Casal que queria um filho adotou cinco de uma vez só

Casal que queria um filho adotou cinco de uma vez só

Atualizado: Quarta-feira, 12 Maio de 2010 as 9:42

Estamos em Teresópolis, na Região Serrana do Rio.

"Estou muito feliz com as minhas filhas. Elas me amam, e eu sou apaixonada por elas. Elas são tudo que eu tenho na minha vida, porque existe ex-marido, ex-sogro, ex-sogra, mas não existe ex-filho e não existe ex-mãe", diz uma mulher.

Um grupo de apoio à adoção aproxima quem já adotou e orienta quem quer adotar. A ideia é da juíza Inês Santos Coutinho, que há mais de 30 anos cuida de questões que envolvem crianças. Ela é mãe de cinco filhos - quatro adotados - e se tornou uma referência de como a Justiça pode aproximar quem precisa de amor e quem precisa de alguém para amar.

"Eu amo o meu filho por natureza, porque é meu filho. O filho por adoção é meu filho porque eu o amo", afirma a juíza.

No Brasil, a imensa maioria dos casais à espera de uma criança busca reproduzir na adoção o que foi negado pela biologia. Eles procuram geralmente por um bebê recém-nascido, de preferência menina e que seja da mesma raça, da mesma cor; talvez até parecido com os pais adotivos. Isso é no começo de uma busca, que muitas vezes acaba transformando nesses casais o sentido do que é ser pai, o que é ser mãe.

O momento da virada é nas visitas aos abrigos.

"Eles ficam encantados pela aquela carência daquelas crianças e modificam o perfil. Eles buscam uma criança recém-nascida e acabam levando uma criança de três ou quatro anos, para que faça ela parte de sua vida afetiva", explica a juíza.

Ou levam mais de uma criança. Foi o que aconteceu com os funcionários públicos Lúcia Helena Santos e Nivaldo Meireles. Os dois estão no segundo casamento e, já com filhos adultos, queriam adotar uma criança. No abrigo, quando viram cinco irmãos, entre 1 e 7 anos, mudaram de ideia.

"Eu falei com ela: 'Cinco? Será que a gente aguenta cinco?'. Aí, o pessoal lá do orfanato disse: 'vocês ficam com eles uma semana, de adaptação'. Aí nos apegamos a eles. E eu falei: 'Lucia, lugar em que comem dois, comem cinco'", lembra o funcionário público.

Quem vê essa turminha exibindo as boas notas na escola não imagina que há três anos os pais biológicos os deixaram trancados em casa e sumiram no mundo. Depois de uma semana, um vizinho encontrou o mais velho, hoje com 10 anos, tomando conta dos outros.

"Lá na outra casa eu não era feliz, aqui eu sou muito mais feliz. Aqui minha mãe deixa eu fazer o que eu quiser. Eu quero estudar, me formar e ser alguém na vida", afirma Yann Meireles, filho de Nivaldo e Lúcia.

"A criança chega com trauma, e você tem que dar aquele tempo para criança, para ela ser criança. Eles queriam abraço a toda hora. Esse contato físico é o mais importante. E a partir daí, mesmo a criança sendo de idade mais avançada, se você der amor, você consegue", aposta a funcionária pública Lúcia Helena Santos.

Em outro abrigo de Teresópolis, uma audiência decide os destinos de sete crianças e seus pais biológicos.

"Tanto a mãe quanto o tio, quando alcoolizados, batiam neles", diz a juíza.

Uma família despedaçada pelo álcool, a violência, o abandono.

"O pai fora preso por causa de uma agressão feita à mãe com uso de faca" , relata a juíza.

A juíza decide destituir o poder familiar. A mãe biológica não se opõe. Os dois meninos, de 6 e 7 anos, já têm pretendentes à adoção.

"Quando nós percebemos o vazio que estava ficando a casa, pelos meninos estarem saindo, nós começamos a alimentar essa ideia de adotar uma criança", conta a dona de casa Rose Correia.

Eles queriam uma menina, mas a convivência os aproximou dos garotos. "Nós estamos entrando em um processo de guarda provisória, para convivência familiar. Então, vamos ver se vai ter tanto adaptação de nossa parte, como também adaptação da parte deles", ressalta Rose.

A adaptação começou ali mesmo, na reunião. E uma semana depois, o casal já tinha decidido pela adoção. Desde o casamento, a professora Paula Pires e o administrador de empresa Marcelo Pires queriam um filho. Foram oito anos de tratamentos sem sucesso até se cadastrar para adoção. Quando apareceu um bebê, eles queriam ver uma foto antes de ir buscá-lo. Mas a foto nunca chegou.

"Deu aquele clique: vamos embora sem ver foto. Graças a Deus que eu não vi. Graças a Deus que foi dessa forma, porque nós abrimos um pouco mão dessa coisa do perfil, principalmente para os próximos, que virão. Nós queremos mais dois. Eu tenho certeza que, quando chegar a hora do próximo, independente da cor, da idade, do histórico, no coração a gente vai saber: é ele", diz Paula.

Avós, padrinhos, primos, Antônio é o centro desse universo familiar.

"Nós ouvimos muito: 'que atitude nobre, que coisa bonita que vocês fizeram'. Na verdade, eu acho que a troca desse relacionamento é muito mais benéfica para nós do que para ele, porque ele trouxe muita coisa para nós", declara Marcelo Pires, pai do menino.

Hoje, é um Dia das Mães inesquecível para Paula, o primeiro com Antônio. "Chorei tanto nessa data. Fiquei tão triste nessa data, quando eu tinha meus braços vazios e sentia falta de ter um bebê, de alimentar, de cuidar. Foi muito difícil. Acho que nem tenho como me preparar. Acho que eu estou celebrando. A palavra é essa: celebração", afirma Paula.

"Mãe é tudo. É tudo na vida", aposta Lucia Helena.

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