As confissões da mulher de Potifar

As confissões da mulher de Potifar

Atualizado: Quarta-feira, 21 Outubro de 2009 as 12

Meu marido acaba de partir para uma viagem: ele e os demais oficiais de Faraó estão indo a Canaã para as exéquias de Jacó, pai de José, há 27 anos governador do Egito. Nunca vi um cortejo fúnebre tão concorrido. Apesar da idade - sou uma mulher sexagenária -, tenho me sentido muito bem nestes últimos 17 anos. Este estado de espírito contrasta muito com o tormento pelo qual passei por mais de 20 anos. O problema não era orgânico, mas tinha sérios reflexos sobre o corpo. Embora preferisse não falar sobre um assunto tão íntimo, decidi romper o silêncio.

O amor não correspondido gera ódio

Tudo começou com uma profunda admiração por José. Apesar de viver fora de casa e de seu próprio povo, o rapaz era um prodígio em termos de capacidade e honradez. Rapidamente meu marido o colocou como mordomo de nossa casa e de tudo quanto possuíamos. Graças à administração de José, experimentamos uma prosperidade nunca antes alcançada. O governador era também um homem atraente de porte e de aparência. De repente, percebi que estava apaixonada por ele, muito embora fosse uma mulher casada e alguns anos mais velha. Tentei abortar os sentimentos, mas foi em vão. Por fim, falei com ele claramente sobre a questão. O rapaz me fechou com resolução e firmeza. "Como cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?"

Admirei-me de seus princípios morais e éticos, mas não me dei por vencida. Fiz uma pressão tremenda na esperança de ser bem-sucedida. Não tive êxito. Então, armei uma cilada que me parecia destinada ao sucesso. Certo dia, quando não havia ninguém em casa, segurei José pelas roupas e voltei a falar-lhe de minhas propostas amorosas. Ele simplesmente se desprendeu de mim e fugiu.

"De repente, percebi que estava apaixonada por José, muito embora fosse uma mulher casada. Tentei, em vão, abortar os sentimentos"

Como o amor não correspondido gera ódio, fiz uma coisa que hoje considero mais vergonhosa do que minha conduta inicial. Para me vingar de José, acusei-o de tentativa de estupro e armei um escândalo. O despeito era tão grande que meu desejo era que José fosse morto. Mas, para total surpresa minha, Potifar apenas o lançou no cárcere.

A história teria terminado aí se não fossem duas coisas: primeiro, a suspeita de que meu marido não acreditara piamente no drama que eu fizera; segundo, a rápida ascensão de José no cárcere e, depois, na casa de Faraó. De um lado, eu corria o risco de ser achada em meu adultério, em minha farsa e em minha vingança. De outro, eu me exasperava com o sucesso de José - uma espécie de recompensa de seu Deus a sua fidelidade e sua integridade. Desde então, achei-me em tormento.

Eu não amava quem deveria amar

Meu marido é militar. É o comandante da guarda de Faraó. Temos uma peça aqui em casa, no subsolo, reservada aos presos do rei - é uma prisão especial. Foi lá que Potifar pôs José. Não tardou muito, este rapaz de vinte e poucos anos ganhou a simpatia e a confiança do carcereiro, que o colocou como auxiliar-mor no cuidado dos presos, com o conhecimento e a aprovação de Potifar. Isto me deixou seriamente intrigada. Como pode o marido proteger aquele que tentou adulterar com a esposa? Eu dizia comigo mesma: "Certamente, Potifar não engoliu aquela mentira."

Quando Faraó teve uns sonhos macabros - de vacas magras devorando vacas gordas e espigas mirradas devorando espigas grandes e cheias —, ninguém, senão o próprio José, foi capaz de interpretar as visões da parte de Deus. O sucesso foi tal que Faraó o retirou do cárcere e o colocou nos ministérios da Administração Pública, da Fazenda e da Agricultura. O hebreu tinha apenas 30 anos de idade quando se tornou o senhor da terra, o governador do Egito. A esta altura, era cada vez mais difícil acreditar na minha denúncia, na minha calúnia.

"No íntimo, eu odiava esse Deus que havia imposto a José regras que me atingiram e contrariaram o meu ego"

Tive uma crise muito forte quando José se casou com Azenate. Eu ainda era uma mulher dividida, solta e insolente. Não amava quem deveria amar e amava quem não deveria amar. Potifar torcia por José. De vez em quando, comentava comigo que o governador estava repetindo no governo o sucesso que havia tido aqui em casa. Dizia que, além da capacidade e do trabalho de José, estava o Deus dele. "Os seus braços são feitos ativos pelas mãos do Poderoso." No íntimo, concordava com meu marido, mas eu odiava esse Deus que havia imposto a José regras que me atingiram e contrariaram o meu ego.

O dia em que espremi o velho tumor

O governador se tornou notável em toda a terra do Egito e além das fronteiras. Nos sete anos de fartura, ele percorreu o país de ponta a ponta e recolheu muitíssimo cereal, como a areia do mar. O excesso dos campos era cuidadosamente armazenado. O trabalho foi tão bem realizado que, nos sete anos de seca, houve alimentos para todos e até para as nações vizinhas, igualmente atingidas pela fome. Entre os beneficiados pela política de armazenagem de José estava a sua própria família, que se mudou de Canaã para o Egito nove anos depois que ele começou a sua administração. Jacó tinha então 130 anos. Faraó tratou-os com toda distinção e deu-lhes a terra de Gósen, perto de Heliópolis.

Meu marido contou a Jacó que José havia administrado a nossa casa durante alguns anos com lisura e competência. Mas desconversou quando Jacó perguntou sobre o período que o filho havia passado na prisão. Neste momento, senti uma coragem enorme e resolvi espremer o velho tumor. Na presença de meu marido e de outros oficiais de Faraó, tomei a palavra e falei toda a verdade. Potifar ficou surpreso com a minha ousadia, mas não com a minha confissão.

O velho Jacó foi complacente comigo e contou-me que os seus próprios filhos também haviam pecado contra José, vendendo-o como escravo a uma caravana de ismaelitas que ia para o Egito, e por 23 anos sustentaram a falsa versão de que o rapaz havia morrido. Disse-me que Deus não se deixa escarnecer e que os pecados de alguns são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros só mais tarde se manifestam. Acrescentou que a confissão espontânea tem mais valor que a confissão arrancada pela força da denúncia.

Além de um inefável bem-estar íntimo, a minha brusca confissão me pôs em paz com meu marido e reparou a grave injustiça que eu havia cometido contra aquele estrangeiro transformado em herói nacional. Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto, não pelas trevas, mas pelas misericórdias do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, que é também o meu Deus!

Retirado e adaptado de Deixem que elas mesmas falem - As mulheres da Bíblia com a palavra, de Elben M. Lenz César (Ultimato).

veja também