Amadurecer nem sempre significa envelhecer

Amadurecer nem sempre significa envelhecer

Atualizado: Quinta-feira, 5 Novembro de 2009 as 12

Pensar no amadurecimento feminino causa muitas confusões, pois diz respeito a uma trajetória de vida que nem sempre culmina no envelhecer. O amadurecer é um processo de mudança biopsicossocial que está ligado a mecanismos que envolvem o emocional das pessoas.

O conceito de amadurecimento leva em conta as diferentes fases da vida da mulher, na qual as etapas que se sucedem podem ou não ser entendidas e elaboradas ou, até mesmo, fazerem parte de um processo de luto.

"Para algumas mulheres a experiência dos filhos saírem de casa para estudar fora ou construírem suas próprias vidas, por exemplo, sempre causa dor. Por mais resolvida que seja a relação entre eles, momentos de transição podem também reviver antigas feridas e episódios que não puderem estar bem reparados internamente. As crises ligadas a mudanças provocam desconforto, gerando inúmeras ansiedades, assim como medo do que nós desconhecemos", explica a psicanalista mestre em gerontologia Dorli Kamkhagi.

Esta fase também anuncia a possibilidade de viver com novos e diferentes espaços. A chamada crise do "ninho vazio" pode ser vivenciada com muita dor, assim como vir acompanhada de um sentimento de perda da identidade de "mãe-cuidadora". Nesta fase acontecem as mudanças físicas, hormonais e a sensação de que uma etapa está terminando. Também cabe a algumas mulheres contemporâneas que possuem pais idosos tomar a difícil decisão de cuidar deles ou contar com a ajuda de enfermeiros.

A psicanalista explica que este momento pode representar conflitos e sentimentos de perda e impotência, embora para muitas mulheres também possa ser o instante de se voltar aos seus desejos. "Os acontecimentos podem ser um detonador para que novos projetos de vida ou mesmo antigos sonhos se concretizem. Elas descobrem criatividades que estavam presas e que agora podem aflorar, pois possuem um local e amplitude para se expressar", fala Dorli.

Para as que têm uma identidade profissional bem estabelecida, por exemplo, esta nova fase pode ser de recuperação de identidades e reencontros esquecidos e trancafiados nos porões dos medos.

A passagem do tempo instaura em cada ser uma sensação ligada a sua subjetividade e acaba levando a novas formas de temporalidade. O processo de amadurecimento se dá por meio da aceitação destas mudanças, de uma grande reflexão e novas significações da vida.

"Transformar significa mudar, crescer e ter outra forma de ser. Sempre digo a minhas pacientes que talvez agora seja tempo de escrever um outro capítulo de suas vidas, com novas cores e tintas. Assim se faz o amadurecer, um crescimento por meio da elaboração de lutos, dando um caminho para que outros percursos se instalem", finaliza a especialista.

Dorli Kamkhagi

Doutora em Psicologia Clínica e Mestre em Gerontologia pela PUC-SP, Dorli Kamkhagi faz parte da Internacional Association of Group Psychotherapy and Group Process (IAGP) e é colaboradora do Laboratório dos Estudos do Envelhecimento, Hospital Dia e psicóloga do Lim 27 - Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Kamkhagi é autora do livro 'Psicanálise e Velhice' e de diversos artigos publicados em jornais de grande circulação sobre o envelhecimento e amadurecimento. Realiza palestras e workshops ligados às questões sobre saúde, relacionamentos e vínculos afetivos, além de ser terapeuta de casais e grupos.

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