Aprenda os códigos da linguagem virtual e entenda melhor seu filho

Aprenda os códigos da linguagem virtual e entenda melhor seu filho

Atualizado: Segunda-feira, 14 Junho de 2010 as 9:29

Antes de ir para a escola, lá pelas 7 da manhã, Bianca Branco, 14 anos, de São Paulo, dá um jeitinho de ligar o computador para ver quem xeretou seu Orkut, se tem recados novos ou amigos para adicionar. "Levanto mais cedo só pra não passar a aula inteira curiosa", conta. Bianca é como a maioria dos adolescentes: não fica um dia sequer sem acessar o Orkut e o MSN. "O computador fica ligado direto depois que chego da escola. Até quando faço lição continuo online, mas aviso que estou ocupada." A mãe, a dona-de-casa Eliana, 39 anos, acompanha de perto os relacionamentos virtuais da filha: "Se eu não conheço, não deixo ela aceitar como amigo. Bianca já sabe o meu jeito. Resultado: faz parte da comunidade ‘Minha mãe não fala, dá palestra’. Nem ligo!" Mãe e filha vivem em conflito por causa do uso excessivo da internet. "Com o computador, ficou mais difícil conversar. Se deixar, é o dia todo grudada na tela", reclama Eliana.

Há um grande paradoxo no crescimento das redes sociais virtuais e na expansão de ferramentas como o MSN Messenger e outros programas de conversa em tempo real, sem falar nos celulares superequipados. Eles criaram múltiplas possibilidades de interação, permitindo aos jovens teclar com amigos do mundo todo. A comunicação dentro da família, no entanto, entrou em curto-circuito. Além da falta de intimidade com as tecnologias utilizadas pelos filhos, os pais dessa geração, que já nasceu conectada, reclamam do emaranhado de abreviações e sinais gráficos, que simplesmente exclui das conversas os mais velhos.

Não que esse seja um fenômeno do nosso tempo: desde sempre, os adolescentes buscaram a individualidade. "Faz parte do processo questionar os pais e buscar apoio nos amigos. Dentro do grupo, há códigos próprios de escrita, fala e modos de vestir. Quem não se lembra da língua do pê ou dos diários escritos em linguagem cifrada?", argumenta Iris Tempel Costa, mestre em psicologia do desenvolvimento, de Porto Alegre. A diferença é que os jovens de hoje lançam mão de novas estratégias para isso. Mas não é aceitável que a tecnologia crie dificuldades intransponíveis de comunicação entre as gerações. O primeiro passo cabe aos pais: familiarizarem-se com as novidades.

Conhecer para compartilhar

Para a massoterapeuta Anna Mirtes Magalhães, 42 anos, de São Paulo, conversar com a filha, Gabrielle Quandt de Freitas, 17, por MSN virou rotina. No começo, Anna pediu ajuda à garota e sofreu um bocado. "De tentativa em tentativa, consegui entender cada um dos programas que ela usa e hoje participo de tudo", diz. Mesmo sem ter perfil no Orkut e sem acessar os programas de mensagem instantânea, a administradora de empresas Nilza Reple, 48 anos, de São Paulo, pede para ver os recados e as fotos que suas filhas gêmeas Isabela e Gabriela, 13 anos, postam no Orkut. Ela também pergunta quem são os amigos adicionados na rede social delas. "Não tenho paciência para participar dessas redes, mas faço questão de saber como minhas filhas estão utilizando essas ferramentas", diz.

Os níveis de interação com a tecnologia variam, mas os especialistas são unânimes em afirmar que ter algum conhecimento sobre os principais programas e sites acessados pelos filhos é fundamental. "Até mesmo a falta de habilidade dos pais serve como gancho para uma interação maior. A mãe pode pedir ajuda ao filho e, assim, abrir espaços de interação, compartilhando experiências. O exercício traz ganhos para todos", afirma a psicopedagoga Maria Irene Maluf, de São Paulo. Também para a educadora Beatriz Corso Magdalena, de Porto Alegre, é preciso encarar sem preconceito as oportunidades trazidas pelas tecnologias digitais. "A grande vantagem delas é a possibilidade de construir uma rede de pessoas que pensam, trabalham e crescem cognitivamente juntas."

Conhecer para proteger

Segundo o levantamento brasileiro Kids Experts 2008, encomendado pelo canal Cartoon Network, 80% dos adolescentes entre 13 e 15 anos se comunicam com os amigos via mensagens instantâneas. Dos usuários com idade entre 10 e 12 anos, 67% afirmam usar com alguma freqüência programas como o MSN Messenger ou o Google Talk. Em relação às redes sociais, como Orkut, MySpace, Live Spaces e Facebook, a Kids Experts apurou que 74% das meninas e 58% dos meninos usam os sites para se comunicar com amigos. Divulgada em agosto, a pesquisa ouviu 6 736 crianças e adolescentes. Os celulares também são indispensáveis no dia-a-dia dessa geração. Pesquisa da TNS Interscience – empresa que avalia tendências em telecomunicações – mostrou que as crianças e adolescentes têm acesso ao celular cada vez mais cedo: 25% dos adultos entrevistados afirmaram que seus filhos com idade entre 6 e 9 anos já possuíam o próprio aparelho. Na faixa dos 10 aos 12 anos, a penetração chega a 32%. Entre os jovens de 13 a 15, esse número sobe para 44%.

Com a telefonia móvel e a comunicação escrita e em tempo real, os jovens ganharam mais privacidade. O que nem sempre é boa notícia. Segundo uma pesquisa divulgada em outubro pela ONG SaferNet, que combate a pornografia infantil, 63% dos pais admitiram não restringir a navegação dos filhos. O mesmo levantamento mediu o nível de vulnerabilidade desses jovens aos perigos da rede. Nada menos do que 53% confessaram já ter acessado conteúdos impróprios para a idade deles. Pior que isso: 28% dos jovens entrevistados já haviam encontrado pessoalmente amigos feitos pela internet. E 65% deles não avisaram os pais sobre o compromisso agendado com uma pessoa estranha.

Conhecer para monitorar

Cada família busca o melhor jeito de lidar com os riscos embutidos no mundo das novas tecnologias. A dermatologista Mônica Aribi Fiszbaum, 47 anos, acredita no poder do diálogo e procura participar intensamente da rotina do filho, Tomaz, 17 anos. O garoto tem computador no quarto e usa uma senha pessoal para acessar os conteúdos, o que lhe garante total privacidade. "Nós convivemos bastante, o que acho fundamental. Então, sei quais são os interesses dele, conheço o filho que tenho. Quando percebo que é o momento de intervir e conversar, faço isso." Qualquer que seja a estratégia escolhida – dialogar, instalar filtros que bloqueiam conteúdos, navegar nos mesmos sites que os filhos –, o importante é criar limites. O desafio para os pais é estabelecer a justa medida entre o respeito ao espaço particular e a restrição aos acessos e interações virtuais. "Meu filho é da minha responsabilidade pedagógica, amorosa e afetiva", lembra o filósofo e educador Mario Sergio Cortella. "Ele pode ter sua privacidade, mas as pessoas com quem faz contato e as pontes que lança sobre o mundo também devem ser o território do meu cuidado." É interessante que os pais visitem as redes sociais de que os filhos fazem parte, observando as comunidades em que se integram, os recados deixados pelos amigos, as fotos publicadas e até os colegas que ele adicionou, tentando conhecer, na medida do possível, a procedência desses contatos. As páginas são públicas e, por isso mesmo, não há mal nenhum em visitá-las. Também é imprescindível indagar sobre os amigos com quem conversam nos programas de mensagem instantânea. Freqüente a página do Orkut de seu filho e siga os links para os amigos dele", orienta Adelize Generini de Oliveira, autora do livro GUIA PARA PROTEGER SEU FILHO NA INTERNET (EDITORA RELATIVA). "Se seu filho tem um blog, leia-o periodicamente, assim como o dos amigos. Coloque o nome do adolescente e dos principais colegas no Google para ver se há algum site já listado pelo programa em que seu filho aparece de forma perigosa." O acesso à internet também pode ser monitorado por softwares específicos e algumas páginas podem ser previamente bloqueadas. O histórico de sites que o filho acessou fica gravado no computador e é possível fazer a consulta a qualquer tempo.

A geração do Internetês

Os adolescentes empregam rotineiramente as simplificações de sílabas e palavras que tentam se aproximar de situações orais do uso da linguagem. Assim, "você" vira "vc" e "acho" se torna "axo". Mas essa não é a única novidade do idioma virtual. Além de letras, os jovens se comunicam na rede manipulando sinais, como os parênteses, o hífen e a pontuação, na tentativa de transmitir emoções, já que não podem ver os rostos de seus pares. Uma gargalhada, por exemplo, pode ser representada pelo símbolo : - )))))).

Para o doutor em lingüística e autor do livro Interação na Internet: novas formas de utilizar a linguagem (Editora Lucerna), Júlio Araújo, não se trata de uma língua à parte, mas de uma das muitas variações possíveis dentro do português formal. "Acho exagerado enxergar nessa forma de comunicação uma tentativa de matar o idioma pátrio. Ela apenas faz parte das inevitáveis mudanças pelas quais passam as línguas naturais", diz o especialista. A grande questão que se coloca aos pais e educadores é justamente restringir o uso dessa forma lingüística aos meios virtuais, onde ela é particularmente eficaz. "Hoje em dia, observamos com preocupação a contaminação da linguagem utilizada na escola pelo texto de internet", diz a coordenadora pedagógica do colégio Domus Sapientiae, Ana Maria Império.

Para Araújo, a saída é descobrir maneiras de explorar os recursos dessa nova forma de interação, apontando, em sala de aula, as diferenças entre ela e a língua formal e explicando a utilidade de cada uma em momentos específicos da vida do adolescente.

Dicionário virtual

Conheça algumas das formas de comunicação mais utilizadas pelos adolescentes

naum = não

s = sim

fds = fim de semana

ctz = com certeza

:-)))) = muito engraçado

:-0 = estou chocada

m**m = tem alguém espiando

tc = teclar

X-) = estou com vergonha

pq = porque

(:-( = estou muito triste

gnt = gente

Tb = também

to lgd = tô ligado

d+ = demais

:-X = beijo pra você

:-P = mostrar a língua

eh = é

Por: Rita Trevisan

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