Coluna Alexandra Guerra

Coluna Alexandra Guerra

Atualizado: Sexta-feira, 10 Outubro de 2008 as 12

Contrastes

Uma senhora de uns setenta anos segurou minha mão e disse entre lágrimas: "Ore pelo meu filho, eu já não sei mais o que fazer! Você está começando a ser mãe [nem tanto, pensei, pois meu filho já tinha seus 16 anos] e eu já estou terminando. Meu filho mais uma vez está na casa de recuperação para drogados". Suas mãos enrugadas e trêmulas apertaram com mais força as minhas. Eu não ouvia nem via mais ninguém a nossa volta, apesar de a igreja estar cheia das pessoas que iam e vinham no final daquele culto. "Eu carrego uma culpa", ela desabou a chorar e me lançou um olhar de desespero, "pois eu falhei muito como mãe. Se eu tivesse buscado sabedoria de Deus para educar meu filho ele não seria assim".

Eu fiquei muda, com o coração apertado, pois concordei com tudo o que ela falava. Quando me lembro dessa senhora, sinto um desespero e oro por eles como ela me pediu.

Ela me faz lembrar tantas vezes que também falhei como mãe e que busquei ajuda e procurei mudar. Das vezes que já pedi perdão ao meu filho e a Deus, e como Ele me livrou do fardo da culpa. Mesmo assim, sei que vou colhendo o que tenho plantado, seja bom ou mau. Mas não tenho passado nem perto das aflições daquela senhora.

Na semana seguinte passei alguns dias convivendo com uma mãe adolescente, que despreza seu bebê. Um lindo e manso garotinho de um aninho. Essa jovem simplesmente deixa o bebê com sua avó e vai viajar ou some por dias. O que esperar de uma mãe que dá leite estragado para seu filho? "Que virá a ser, pois este menino?" Às vezes, essa jovem mãe deixava escapar algo que tinha me negado a semana toda: um olhar. Mas seus olhos não revelavam nada a não ser um vazio cavernoso.

Outro dia, conversando com outra mãe em um restaurante, ela me disse: "Essa menina estragou minha vida!". E enfiou uma colher de comida na boca da criança. Não havia qualquer empatia em seus olhos. A menina a que ela se referiu tem três aninhos, é a caçula de mais dois irmãos, é perfeita, meiga e linda. A vida que essa pequena "estragou" foi a carreira profissional da mãe. Olhei para meninha que tinha um olhar triste e fiquei muda de novo. O desespero e a decepção me calaram por um momento.  Por isso preciso escrever ou ficarei com um grito entalado na garganta. É uma necessidade, uma forma de responder a muitas mães que estão por aí.

Que contraste entre essas mães! E que semelhança!  

Se eu pudesse colocaria uma de frente para a outra: a jovem e a velha. A endurecida e a quebrantada. A que está plantando e a que está colhendo. A de olhos secos e a de olhos irrigados. A que ignora e a que ama. A arrogante e a submissa. A que faz o que deseja e a que busca a Deus. A semelhança: começaram mal a maternidade e se algo não mudar terão o mesmo fim.

O fato é que as crianças hoje em dia estão entregues a si mesmas. E todos nó temos colhido as conseqüências.

As pastagens precisam mudar, passando dos penhascos áridos e solos rachados a um solo mais verde banhado pelas chuvas que trazem vida e esperança.

Ajude-nos Senhor a clamar como uma voz nesse deserto de pais e mães. "Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do SENHOR; e converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a terra com maldição." (Malaquias 4:5,6.)

Que nossa voz chegue até esses corações áridos, entregues aos lobos, e traga quebrantamento, salvação, redenção e paz.

Alexandra Guerra é pedagoga, palestrante e jardineira. Autora do livro "Infância: O Melhor Tempo Para Semear", da Editora Betânia.

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