Coluna - Tonina Miraglia

Coluna - Tonina Miraglia

Atualizado: Terça-feira, 13 Janeiro de 2009 as 12

Interessante constatar que, como a maioria das pessoas trabalha em horário padronizado, o que trabalha de acordo com horário que estabelece, é visto de forma, quase sempre, esquisita.

Eu trabalho, a maior parte do tempo, em casa.  Alguns conhecidos que não trabalham, estão de folga ou em férias, ligam e me perguntam o que eu estou fazendo.  Quando respondo "Trabalhando", segue-se um silêncio.

Engraçado.  Por mais que eu já tenha explicado que trabalho em casa e nem sempre meu horário é aquele visto como o "horário de trabalho", tenho a impressão que sempre, há uma estranheza.

Em algumas situações, já percebi um clima de dúvida.  Parece que a pessoa pensa: - "Será que está trabalhando mesmo?"

Ou quando vai ao cinema sozinho e encontra alguém conhecido, também acontece a estranheza.  O conhecido procura alguém à direita, depois à esquerda, atrás e a pergunta é de rotina: -"Mas... você está só?" Como se faltassem os dois braços.

Existe uma regra geral onde as pessoas precisam se encaixar para sentir segurança.  E não é só isso. Precisam saber que todo mundo está se encaixando também, porque se as regras perdem utilidade desaparecem e então... o que será de nós?  Já pensou? Cada um agindo de acordo com o que faz mais sentido no momento? Claro que dentro dos princípios de convivência, do que é ético, honesto, legal, social, mas mesmo levando em conta tudo isso, que já é bastante, cada um pudesse viver assim?  Que desafio.

Essa necessidade de fazer como os outros e sempre com os outros, vem de uma inimizade consigo mesmo.  

Trabalhar só?  Em casa?  Fazendo algo original?  Como?  Como saber se vai dar certo?  Eu criando o meu tema?  O meu esquema?  Eu organizando a minha agenda, meu dia? Me disciplinar e cumprir?  Será que sou capaz?  Será que sei o que estou fazendo? É mais fácil me encaixar em alguma estrutura pré-existente, pré-histórica onde me digam o que é pra fazer, o que vai acontecer e quanto vou ganhar.

Estar só?  Sair só?  Saber o que quero o que me faz bem, o que é bom pra mim e ir à luta?  Não.  Pode ser assustador ter a mim como companhia, ou pior ainda, ter a mim como líder.  

As pessoas podem ser ótimas, os amigos são preciosos e relacionar-se com os outros pode ser uma delícia.  Trabalhar em equipe, também pode ser saudável.  Mas nem sempre acontece assim e precisamos estar só.  E gostar. Por que não?

A infância foi o início da aprendizagem.  A fase da observação total.  Aprendemos a nos relacionar com pessoas que geralmente nossos pais nos apresentam e aprendemos a nos relacionar com eles, como eles e com pessoas do círculo deles, de forma direta ou indireta.

A adolescência ainda é fase de aprendizagem, mas agora com mais filtro e iniciativa. Com relacionamentos ocorre o mesmo.  Agora você escolhe relacionamentos que quer manter e novos que quer cultivar.  

O jovem que viveu infância e adolescência com relacionamentos saudáveis terá alguma base para fazer escolhas que afetarão seu futuro, seu destino.  

É na juventude que decidimos à respeito da pessoa com quem vamos nos casar, ter filhos, construir família e viver por muitos e muitos anos, juntos.  

Quanto à infância, infelizmente, muitas famílias deixam que a Escola, a TV, às vezes, outras instituições, cuidem de seus filhos, o que explica a pobreza intelectual e emocional em que muitos jovens vivem hoje.

Com pais possíveis, mas ausentes e educadores estranhos, mas presentes, resta à convivência familiar, ao anoitecer ou finais de semana, um transtorno infernal, onde ninguém se entende e não vêm a hora de voltar à rotina do dia-a-dia, quando poderão se esconder um do outro e esquecer a enorme dificuldade que têm para se relacionar.  São estranhos do mesmo sangue.

Mais uma vez, digo, infelizmente.  Os adolescentes estão queimando essa fase, para viver, duas mentiras.  

Uma como quem vê a vida através de um véu, onde sempre é primavera, tudo está no presente, podem fazer qualquer coisa que não haverá conseqüência, isso inclui muito consumo de coisas inúteis, pouca atividade intelectual, muita atividade física, relacionamentos baseados em prazer fisiológico e culto à aparência.

A outra maneira é como quem tem 70 anos.  O adolescente que conversa como quem tem uma experiência superior em qualquer assunto, dando ordens, dono da verdade, sabe tudo, "fechou o DVD, que era regravável e aqui ninguém mais grava nada." Triste.  É por essa razão que encontramos tantos adolescentes cansados, desanimados.

Pela 3ª vez, digo infelizmente. Os jovens agem como se tivessem todo tempo do mundo para decidir, levam a adolescência dentro de si, com as incertezas e instabilidades próprias da imaturidade, adiando decisões e quando decidem, decidem mal, de forma a quebrar compromissos na primeira dificuldade.

É nessa dificuldade de relacionar-se que pessoas seguem tentando, perdendo, tentando outra vez e perdendo novamente, sem conseguir o intento, porque tentam sempre do mesmo jeito: sem auto-estima, sem Deus.  Mais do mesmo.

Saber quem sou pra compreender quem o outro é.  

Conhecendo o Outro, para saber quem Deus É.

Compreendendo o Eu Sou, para saber cada vez melhor quem sou eu.

Ter prazer na Presença de Deus, na presença da família, parentes, amigos, mas também, reconhecer-se como uma ótima companhia.  Isso é saudável e quando não acontece, é preciso encontrar motivos, razões, mais especialmente, estratégias para que comece a acontecer.  

Experimente-se.  Você pode ser alguém muito especial.  Se necessário descontrua-se e reconstrua-se, mas pra você.  Não perca mais filmes bons, porque você não conseguiu companhia.  Se tiver uma boa companhia, ótimo, mas se não, vá assistir o filme. Não deixe de realizar um bom trabalho, porque ninguém acreditou no seu projeto.  Vá em frente. Sua turma é super legal, mas se necessário, sobreviva sem ela.

Tonina Miraglia é formada em psicologia, com especializações em Psicoterapia e Desenvolvimento Humano; ministra Seminários sobre Relacionamento.  É autora de um projeto que se chama WAIT e fala especificamente sobre Sexualidade.  Atua com aconselhamento e ministra cursos em comunidades, escolas e organizações.

Contato: www.toninafreitas.blogspot.com

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