou te levar tomar uma injeção". Considerava que essa ameaça já tinha saído de moda, mas vez ou outra se escuta algo assim.

Aí, quando a criança tem que tomar uma picada, que é algo real, a situação fica fora de controle. Pois além do desconforto que ela geralmente causa, passa a significar uma punição, com requintes de tortura. Uma coisa boa e necessária se transforma em algo temido. Isso quando não são os próprios médicos figuras de punição. Como se a própria doença em si fosse um castigo.

As crianças já têm muitos medos. A cabecinha delas é repleta de fantasias, principalmente por não conhecerem muitas coisas e terem uma compreensão limitada da realidade. Não precisamos criar mais.

Perigos

Há coisas que são importantes serem ditas porque são muito perigosas, como não atravessar a rua sozinhas porque se o carro vier fará um estrago grande. Ou sair correndo de perto dos pais em um lugar movimentado, pois há risco de se perderem. Portanto, é necessário que tenham receio de situações assim.

Elas por si sós apresentam riscos reais, que devem ficar explícitos para os pequenos. No entanto, não devemos criar outros de modo a torná-los ansiosos e inibidos - com medo de tudo, como se algo estivesse a espreita.

Embora, pelo que temos tomado conhecimento de coisas que vêm acontecendo com nossas crianças, dá até para acreditar em Bicho Papão. Esse é um assunto para outro dia.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

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