Coluna - Marilene Ayalla: Temos sido próximos de nossos jovens?

Coluna - Marilene Ayalla: Temos sido próximos de nossos jovens?

Atualizado: Terça-feira, 22 Julho de 2008 as 12

Gostávamos muito de ler em minha família e o que deve ter desenvolvido em nós também o gosto de escrever, retalhos de lembranças, estórias, histórias da família, nossa tradição.

Daí que eu revelei uma paixão pela escrita desde pequenina. Gosto muito de escrever, mas de forma simples, compreensível a qualquer pessoa. E me vejo sempre relatando "casos", ouvidos e vividos por mim. E pelo retorno sei que os leitores os apreciam e minha intenção é que eles levem um recado ao coração, fazendo-os pensarem também.

Aqui vai mais um, ocorreu semana passada.  

"Hoje eu acordei com a macaca", me disse o jovem de 16 anos. Frase estranha numa boca tão jovem, pensei. Ele deve ter me observado, pois rapidamente completou : Pois é, meu avô fala assim e eu adoro ele...". Perguntei-lhe por que estava com "a macaca" e ele desfiou a mim seu colar de queixas:

"Mesada curta, tempo curto. Não dá para nada, para estudar, namorar ou trabalhar, nada. Passa depressa demais e acho até que o dia não tem mais 24h . Se não fosse me julgar um babaca, perguntaria ao professor de Física se o dia ainda tem 24h mesmo! O trânsito ruim, quero uma moto, mas a minha mãe chora quando falo nisso e aí eu "engaveto" os desejos, o que penso".

Ele se cala, e eu continuo ali diante dele disponível, atenta, ouvindo apenas. Como percebe que tem uma ouvinte atenta e nada apressada, continua:

"Gostaria de ficar na rua até tarde, o pai não deixa, me sinto uma minhoca, não sou nada, não mando na minha vida, e ficar em casa pra quê? Ouvir brigas, vê-lo fazendo contas e mais contas? Olho pra ele e vejo o meu futuro e não quero isso pra mim..."

Longo silêncio em que o belo rapazinho entra num mundo que não me abre as portas. É só dele e dos seus poucos anos cheios de dúvidas e preocupações, talvez de mágoas também.

Pergunto-lhe: "O que você gostaria de estar fazendo agora?". A cor volta ao seu rosto, o brilho aos olhos."Poderia estar pulando de asa delta, ou voando num balão rumo a qualquer lugar. Ou estar fora do país aprimorando uma língua nova, aprendendo coisas, a viver sozinho. Ah!quem sabe eu poderia ser um astro do futebol mundial?".

Seus olhos se movem, sinto o estímulo que lhe chega, uma brecha no mundo seu, o qual pensa ser tão monótono... Quanta insatisfação e ilusão! É preciso muita sensibilidade para lidar com um adolescente. Deveríamos primeiro ir ao encontro de nossa própria adolescência e dela retirarmos o que sentíamos, com quem vivíamos, como éramos compreendidos e auxiliados. Depois disso, dessa viagem para dentro de nós mesmos, aí sim deveríamos falar e agir com nossos jovens. É uma etapa, da vida, característica, desejar coisas grandiosas, quase impossíveis e lamentar, até desdenhar, coisas pequenas e importantes que eles julgam, nesse momento, inservíveis.

Como falar-lhe apenas sobre seu desenvolvimento físico, mental e psicológico? Dos hormônios em produção acelerada, dos sentimentos em confusão, da vida em ebulição?

Há momentos em que  o CALAR  é o melhor, o OUVIR é necessidade primordial. Deixei-o falar e falar... Ele desabafou sua dificuldade de transpor a barreira da infância que se vai e da juventude que vem trazendo mais responsabilidades. Sua solidão por não poder dialogar com seus pais preocupados com "as preocupações" que seus encargos lhes trazem e sua busca de uma identidade, que permeie entre os dois lados sem ferimentos a quem quer que seja.

Agradeci mentalmente a Deus por me permitir ouvi-lo, pois dessa forma construía com ele uma ponte neste mundo conturbado em que vivemos nós e nossos adolescentes...

Agradeci a Deus por poder demonstrar a esse menino quase homem, meu respeito e compreensão. Esses dois elementos que formam parte do AMOR, que tenho certeza, ele captará e que o suprirá na sua adolescente luta.

Nossos jovens precisam que nos transformemos num imenso ouvido... Se ouvidos em casa, não ouvirão demasiadamente nas ruas!

Marilene Ayalla é psicóloga clínica com larga experiência em atendimento individual e em instituições e empresas, acredita que a Psicoterapia é instrumento valioso de reformulação do ser humano, com suas próprias emoções e comportamentos.  

*Marilene Ayalla atende em clínica particular com hora marcada pelos telefones 11 - 5536-0764/9982-8408.

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