Como melhorar a vida a dois sem discutir relação

Como melhorar a vida a dois sem discutir relação

Atualizado: Sexta-feira, 11 Junho de 2010 as 10:15

Existem segredos valiosos para melhorar a comunicação do casal. O primeiro é jamais fazer aquilo em que nós, mulheres, somos mestres: chamar o outro para discutir a relação. "Não transforme a conversa em um grande acontecimento", aconselha o analista de comportamento Roberto Banaco, professor da PUC de São Paulo e coordenador pedagógico do Instituto Paradigma. Segundo ele, isso pode aterrorizar o companheiro, que imediatamente vai acionar suas defesas. Como resolver, então? Empurrando os problemas para debaixo do tapete? Não, mas aprendendo novas formas de abordá-los.

Na opinião do especialista, o ideal é resolver um problema de cada vez, de preferência na hora em que ele surgir. Tente compreender o outro lado, pergunte se for necessário e desfaça mal-entendidos antes de reagir com indignação a qualquer coisa. "Nem sempre é o caso de usar palavras", ensina a terapeuta cognitiva Maria das Graças de Oliveira. "O seu modo de agir ou o silêncio também podem ser eloqüentes", diz ela. Então, em vez de reclamar mil vezes do mesmo assunto, tente não se manifestar quando a situação tensa ocorrer. Em algum momento, o parceiro acabará sentindo falta da sua intervenção. A conversa surgirá de forma mais natural e ele estará desarmado para ouvi-la.O sexo pode ser outro bom recurso ainda que, como lembra a terapeuta, "diferentemente do homem, a mulher não costuma sentir desejo se está magoada". Sua recusa é um modo de expressar seu desconforto. "Mas não raro a intimidade proporcionada pelo sexo ajuda a resolver algumas questões sem mais complicação", sugere ela.

Alguns temas são mais espinhosos. Falar da família do outro, por exemplo, exige cuidado extra - nessa seara, qualquer comentário pode irritar ou ferir. Problemas financeiros também têm levado muitos casais ao divã. E ninguém deve pressionar o parceiro que está passando por um revés profissional. Ele vai se sentir humilhado, quando precisaria de motivação. Porém, se essa situação se cristaliza e você se sente carregando o outro nas costas, será necessário tomar uma atitude - nem tudo se resolve só com um papo.

EMOÇÕES E DÍVIDAS

Qualquer diálogo naufraga quando o pedido vira cobrança. Ou seja, se, em vez de solicitar o que deseja, alguém acusa que o outro deve. "Homens e mulheres agem do mesmo jeito. Ambos cobram muito, mas no fundo acham que não devem nada. A diferença é que a mulher costuma expressar isso, já o homem, embora também alimente altas expectativas em relação à companheira, evita comentários", explica Banaco. Nessas circunstâncias, é comum que a mulher torne-se a porta-voz dos problemas e depois se ressinta dessa posição, porque aí parece que os dilemas são dela e não do casal.

Maria das Graças assinala que, culturalmente, enquanto os meninos são criados para guardar suas emoções, as meninas são estimuladas a revelá-las e acabam de senvolvendo habilidades nesse campo. Uma pesquisa da Universidade Estadual de Nova York e da Universidade de Stanford mostrou que isso pode ter um fator fisiológico. O cérebro da mulher percebe e se lembra de emoções com mais facilidade, pois tem regiões diversificadas que se relacionam à linguagem verbal. Não é à toa que podemos usar até 8 mil palavras por dia, e eles se restringem a 4 mil. Além disso, o homem fica abalado quando é alvo de nossas críticas. Seu organismo libera cortisol, hormônio do stress, afirmam Patricia Love e Steven Stosny, autores do livro NÃO DISCUTA A RELAÇÃO - COMO MELHORAR SEU RELACIONAMENTO SEM TER QUE FALAR SOBRE ISSO (ED. NOVA FRONTEIRA).

REFORÇO POSITIVO

De acordo com Maria das Graças, não é só o conteúdo da conversa que importa mas também o momento: não aborde temas delicados quando estiverem cansados, na fila do supermercado ou prestes a sair para uma festa. O risco de o assunto ficar pela metade e vocês estragarem a noite é grande. O que não significa passar a vida engolindo as mágoas, e sim desenvolver o senso de oportunidade para tratar delas.

Se o confronto for inevitável, é importante que cada um perceba o lugar que quer ocupar na discussão. Colocar-se no papel de vítima, provocando a culpa ou até a pena do parceiro, não funciona. "Quem age assim perde a admiração do par", alerta Banaco. Assumir o papel de algoz e ficar fazendo ameaças também é danoso - o outro pode até fazer o que você quer, mas a que preço? O respeito será destruído. Para a conversa não afundar, cabe aos dois tomar conta do navio.

Por fim, se o seu amor atender a um pedido seu, cuidado para não dar uma de chata. Por exemplo, se você sempre reclama que ele chega tarde em casa e falta tempo para ficarem juntos, na noite em que ele chegar cedo, evite as alfinetadas irônicas. Não vá sair com um: "Até que enfim". Use a técnica do reforço positivo: receba-o bem, convide-o para fazer algo interessante, demonstre o prazer que sente em ficar ao lado dele. Assim, ele vai querer repetir a dose.

Saiba o que você nunca deve dizer a um homem

"A culpa é da sua mãe" (em qualquer ocasião)

"Falei que era melhor perguntar" (quando ele perde o caminho)

"Isso acontece" (quando ele broxa)

"Vamos mudar de canal um pouquinho?" (durante o jogo de futebol)

"Não, não foi assim" (quando ele está contando uma história para os amigos)

"Você está com ciúme?" (quando ele estiver com ciúme)

"Eu te avisei" (quando alguma coisa que ele faz dá errado)

Papo sério

Entrevistamos dois casais para checar os pontos de atrito

Solange: Aparecida Diniz de Sousa, 47 anos, funcionária pública, e Daniel Francisco de Sousa, 50 anos, escrevente de cartório. Casados há 25 anos, têm um filho de 21 anos

Daniel: Eu gosto de discutir a relação mais do que ela. Aprendo com o diálogo.

Solange: De manhã eu não topo, acordo mal-humorada.

Daniel: Uma coisa que ela faz que eu detesto é quando eu estou procurando uma rua no guia e não encontro. Ela encontra e diz: Estava bem na sua frente e você não viu". Também não gosto quando ela grita.

Solange: Ele diz que quando fico nervosa falo alto demais, eu não acho.

Daniel: A família inteira fala que ela grita, eu só corroboro.

Solange: Ele é irônico, isso me faz mal.

Daniel: Não nego que eu seja irônico com ela, mas no fundo não me vejo assim.

Solange: Nossa maior pendenga era por causa da criação de nosso filho.

Daniel: Na minha opinião, a Solange pegava demais no pé dele.

Solange: Parei de agir assim por medo da reação do meu marido.

Daniel: No fim, acabamos permissivos.

Solange: Outra coisa que eu reclamo é que, se um cara mexe comigo na rua, o Daniel não liga. Queria que ele tivesse mais ciúme. Seria um sinal de atenção.

Daniel: Eu confio nela.

Solange: Os gastos são outro problema. Ele diz que eu tenho que comprar menos sapatos. Mas, na hora de decidir qual celular ia passar para o sistema pré-pago, sobrou para mim. O dele continua pós-pago.

David: Donato, 24 anos, publicitário, e Patrícia Donato, 24 anos, química. Casados há um mês

David: Eu odeio discutir a relação.

Patrícia: E eu me sinto uma chata quando tenho que falar mil vezes a mesma coisa, mas às vezes é preciso.

David: O que me irrita é voltar a um tema que já morreu.

Patrícia: Esse é o ponto: ele acha que só porque já conversamos, o assunto morreu e não é verdade. Eu insisto quando o David não muda de comportamento.

David: Eu mudo, ela que não vê. Um dia, no caminho do cinema, a Patrícia resgatou coisas do passado. Acabamos voltando para casa.

Patrícia: Tem horas que eu surto. Queria que ele tratasse os nossos problemas como se fossem dele também, não só meus.

David: Ela é mais intensa, eu me seguro. Não falo nada porque acho que as pequenas coisas se resolvem sozinhas.

Patrícia: Comecei a entender que homens têm mais dificuldade em perceber sutilezas.

Por: Juliana Diniz

veja também