Casamento: A harmonia conquistada

Casamento: A harmonia conquistada

Atualizado: Quinta-feira, 21 Janeiro de 2010 as 12

Isabelle Ludovico

Iludidos pelo "Casaram e viveram felizes para sempre!" dos contos de fada e pelos filmes de Hollywood, muitos jovens aguardam "sua cara metade". A paixão os leva a crer que o sonho finalmente se realizou. Casam com a expectativa de preencher totalmente as necessidades um do outro e se complementar em todas as áreas. No dia-a-dia, a realidade é outra. Deus não faz pessoas pela metade, mas pessoas inteiras com personalidades, histórias e heranças bem diferentes. Cada um de nós é uma obra-prima única. Harmonizar completamente as diferenças é um projeto utópico ou restritivo: só ocorre com a anulação de um dos dois.

Antigamente, o casamento bem-sucedido era aquele em que tanto o homem quanto a mulher desempenhavam estritamente o seu papel, predeterminado de forma detalhada pela sociedade. A harmonia era conseguida à custa da mulher que abdicava de qualquer projeto pessoal para se dedicar exclusivamente ao marido, aos filhos e ao bom andamento da casa. O marido era o protetor e provedor da família e, por isso, tinha o direito de exercer toda a autoridade e determinar as regras que os outros tratavam de cumprir. Viver à sombra do marido não era para a mulher apenas uma alternativa cômoda para não assumir responsabilidade, era uma obrigação inquestionável.

Contando com o apoio do movimento feminista, a mulher virou a mesa, foi estudar e trabalhar fora, tomou o volante da própria vida. Ela reivindica dividir com o homem, não somente o poder de decisão, mas o cuidado com os filhos e os afazeres da casa. O casamento não é mais um casulo onde ela se esconde do mundo, mas uma parceria, uma aventura compartilhada onde cada um assume a responsabilidade pela sua felicidade e realização pessoal. Nesse contexto, os conflitos vão se multiplicar. A harmonia que anulava a mulher não é mais possível nem almejada. O equilíbrio pode ser alcançado, mas apenas como fruto de muito diálogo e muita negociação.

Quando a paixão cega começa a ceder espaço para a rotina, os conflitos tendem a aparecer. Algumas diferenças de personalidade vão se complementar. Uma pessoa tímida pode encontrar no extrovertido um incentivo para se expor mais, enquanto o extrovertido aprende a ouvir e dar espaço para o outro. O sonhador se sentirá mais seguro perto de uma pessoa mais realista e ponderada que, por sua vez, será atraída pelo desafio de ampliar seu horizonte e dar passos mais ousados.

Outras diferenças vão tender a se polarizar e gerar cada vez mais tensão. A desordem de um pode ameaçar a necessidade de organização do outro, por exemplo. A cada cobrança, cada um se sentirá impelido a reforçar o seu jeito de ser para não ser invadido e despersonalizado pelo outro. Quanto mais um bagunça, mais o outro tende a arrumar e organizar. Em vez de encontrar um meio termo satisfatório para ambos, cada um reforça sua tendência com tanto exagero que acaba provocando muitas brigas e aborrecimentos, muita tensão e desgaste para a relação.

Importante, nessa hora, é lembrar que não existe certo e errado, mas apenas maneiras diferentes de encarar a vida. É preciso ter a disposição de se colocar no lugar do outro e tentar enxergar do ponto de vista dele. Para isso, é necessário desenvolver uma grande capacidade de ouvir e entender o outro. Em vez de considerar os conflitos e as diferenças como ameaças, é melhor percebê-los como oportunidade de crescimento e aprofundamento da relação. O desejo de fazer do outro um espelho, alguém moldado à nossa imagem, deve ser superado para acolher uma pessoa contrastante que nos desafia e amplia nossa perspectiva da vida.

É somente quando desistimos de tentar mudar o outro para que corresponda aos nossos anseios que o casamento se realiza de fato. Casar é aceitar o outro com suas qualidades e defeitos e reconhecer a sua individualidade. Os conflitos, quando encarados e superados, geram uma harmonia que não é um ponto de partida imposto por uma rígida distribuição de papéis, mas a conseqüência de uma relação onde cada um tem voz ativa e ambos aprendem a compartilhar suas emoções e respeitar suas diferenças.

Isabelle Ludovico da Silva é psicóloga com especialização em Terapia Familiar Sistêmica.

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