Crianças estão obesas, mas desnutridas

Crianças estão obesas, mas desnutridas

Atualizado: Quarta-feira, 20 Outubro de 2010 as 1:54

Médicos, nutricionistas e pais têm começado a lidar com um tipo diferente de desnutrição, ligada à falta de nutrientes e não, necessariamente, de comida. Segundo a pesquisa Nutri Brasil, 22% das crianças brasileiras com até cinco anos estão com sobrepeso; mais 6% estão obesas. Para Cláudio Leone, professor do Departamento de Saúde Materno-Infantil da USP, tais dados são estarrecedores refletem as mudanças de hábito dos adultos.

Leone explica que o Brasil passa por um processo de transição nutricional, ou seja, as gerações mais novas transformaram sua maneira de se alimentar. "Obviamente essa transição da desnutrição para a obesidade vai cobrar um preço, seja no lado psicossocial ou como distúrbios metabólicos no organismo", opina. Segundo o médico, não é só porque a mortalidade diminuiu que as novas gerações estão mais saudáveis.

Um bom exemplo disso é apontado pelo pediatra e membro do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Mauro Fisberg. "Quase 87% das crianças estão ingerindo mais sódio do que o recomendado", diz. O sódio, presente em maior quantidade em salgadinhos e alimentos processados, pode causar doenças cardíacas e hipertensão.

Fisberg afirma, no entanto, que nem toda alimentação ruim vem dos alimentos processados e alerta para o uso de sal na preparação da comida. "Nós gostamos de alimento mais salgado, usamos o sal e o açúcar de mesa em um volume maior que o dos outros países", completa.

Vitamina D e Cálcio

Além da deficiência em vitaminas E e A, as crianças de hoje também apresentam falta de Vitamina D e Cálcio. Segundo pesquisas norte-americanas, 57% das crianças entre quatro e seis anos ingerem uma quantidade de cálcio abaixo do necessário. O medico e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, Richard Wood afirma que a falta de cálcio na infância pode prejudicar o crescimento e, a longo prazo, levar a osteoporose.

Tanto Woods quanto Fisberg apontam a preferência pelo refrigerante como principal razão da redução do cálcio na dieta das crianças. "Os refrigerantes, assim como o café, diminuem a quantidade dessa substância no corpo. Eles bloqueiam a ação do cálcio", explica o norte-americano.

Já a vitamina D, responsável por potencializar a ação do cálcio no osso e ajudar no sistema imunológico, pode ser adquirida tanto com uma dieta equilibrada quanto pela exposição aos raios UV. "Uma pessoa com uma dieta pobre em vitamina D conseguirá se virar muito bem", diz Wood. Isso porque esta vitamina pode ser produzida pelo próprio organismo quando em contato com o sol. Mas aí temos mais um problema. "As crianças não estão tomando tanto sol quanto deveriam, elas não fazem mais atividades na rua", lamenta o norte-americano, lembrando que a nutrição infantil está diretamente ligada ao tipo de atividade que elas têm (ou não) na vida diária.

Como reverter?

Para Mauro Fisberg, a mudança no estilo de vida é a saída para a questão da obesidade infantil. "Nosso cotidiano é muito diferente do que nos gostaríamos de ter. E isso impacta as nossas futuras gerações", afirma o médico.

"Os pais são os primeiros modelos de comportamento para a determinação de estilo de vida para as crianças", relata. Ele diz que a família pode começar mudando os próprios hábitos como fazer refeições longas e compartilhadas, bem como fazer atividades físicas com as crianças. "Não precisa colocar a criança na natação duas vezes por semana desde pequena, ser ativo é correr, sair, passear, interagir com a criança. Nem sempre atividade é esporte", afirma.

Cláudio Leone acha que o esforço tem que ser coletivo. "Todos os setores da sociedade devem estar envolvidos para o combate à obesidade", diz. Ele acredita que esta geração de novos obesos pode reverter a situação com ajuda da educação alimentar, mas acha que tal reversão deve exigir bastante das crianças. "Durante muito tempo foi desejo do homem ter menos atividade, conseguir comida mais variada e mais rápido. Levou 50 anos para perceber que isso não faz bem", termina.

veja também