Bens materiais versus bens imateriais

Bens materiais versus bens imateriais

Atualizado: Sexta-feira, 7 Outubro de 2011 as 9:42

Uma questão muito presente na vida dos seres humanos é a aquisição e a permanência ou manutenção de bens. Refiro-me a bens materiais como todas aquelas coisas que podem ser comercializadas, independente de seu valor de mercado. Quando falo dos bens imateriais estou fazendo alusão àquelas coisas que não podem ser comercializadas, abrangendo, por exemplo, pessoas, valores e sentimentos.

Um grande problema que percebo no discurso de várias pessoas é que o interesse nos bens materiais vem se sobrepondo ao interesse pelos bens imateriais, ou seja, as pessoas se preocupam mais em adquirir um imóvel, por exemplo, do que em preservar os laços familiares. Infelizmente isso é muito evidente em relação aos mais idosos.

Acredito que todos vocês, leitores, já escutaram, em algum momento de suas vidas, alguma história de filhos que brigaram por herança após a morte dos pais ou, pior ainda, aqueles que discutem por algo que ainda não é deles, enquanto o idoso ainda está vivo.

Após a morte de um ente querido realmente é necessário tomar providências legais em relação a bens materiais como, por exemplo, a realização de um inventário para que os bens deixados pelo idoso sejam distribuídos entre aqueles que têm direito. Isto é uma coisa natural, inerente à vida e à morte, porém a falta de amor ultrapassa os limites entre o “natural” e o “ambicioso”. Há histórias de pessoas, sejam familiares ou não que, após tomarem conhecimento da situação financeira de um idoso, aproximam-se dele com o intuito de, após o óbito, tornar-se herdeira de algum testamento. Algumas chegam a se tornar cuidadoras de um idoso com este fim.

Será que uma atitude desta tem validade do ponto de vista da caridade para com alguém que necessita de cuidados e atenção? Será que, futuramente, esta pessoa vai ser feliz com essa herança se pensar sobre sua atitude de um ponto de vista moral? Será que há ou houve algum tipo de laço afetivo entre esta pessoa e o idoso? E o inverso? Será que este idoso amou esta pessoa inescrupulosa e obteve ingratidão como resposta (e morreu sem saber com quem estava lidando)? São questões que estimulam nossos questionamentos sobre família, moral e ambição.

Mais triste é quando acontece que a família já demonstra interesse na divisão dos bens antes mesmo da morte do idoso. Os conflitos sobre a divisão dos bens materiais acontecem muitas vezes na presença do idoso, que se sente triste, desvalorizado e injustiçado por parte da família. Muitos chegam a ficar deprimidos, pois sentem que sua vida está sendo deixada em segundo plano, já que os familiares priorizam a questão dos bens. Mais uma série de questionamentos vem à tona, os quais ilustram que, para muitas pessoas, os bens materiais valem muito mais que a presença do ente querido, sua vida, o sentimento de amor que une as famílias e os valores outrora ensinados.

Por mais que a divisão dos bens seja algo importantíssimo e urgente a se resolver, a família deve respeitar a vida do idoso e não tomar providências antes do falecimento do mesmo, a menos que o idoso expresse o desejo de realizar a partilha em vida, através de um testamento. Caso algum familiar observe este tipo de movimentação entre os outros parentes, é importante cuidar para que o idoso não se dê conta disso. O idoso doente, em especial aquele que está lúcido, percebe os reais interesses dos que estão ao seu redor e, sem sombra de dúvidas, sentir que seus bens materiais despertam mais interesse em seus familiares que os bens imateriais que deixou a eles é uma situação horrível.

A valorização dos afetos, da convivência e da companhia de alguém é, antes de mais nada, questão de educação e respeito, que deve ser ensinada no seio familiar. Porém, os valores introjetados podem ser modificados no decorrer do desenvolvimento humano e pode haver uma inversão de valores. Devemos cuidar sempre para que estes valores impostos por uma sociedade consumista, egocêntrica e individualista não deixem em segundo plano os reais valores da vida, como, por exemplo, o amor, a caridade, o vínculo entre as famílias.

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