Coluna - Christina Rocha: Ensaio sobre a beleza

Coluna - Christina Rocha: Ensaio sobre a beleza

Atualizado: Terça-feira, 25 Março de 2008 as 12

Coluna - Christina Rocha

Ensaio sobre a beleza

Os espelhos são bons companheiros em nosso dia-a-dia. Mulheres e espelhos costumam ter uma certa afinidade, considerando que sempre nos lembramos deles para ajeitar pequenos detalhes de nossa aparência, que são relevantes para o nosso sentimento de bem-estar pessoal.

Algumas vezes nos alegramos com nossa imagem, e um pequeno detalhe pode nos ajudar a nos ver de modo renovado. Outras vezes, o espelho nos faz sentir um certo aperto na alma. Um detalhe aqui e outro ali nos fazem lembrar que o tempo está passando, que nossas formas vão se modificando, e nossa aparência requer mais cuidados do que aqueles que estamos nos permitindo dar. Com sentimento de satisfação e eventual inquietação, nossa relação com o espelho pode nos recordar de muitas coisas relevantes.

Uma bela maquiagem pode nos trazer a experiência da transformação da gata borralheira em princesa encantada. Mas nenhuma transformação essencialmente significativa em nossa vida pode se dar a partir, apenas, da contribuição de produtos estéticos. O brilho de nossos olhos e a alegria de nossos sorrisos são manifestações de beleza que dependem de um sentimento interior de serenidade, de realização, de satisfação pela nossa vida e relacionamentos.

Se existem coisas que estão nublando nossa esperança e abatendo nossa alma, nada poderá disfarçar a expressão verdadeira de nossos afetos. "Um coração alegre torna formoso o rosto."

As marcas de expressão não são bem-vindas. Costumamos nos inquietar com elas. Mas serão nossas companheiras com o passar dos anos. Melhor que possamos ver no espelho marcas de expressão de compreensão, perdão, bom-humor e afetuosidade, do que marcas de um coração amargo, de palavras mal ditas que entristecem nosso espírito. Pode ser que não possamos nos livrar impunes de nossas rugas na face, mas podemos evitar as rugas que aprisionam nossa alma, cuidando de nossas emoções.

A beleza tem contornos sutis e com certeza não é determinada pelas imposições de padrões coercivos dos meios de comunicação e da escravidão às formas perfeitas dos corpos. Somos humanas, diversas, singulares, e podemos ser belas mulheres - cada uma à sua própria maneira - se estivermos nos constituindo em belas pessoas.

A preocupação estética pode ser a manifestação saudável de nossa harmoniosa convivência com o que somos e com os desafios que enfrentamos, mas jamais deve ser a única lente através da qual enxergamos nossa vida e nossa expressão de feminilidade.

Nossos olhos costumam ser nossos maiores críticos. Demasiadamente preocupadas com nossa aparência, por muitas vezes, esquecemos que essa é apenas uma parte do que somos, e está sintonizada com o todo que manifestamos. Devemos cuidar de nossa aparência com o mesmo carinho e cuidado que dispensamos à nossa saúde física, emocional, relacional e espiritual.

Que o olhar nos espelhos nos ajude a contatar os espaços do nosso coração. Que possamos sondar a nossa alma, resgatando sonhos, esperanças e desejos de realização. Que os espelhos nos lembrem de que os sorrisos, o perdão, a compreensão e palavras amáveis são excelentes cosméticos para nossas marcas de expressão. Que possamos cultivar a beleza de nosso corpo, em cada tempo, com suas singularidades, com o mesmo cuidado que dispensamos à beleza de nossa interioridade.  

Christina Rocha é graduada em Educação Religiosa e em Filosofia - com habilitação em Psicologia, História e Filosofia. Mestre e Doutora em Teologia - pela Escola Superior de Teologia. Com experiência na direção geral, acadêmica, gestão administrativa e consultoria especializada de instituições de educação básica e ensino superior. Palestrante nas áreas de Educação, Teologia e Filosofia. Pesquisadora na área de análise do discurso. Docente no Ensino Superior e avaliadora de Cursos Superiores pelo INEP/MEC.

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