Casais podem ser 'treinados' para evitar a traição

Casais podem ser 'treinados' para evitar a traição

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:25

Por que alguns homens e mulheres traem seus parceiros enquanto outros resistem à tentação? Para achar a resposta um número crescente de pesquisas está focado na ciência do compromisso. Os cientistas estudam tudo, de fatores biológicos que influenciam a estabilidade matrimonial até a resposta psicológica de alguém após flertar com estranhos. As conclusões sugerem que, enquanto algumas pessoas são naturalmente mais resistentes à traição, as demais podem treinar para proteger seus relacionamentos e alimentar a chama do compromisso.

Estudos recentes levantaram questões sobre o quanto fatores genéticos podem influenciar a estabilidade do casamento. Hasse Walum, biólogo do Instituto Karolinska, na Suécia, pesquisou 552 pares de gêmeos para estudar o gene relacionado a um hormônio que regula a química do cérebro, a vasopressina. Homens que possuem uma variação nesse gene têm menos chances de se casar - e, quando se casam, correm mais risco de terem problemas de relacionamento e mulheres infelizes.

Os homens que têm duas cópias da variação genética, por volta de um terço da amostra, enfrentaram crises em seus relacionamentos no ano passado - o dobro do número dos não possuem a variação. Embora seja chamado de "gene da fidelidade", Walum acha o termo impróprio: sua pesquisa era focada na estabilidade do casamento, não na fidelidade. "É difícil usar essa informação para prever um comportamento futuro do homem", disse ele. Agora, Walum e seus colegas trabalham para conduzir uma pesquisa similar com mulheres.

Outros estudos sugerem que o cérebro pode ser treinado para resistir às tentações. Uma série de pesquisas incomuns lideradas por John Lydon, psicólogo da Universidade McGill, no Canadá, analisa como as pessoas envolvidas em um relacionamento reagem quando encaram a possibilidade da traição. Em um estudo, pediu-se a homens e mulheres seriamente comprometidos para qualificar pessoas do sexo oposto mostradas em fotografias. Sem surpresas, as pessoas mais atraentes receberam notas altas. Depois, foram exibidas fotos similares e os entrevistados deveriam responder se tinham interesse em conhecer os retratados. Nessa situação, os participantes deram às fotos notas menores do que na primeira vez.

Quando tinham interesse em alguém que poderia estragar sua relação, pareciam instintivamente dizer a si mesmos: "Ele não é tão bonito". "Quanto mais comprometido você for", disse Lydon, "menos atração você encontrará em pessoas que podem ameaçar seu relacionamento".

Algumas pesquisas de McGill mostraram certas diferenças em como reagimos a uma possibilidade de traição, de acordo com o sexo. Em estudos envolvendo 300 heterossexuais, homens e mulheres, metade dos participantes preferiu trair imaginando uma conversa íntima com alguém atraente. A outra metade imaginou apenas um encontro rotineiro. Depois, o estudo pedia para completar espaços em branco em palavras que sugeriam lealdade e traição. Sem contar para os participantes, as palavras fragmentadas eram um teste psicológico para revelar sentimentos inconscientes sobre comprometimento.

Nenhum erro apareceu nos participantes que imaginaram um encontro rotineiro. Mas foram encontradas diferenças entre homens e as mulheres que se entusiasmaram com a fantasia intimista. Nesse grupo, os homens completaram os espaços com outras letras, formando palavras diferentes. Mas as mulheres que se imaginaram flertando, na sua maioria, escreveram corretamente as palavras "leal" e "traição", sugerindo que o exercício tocou o inconsciente sobre o envolvimento.

É claro que isso não define necessariamente o comportamento no mundo real. Mas a significativa diferença leva a pensar que as mulheres podem ter desenvolvido um sistema de alerta para ameaças a seus relacionamentos. Outros estudos de McGill confirmam as diferenças em como homens e mulheres reagem a tais ameaças. Atores e atrizes atraentes foram convidados a flertar com os participantes numa sala de espera. Depois, os participantes foram perguntados sobre seus relacionamentos, particularmente como reagiriam a um mau comportamento do parceiro, como chegar atrasado ou esquecer de telefonar.

Os homens que passaram pelo flerte perdoaram menos o hipotético mau comportamento da companheira, sugerindo que a atriz atraente os fez esquecer de seus relacionamentos. As mulheres foram mais generosas para perdoar, sugerindo que o flerte fez despertar nelas um sentido de proteção. "Nós achamos que os homens nesses estudos podem até ter comprometimento, mas as mulheres têm um plano de contingência, a alternativa da atração dispara um alarme", disse Lydon. "Mulheres implicitamente decifram isso como uma ameaça. Homens, não".

A questão é se uma pessoa pode ser treinada para resistir à sedução. Em outro estudo, um grupo de estudantes envolvidos em relacionamentos foi convidado a imaginar um flerte com uma mulher atraente durante uma semana em que a namorada estivesse fora. Pediu-se a alguns dos homens para criar um plano de contingência completando a frase "quando ela se aproximar de mim, eu vou ... para proteger meu relacionamento". Pelo fato do teste não poder trazer uma mulher de verdade para agir como sedutora, foi criado um jogo de realidade virtual no qual dois de quatro quartos incluíam imagens de mulheres atraentes. Os homens dispostos a resistir à sedução rondavam esses quartos 25% do tempo; para os outros, o índice foi de 62%.

Talvez sentimentos como amor e lealdade não bastem para manter os casais unidos. No lugar deles, cientistas especulam que o nível de envolvimento pode depender de quanto seu parceiro acrescenta à sua vida e abra seus horizontes, um conceito que Arthur Aron, psicólogo e pesquisador de relacionamentos da Universidade Stony Brook, chama de "auto-expansão". Para medir esse quesito, casais responderam a uma série de perguntas: O quanto seu parceiro oferece para você experiências excitantes? O quanto seu parceiro fez de você uma pessoa melhor? O quanto você vê seu parceiro como um jeito de expandir suas capacidades?

As pesquisas da Stony Brook usam atividades que estimulam a auto-expansão. Alguns casais respondem perguntas em conjunto, enquanto outros tomam parte de um exercício no qual foram amarrados juntos e rastejaram em esteiras, empurrando um cilindro de espumas com suas cabeças. Os testes eram manipulados para que os casais falhassem nas duas primeiras tentativas. E só conseguissem chegar ao objetivo depois de muito esforço. Os casais responderam a testes antes e depois do experimento. Os que participaram do desafio mostraram mais satisfação com o relacionamento do que os que não tiveram a experiência vitoriosa juntos.

Agora os pesquisadores estão começando uma série de estudos para medir como a auto-expansão influencia nos relacionamentos. Teorizam que casais que exploram novos lugares e tentam coisas novas vão participar de sentimentos de auto-expansão, aumentando os níveis de compromisso. "As pessoas procuram relacionamentos para que o outro se torne parte de nós, e isso nos expande", disse Aron. "É por isso que pessoas apaixonadas ficam conversando a noite toda e se sentem muito animados. Nós achamos que casais podem retomar esse sentimento ao passarem por desafios e coisas excitantes juntos".

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