Brincadeiras simples contribuem para prolongar a infância

Brincadeiras simples contribuem para prolongar a infância

Atualizado: Sexta-feira, 10 Outubro de 2008 as 12

Escutar histórias e lendas, improvisar um jogo de futebol de botão, produzir roupinhas com retalhos de pano, fabricar bonecos de legumes com as próprias mãos e brincar de cabra-cega. "Essas brincadeiras simples e lúdicas perdem cada dia mais espaço na vida das crianças, que já são preparadas desde cedo para se tornarem profissionais vencedores. São os pequenos executivos com agenda sobrecarregada. Observamos assim um processo de encurtamento da infância", alerta o coordenador da Residência de Psiquiatria Infantil da Faculdade de Medicina da UFMG, o psiquiatra José Raimundo Lippi.

Na semana de comemoração ao "Dia das Crianças - 12 de outubro", o especialista afirma que os pais devem ficar atentos aos valores e princípios repassados durante essas datas. "Não é um dia para celebrar o consumismo. O principal é comemorar o momento da infância, compartilhar atividades lúdicas com a família e colegas da mesma idade".

O psiquiatra explica que a época de ouro, que sempre caracterizou a infância, não existe mais. Atualmente, as crianças e os adolescentes vivem a Síndrome da Modernidade Líquido-contemporânea, na qual tudo é volátil, pois os brinquedos e as pessoas se tornaram descartáveis. "As relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto - familiar, de casais, de grupos de amigos e de afinidades políticas, por exemplo - perde consistência e estabilidade", detalha Lippi.

Diante deste cenário, o papel dos pais se torna ainda mais essencial, com a dedicação e a atenção aos sentimentos dos filhos e o estímulo na escolha das atividades mais adequadas para o desenvolvimento infantil. Os jogos de computador, vídeo-game e televisão não precisam ser proibidos, mas devem ser limitados. Assim também são os brinquedos eletrônicos, que obedecem a comandos. "Eles não são criativos, mas sim repetitivos. Está provado que quanto mais nova, mais a criança tem necessidade de brincar. O importante é estimular brincadeiras simples, nas quais ela possa inventar a lógica e as formas de interação. Aquelas que brincam, fantasiam e criam desde cedo serão os criadoras do futuro", conta.

No momento em que a criança inicia a fase de crescimento e de sensibilização das relações de afeto, alguns objetos devem ser substituídos por seres vivos, como os animais, por exemplo, que são boa opção de presente para a data. "Ela não interage mais com total poder sobre o objeto e suas ações provocam reações. A criança vivencia novas experiências, desenvolve a relação de afeto, o sistema sensório motor e o campo psicológico. A combinação entre o menino e os animais é praticamente perfeita. Estudos mostram que viver com eles promove a saúde física, diminui a solidão, a depressão e a ansiedade e aumenta a responsabilidade na infância", analisa.

Ele observa também que, dependendo da idade, a criança precisa ter responsabilidade sobre o animal e deve ser orientada e estimulada por um adulto. "Meninos e meninas com menos de quatro anos ainda não sabem distinguir o seu bichinho de pelúcia do animalzinho de estimação e podem machucá-lo ao apertar demais ou bater para recriminar algo que o animal tenha feito. Crianças acima de cinco anos podem ter mais responsabilidades, como levar o bicho de estimação para passear, dar banho e até aprender alguns comandos de adestramento", comenta.

Os livros também estão entre os presentes mais aconselhados para o Dia das Crianças. Imaginação e valores éticos são fatores trabalhados desde cedo pela literatura infantil. Durante a fase mais fantasiosa da vida, as crianças precisam de estímulos menos concretos. Músicas, ilustrações e histórias que possibilitem idealizar um mundo próprio são os instrumentos mais indicados para incentivar a criação e a inspiração tanto nessa fase quanto no futuro.

Histórias que possuem valores éticos e morais aliados aos bons exemplos vividos em família são essenciais na formação do superego. "A busca pelos livros deve ser estimulada desde cedo. Mesmo os livrinhos de pano, apenas com figuras, já são aconselhados para que as crianças se familiarizem com o objeto e com a forma com que as narrativas são traçadas. As figuras estimulam as fantasias, as experiências ficam impressas em cada um e irão influenciar as ações e a consciência no amanhã", conclui.

veja também