Coluna - Christina Rocha

Coluna - Christina Rocha

Atualizado: Segunda-feira, 16 Junho de 2008 as 12

Coluna - Christina Rocha

"Não estejais ansiosos por coisa alguma"

Hoje, estou escrevendo sobre controle. Conversando com uma pessoa amiga, falávamos a respeito da ansiedade. Na ocasião, afirmei que a ansiedade é resultado do medo do futuro e da tentativa de controle das circunstâncias. Afirmei ainda que a tentativa de controle é uma ilusão. Não temos nenhum controle sobre a vida ou as circunstâncias. Planejamos, é certo. Fazemos escolhas, tomamos cuidados, corremos alguns riscos - medidos por algumas certezas que afirmamos no coração, usamos de bom senso (ou o que pensamos ser), mas não temos realmente nenhum controle sobre pessoas e/ou circunstâncias.

A vida tem imensa dinamicidade. Os dados da realidade mudam de modo surpreendente, e a disponibilidade de coração para acolher o novo, o surpreendente, o inesperado, o indesejado, às vezes, é algo necessário, se queremos lidar com a vida de uma maneira mais saudável e menos dolorida. Faz parte da arte de viver que tenhamos desafios, faz parte que nem sempre tudo ocorra do jeito que gostaríamos, faz parte não conseguirmos prever acontecimentos. A questão é conseguirmos viver o agora, a questão é conseguirmos lidar com o agora, sem ficar torturando nossas mentes com imagens ou perguntas sobre "O que poderia acontecer". Muitas das coisas, boas ou ruins, que ocupam nossos espaços mentais, relativas ao "que poderia acontecer", de fato não se concretizam. Ou seja, nossas energias afetivas investidas nesses pensamentos foram desperdiçadas indevidamente.

Uma outra perspectiva vinculada à ansiedade e à tentativa de controle está relacionada à nossa estima pessoal. Queremos ser reconhecidos, queridos, amados. Queremos ser bons naquilo que fazemos, não queremos errar, queremos fazer escolhas acertadas e constituir a realização daquilo que julgamos importante para nossas vidas e para a vida de pessoas que nos são especiais. Mais uma vez, pensamos de modo linear: causa-efeito - se procedermos de determinadas maneiras, obteremos determinados resultados. Isso também é uma ilusão. A vida não é linear. Cada escolha que fazemos, às vezes de modo bastante ponderado, não terá, necessariamente, o resultado que esperávamos obter. Podemos ter feito nosso melhor, mas dada à dinamicidade da vida, as coisas fluem de modo diverso do que esperávamos. Nós não conseguimos conter em nossas percepções o todo de qualquer circunstância. A vida não está sobre nosso domínio nem podemos manipulá-la como se fosse uma história que podemos contar com um início, meio e fim bem encadeados. Interagimos com pessoas, com circunstâncias. A complexidade é grande e pequenos fatos podem produzir grandes efeitos.

Enfim, tomar por pressuposto que podemos controlar a vida, as pessoas ou as circunstâncias, é uma receita perfeita para vivermos em verdadeira paranóia existencial, em profunda ansiedade, agitação e angústia.

Cada dia é um novo dia. A cada dia a vida se conformará de determinado modo. O encanto, a beleza, a arte está em apostarmos que lidaremos com cada momento, com suas peculiaridades, da melhor maneira que pudermos, e disso se constituirá nossos caminhos. Nos renovaremos pelas aprendizagens. Vamos errar e acertar, seremos sábios ou insanos, obteremos vitórias, teremos de lidar com algumas derrotas, nos surpreenderemos com pessoas, vamos amar, vamos sentir raiva, vamos nos realizar e nos frustrar, vamos nos alegrar, mas também sentiremos tristezas, teremos bons e maus momentos, sentiremos prazer e dor, realizaremos muito e faremos grandes tolices. Compreenderemos e seremos compreendidos, mas seremos intransigentes em algumas circunstâncias e poderemos ser incompreendidos em muitas outras.    Tudo isso fará parte da nossa história.

Tenho feito algumas aprendizagens, que partilho...

Três coisas têm se tornado muito relevantes em minha caminhada: "Pedir", confiando que em minha trajetória humana há propósitos maiores que nem sempre posso compreender, então, preciso confiar que portas fechadas implicam em novas portas que serão abertas, e que existe uma dimensão extra-humana que conduz meus passos e caminhos. Tenho de manter em minha alma a confiança que Deus vela por meus passos, mesmo quando não tenho total clareza das implicações que isso possa ter para minha vida. "Buscar", sabendo que a ação é algo que cabe a mim. Preciso buscar alternativas fazendo o melhor que posso, usando as aprendizagens e os erros para constituir acertos. Jamais duvidar que o que me acontece não é em vão. Estou construindo uma história de vida e preciso me esforçar para fazer o meu melhor ? aprender, me reconstruir, mudar o que é necessário, aprender, superar meus limites, ir à luta, a cada dia, buscando portas e constituindo novos caminhos. "Bater", fazendo contatos, sondando possibilidades, explicitando meus desejos de realização. Sei que jamais devo me acomodar a impossibilidades. Problemas são desafios e oportunidades. Tudo é uma questão de ângulo de percepção.

Em alguns momentos pode parecer que nossos esforços não nos ajudam a obter resultados, mas sei, por experiência, que mesmo quando uma grande pedra parece imóvel, algo está acontecendo - há motivo para que exista em minha vida.  A vida se gesta em silêncio e, às vezes, em aparente imobilidade. Todos nós queremos respostas para as nossas inquietações humanas. Nem sempre sabemos perceber que há tempo para todo propósito e há uma sabedoria suprema guiando os nossos agoras. Confiar realmente é um desafio.

Viver é assim, esse misto incrível de possibilidades, de perdas e ganhos, de momentos de sorriso e outros de perplexidades. Mas que, eis que vivendo, eis que cultivando no coração a esperança, a fé, a determinação, as coisas vão se ajeitando.

Christina Rocha é graduada em Educação Religiosa e em Filosofia - com habilitação em Psicologia, História e Filosofia. Mestre e Doutora em Teologia - pela Escola Superior de Teologia. Com experiência na direção geral, acadêmica, gestão administrativa e consultoria especializada de instituições de educação básica e ensino superior. Palestrante nas áreas de Educação, Teologia e Filosofia. Pesquisadora na área de análise do discurso. Docente no Ensino Superior e avaliadora de Cursos Superiores pelo INEP/MEC.

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