Como o seu filho vai se chamar?

Como o seu filho vai se chamar?

Atualizado: Sexta-feira, 13 Maio de 2011 as 11:22

Você gosta do seu nome? Gosta ou adora? Se pudesse, escolheria algo mais original, interessante ou, digamos, mais você? O analista de sistemas Euclides Soares Pereira Junior até hoje não se identifica com o próprio nome. Quando a mãe tentou ensiná-lo a soletrá-lo, aos 6 anos, ele repetia: “Esse é o nome do pai, mãe.” Com o tempo, se acostumou. Poderia ser pior, pensa, quando escuta os nomes estranhos que a mulher, bancária, encontra no trabalho. O que mais o marcou foi o de uma pessoa chamada Jacinto Leite. Ter um nome pouco descolado, vá lá. Mas cacofonia já é um pouco demais para Euclides. Quando chegou sua vez, ele e a esposa optaram por um nome simples. Nada de exótico, estrangeiro ou mesmo composto. “Eu queria que minha filha gostasse dele desde sempre”, diz. E assim, há um ano, nascia Gabriela. Hoje Gabi, para os íntimos. Todo mundo conhece alguém que tem um nome feio. Mas por que será que os pais erram tanto na hora de nomear os filhos? Para os norte-americanos Michael Sherrod e Mathew Rayback, autores do recém-lançado Bad Baby Names (algo como “Péssimos Nomes de Bebês”), inédito no Brasil, qualquer pai pode errar – até mesmo você. Ao vasculhar registros de censos demográficos de 1790 a 1930, eles encontraram nomes como Ema Royd (soa como hemorróidas, em inglês), Warren Peace (guerra e paz), Satã, Acne, Post Office (correio) e outros trocadilhos infames. Mas por mais esdrúxulo que seja o nome, ele não importa tanto, diz Rayback. “Isso só vai prejudicar a criança no futuro se ela deixar”, diz ele, que também tem um blog (www.badbabynames.net) sobre o assunto.

De fato, estudos mostram que os nomes têm pouca influência no sucesso pessoal. Uma pesquisa revista pelo psicólogo americano Kenneth M. Steele, no final dos anos 1980, mostra que o nome só interfere se for a única coisa que se sabe de alguém. Quando se pedia aos entrevistados que avaliassem indivíduos de nomes “ruins” e “bons”, bastava acrescentar uma foto do “avaliado” que os resultados se equilibravam.

Quase 20 anos depois, o economista Roland Fryer chegou a uma conclusão semelhante. Ao se debruçar sobre as certidões de todas as crianças nascidas na Califórnia, desde 1961 (um total de 16 milhões), ele descobriu que famílias negras e famílias brancas dão nomes diferentes aos seus filhos. O fenômeno é recente: começou nos anos 1970, influenciado pelo movimento Black Power. Seria um sinal de solidariedade de um pai negro com a sua comunidade, diz Fryer, cuja pesquisa ficou famosa ao ser mencionada no best-seller Freakonomics, O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta (Ed. Campus), de Steven Levitt e Stephen Dubner. Os dados coletados mostram que, em geral, uma pessoa com um nome “negro” (como Ebony ou DeShawn) tem uma trajetória de vida pior do que alguém chamado Molly ou Jake. Mas não é por causa dos nomes. O tipo de pais que batizam o filho de DeShawn normalmente tem um padrão de vida mais baixo que os que escolhem Jake. O nome é um indicador – e não a causa – dos resultados.   A professora Regina Obata, do Departamento de Biblioteconomia da Universidade de São Paulo e autora de O Livro dos Nomes (Ed. Nobel), concorda: há muita coisa por trás de um nome. “Como toda palavra, carrega um significado, uma história e, às vezes, um estereótipo”, diz. Maria e João, por exemplo, remetem a pessoas da classe popular no Brasil. Mas como as famílias mais ricas estão optando por batizar os filhos com nomes simples, a tendência é que logo fiquem “chiques”.

Outra mania bem brasileira é a invenção de nomes, algo proibido em países como Portugal e França. A contadora Elaine e o vendedor Valdinei Soetho, por exemplo, achavam que tinham de ser criativos, então, batizaram a filha recém-nascida de Jemily. O casal, que vive em Braço do Norte (SC), queria incrementar mais o nome, com DJ e LL, mas o escrivão local não permitiu. “Os cartórios têm sido mais exigentes no sentido de evitar grafias incorretas”, diz o advogado Luiz Kignel, membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família. Se fosse um nome completamente desconhecido, ele explica, não haveria essa restrição.

Já na família da dona de casa Luciana Zaupa, o nome das filhas foi escolhido de acordo com o significado: Letícia, que quer dizer alegria, e Júlia, interpretado como jovem. O pai decidiu o do primeiro bebê e ela ficou encarregada do segundo. Para a mãe, a escolha não poderia ter sido mais acertada. “Letícia, hoje com 5 anos, trouxe alegria a nossas vidas e Júlia, de 1 ano e meio, é exatamente o que seu nome significa.”

O sentimento de Luciana tem razão de ser. Conscientemente ou não, o nome traz as expectativas da família em relação à criança. “É o primeiro presente que os pais dão para o filho”, diz a psicóloga Elaine Pedreira Rabinovich, professora da Universidade Católica do Salvador, que já orientou vários estudos a respeito. Por isso, é natural que a família se preocupe – e às vezes até brigue! – para fazer a opção certa. Ainda que a escolha não influencie o futuro do filho, pelo menos os pais tentaram fazer o melhor desde o início. Afinal, quem é que vai arriscar?    

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