Como explicar para as crianças que bruxos e monstros não existem?

Como explicar para as crianças que bruxos e monstros não existem?

Atualizado: Sexta-feira, 16 Julho de 2010 as 11:49

A terapeuta e psicóloga infantil, Anne Lise Scapaticci, colunista da Revista Crescer, escolhe uma pergunta de internauta por mês para responder.

Uma das perguntas já escolhidas é de Rosalba Maria dos Santos, de Natal (RN):

- Sua explicação com relação ao medo das crianças foi bastante esclarecedora na resposta para a mãe Adriana, em novembro. Porém não ficou claro como podemos ajudar nossos filhos explicando para eles, por exemplo, que o bruxo, o monstro não existem?

Rosalba, querida, concordo com você! Não basta dizer que o bruxo e o monstro não existem porque a criança vai continuar assustada. Isso porque trata-se de uma ansiedade dela. "Ansiedade" pertence ao mundo das emoções e não pode ser mitigado (diminuído) com uma explicação racional. Portanto, vamos precisar pensar que o bruxo e tudo o que assusta dão forma a algo que não tem nome e que é tão assustador que, neste momento, a criança precisou eleger algo, colocar em algum lugar o seu medo.

Tenho medo do escuro, tenho medo de ficar só, tenho medo da loira do banheiro, tenho medo do personagem do filme a que assisti e que, agora, não me deixa dormir. Esses personagens externos servem porque dão vazão aos medos e aos personagens internos. Medos e angústias de um mundo primitivo que carregamos por toda a nossa vida. Afinal, quem sabe o dia de amanhã? Quem de nós sabe quando o mundo vai acabar? Quais são as nossas certezas? Pois é, do ponto de vista das emoções, a criança parece ter ainda uma "linha direta" com a vida, com a fragilidade e com a solidão humana que nós, adultos, perdemos!

"Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta" "Dorme nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça e mamãe foi passear!" Vocês já notaram as letras das canções de ninar? São canções que deveriam assustar e, no entanto, elas "cociliam" o nosso sono há gerações! Elas servem de preparação para algo que acontece quando nos adormentamos: a imersão num universo completamente imprevisível, incontrolável e misterioso.

Portanto, querida Rosalba, é difícil dizer o que falar, ou ainda o que fazer exatamente. Tudo vai depender da emoção do momento e da abertura que os pais encontram neles mesmos e na criança para poder dizer alguma coisa. A questão de ter que dar uma resposta é complicada até para uma psicanalista infantil que está aqui com vocês. Porque para a psicanálise não existe uma resposta exata ou ainda uma receita certa. Não podemos prometer que iremos diminuir a dor! Podemos ajudar as pessoas a pensarem por si mesmas e a buscarem uma resposta genuína, mais verdadeira para cada uma delas!

Anne Lise Scapaticci é psicanalista infantil e terapeuta familiar, em São Paulo

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