Ajude as crianças a enfrentar o luto

Ajude as crianças a enfrentar o luto

Atualizado: Sexta-feira, 12 Dezembro de 2008 as 12

O tempo normal de luto – tanto para adultos como para crianças – é de dois anos. "Para passar por esse processo natural, apesar das mudanças, é importante manter a disciplina e o ritmo da casa. Superproteger e fazer concessões também é ruim. Em qualquer situação, o importante é saber acolher a criança e dar carinho", afirma  a psicóloga Márcia Ferreira

Pai e mãe são heróis. "Quando se perde um genitor, o impacto é muito forte em qualquer idade". Isto porque a ausência irreversível de pai ou mãe significa a ruptura de vínculos de prover, de sustentar, de dar segurança, de cuidar... "A criança e até o adulto sentem desamparo e impotência. O acolhimento de um adulto próximo é o que pode reverter o processo e trazer segurança, ao invés de levar à depressão".

Morte violenta – Se houve morte violenta, o impacto é ainda maior e é preciso procurar ajuda terapêutica: "Lidar com a morte por doença é mais fácil. Uma morte violenta ou repentina é mais difícil de elaborar e pode causar um trauma psíquico, se não houver um tratamento profissional adequado". Márcia aponta como contradição o fato de a criança encarar a violência o tempo todo, seja porque ganhou uma arma de presente, ou porque vê esse tipo de morte até em desenhos animados. "Para ela, aquela morte de desenho é figurativa, porque no próximo desenho o personagem reaparece. Mas, na vida real ela deverá entender que quem faleceu não voltará".

Morte de outra criança – Se for alguém de sua idade – um coleguinha, um priminho – ela só vai se sentir assustada se houver ameaças por parte do adulto: fulano morreu porque atravessou a rua, por exemplo. "Amedrontar não é uma boa tática. Pode-se explicar por que essa criança morreu, sem infligir o medo. Ela sentirá falta da convivência com a outra criança, principalmente se estiver envolvida em sua rotina, mas conseguirá ultrapassar essa fasesem traumas".

Morte do animal de estimação – Se a morte for de um bichinho de estimação, a reação não é muito diferente, pois a criança a encara como uma perda. "Os adultos podem se sentir mais à vontade ao explicar a morte de um cão ou gato, mas devem saber que há crianças que encaram essa perda com tanta dor que podem até ficar doentes". Para esses casos, a psicóloga sugere que se pergunte à criança se ela quer fazer um enterro simbólico do animal, que pode ser em uma caixinha ou em outro lugar mais adequado. O ritual estabelecido para o enterro é uma forma de enfrentar a morte e construir o conceito de perda. Crianças ficam muito tristes quando sabem que os pais "jogaram seus bichinhos em qualquer lugar". Afinal, ela convivia com o animal e sempre foi ensinado tratá-lo bem e respeitá-lo.

Mortes veiculadas pelos meios de comunicação – É natural que ela fique sabendo de mortes amplamente divulgadas nos meios de comunicação. Nesses casos, os pais devem explicar – sem muitos detalhes – o porquê do fato, mas não devem deixá-la exposta o tempo todo, ou isso pode gerar medo e agressividade e, pior, ela pode se identificar com a situação, se o falecido for da idade dela.

No caso de mortes em que os pais da criança são os suspeitos do crime, é preciso explicar à criança que ela é amada e que isso jamais ocorrerá com ela, mesmo quando os pais perderem a paciência. Deve-se mostrar que casos como esse são exceção, e não regra, afinal, não é nada comum os pais saírem por aí matando seus filhos por motivos sérios ou torpes.

A ida ao velório e ao enterro – Afinal, deve-se ou não levar uma criança a um velório ou enterro? "Depende da idade", explica. "Se ela for maiorzinha, deve-se perguntar se quer ir. Não sem antes explicar o que ela vai ver – posição no caixão, pessoas chorando etc. O objetivo, nesse caso, é levá-la para desmistificar a fantasia, mas trazê-la de volta na primeira oportunidade. O mesmo deve ser feito com uma criança de colo, caso não tenha com quem deixá-la, deve-se evitar ficar desesperado na frente da criança ou deixá-la de colo em colo. A criança deve presenciar a cena o menor tempo possível".

Medo da pessoa que faleceu – Se a criança teme a pessoa que morreu, achando que ela pode aparecer como um fantasma, ou nos sonhos, isso provavelmente veio de uma crença da própria família, na qual os mortos podem aparecer em sonhos ou quando a criança fizer algo de errado "A criança ouviu isso de alguém, ela não tira uma idéia dessas do nada. O fantasma em si não é assustador, mas sim a fala que está por trás disso", diz. É inadequado usar a ligação entre a criança e a pessoa que faleceu para assustar a criança, com frases como: "O seu pai está vendo tudo que você está fazendo de errado com a mamãe ou na escola e ele ficará triste com você".  Essa atitude poderá causar medo do escuro e fazer com que a criança não queira dormir sozinha. Se a criança fala o tempo todo na pessoa que morreu, mesmo depois de dois anos do fato, é importante perceber se essa insistência causa alterações. Se houver piora no desempenho escolar, agressividade, isolamento, medo de tudo, insônia, insegurança em geral, são sintomas emocionais e significa que a criança precisa da ajuda de um especialista. "A compreensão de qualquer morte vai depender de como os adultos elaboram seu próprio luto", conclui.

Mudanças – É importante ter claro que a informação da morte para a criança vai mudar sua rotina, qualquer que seja a idade. Por isso é preciso esclarecer o porquê dessas mudanças e deixar que ela participe das mesmas. Se houver uma mudança na situação financeira, por exemplo, deve-se explicá-la aos poucos, e procurar mudar o contexto material com muito cuidado. "Se a mãe ficou viúva, ela deve vender o carro antes de tirar a criança da escola, ou de mudar de residência, para que os vínculos que a criança tem não sejam tirados de uma só vez e a perda não seja ainda maior", sugere. Ela deve sentir que pode contar com a mãe e que não vai se separar de seus vínculos, sejam os vizinhos, sejam os coleguinhas de escola. "A infância é uma fase transformadora e tudo o que acontece fica infiltrado no psiquismo. Questões sociais, pessoais e familiares ficam evidentes, daí a importância da preservação social e cultural".

Evitar um trauma maior depende da fala do próprio adulto. "Claro que cada um tem sua crença religiosa, mas deve-se evitar explicações do tipo ‘seu irmãozinho virou uma estrelinha’, porque a criança também vai querer ser uma, para estar próxima do irmãozinho. Quando se inventa uma coisa dessas, só se retarda um processo natural da vida, e a criança pode até achar bom ir para o céu ou virar estrelinha", alerta. Outra atitude perigosa é colocar o ser falecido ‘dentro de casa’ e usá-lo como ameaça. Por outro lado, não se devem esconder as fotos do familiar morto: "Quando surgir a saudade do pai, a mãe pode, junto com a criança, mostrar as fotos e lembrar de boas situações passadas juntos", exemplifica.

Entre os 12 e até 16 anos é mais difícil absorver a morte de um familiar próximo. "Na idade da reconstrução da identidade, quando se perde um dos genitores, o adolescente pode se sentir culpado por ter tido desentendimentos excessivos – o que são esperados nessa idade – e não ter tempo de desculpar-se de suas falhas. Sente-se desamparado e com medo do futuro. Ele mesmo pode pedir a ajuda de um profissional para passar por essa fase de depressão e estar bem consigo mesmo", conclui a psicóloga.

 

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