Criar seu filho para o mundo

Criar seu filho para o mundo

Atualizado: Terça-feira, 29 Junho de 2010 as 4:20

Você sonha que seu filho faça diferença no futuro? CRESCER acredita que todas as crianças têm esse potencial e apresenta, a partir de agora, dez apostas para que o caminho até esse objetivo seja prazeroso. Nossa série de reportagens vem acompanhada de ensaios com fotógrafos renomados, que emprestarão seu olhar sobre cada assunto. Na estreia, o tema é "criar os filhos para o mundo", frase que provoca arrepios nos pais - quem é que não quer ter as crianças sempre sob as asas? Entenda por que é a primeira aposta para um mundo melhor.

A relação entre pais e filhos é como um novelo de lã. Assim que o bebê nasce, o novelo está todo enrolado e um depende do outro. Mas, a cada ano, uma volta se desfaz. No auge da fase adulta, as vidas estarão ligadas apenas por um fio, e dessa forma será para sempre. A metáfora sobre a relação entre pais e filhos é da psicanalista Diana Corso, autora de Fadas no Divã (Ed. Artmed) e mãe de Laura, 20 anos, e Júlia, 16. Segundo ela, para aprender a educar os filhos para o mundo, os pais devem aceitar, confiar e se sentir parte desse novo momento para poderem entregá-los, inclusive, com segurança. Quando questionada sobre o tema, Diana fez antes um comentário em tom de balanço da própria vida. "Como profissional é mais fácil aconselhar e dizer o que deve ser feito, mas na prática, não é tão simples. Hoje, quando vejo as minhas filhas criadas, percebo que fiz meu papel de mãe e resisti a superprotegê-las. Tarefa cumprida com muito esforço emocional."

Quem rói as unhas lutando contra o sentimento de superproteção é a atriz Denise Fraga, mãe de Nino, 12, e Pedro, 10, colunista da CRESCER. Ela sonha com a independência deles, mas também deseja que estejam por perto a vida toda. "Penso e cuido disso todos os dias, mas lá no fundo, confesso que o que eu mais quero é que eles almocem em minha casa todos os domingos depois de formarem uma família", diz. Uma das suas táticas para ensinar independência é ir "soltando" os filhos aos poucos. "Eles dormem na casa dos amigos, por exemplo, e mais para frente vão poder viajar com os amigos. É muito importante que vivam em outros ambientes."

INFORMAÇÃO E INSPIRAÇÃO

Claro, o que queremos mesmo é que eles não sofram. Se pudéssemos evitar cada arranhão, que bom seria! Talvez nosso poder alcance mais do que imaginamos. Já temos algumas opções. Não superproteger as crianças, oferecer referências para que elas façam suas escolhas, e um item importante: entender que todos os nossos instantes como pais são exemplos a serem seguidos, para o bem ou para o mal. Se elas prestam atenção em tudo o que fazemos, o que comemos, do que falamos e como nos relacionamos com os outros, acabamos ensinando, ainda que sem querer, em todos os minutos. Somos inspirações.

É NA EXPERIÊNCIA QUE ELE VAI APRENDER A SE DEFENDER

Muito se ganha na troca também. Ajuda muito compartilhar suas histórias de infância com as quais ela pode se identificar e se sentir mais segura. E sem perder o foco: a ideia principal aqui é que a criança siga seu próprio caminho. Pode acontecer de o sonho dos pais para os filhos serem diferentes do que os filhos querem para si mesmos. Quando as vontades se encontram, bingo! Foi assim com a família do músico Paulo Tatit, criador do grupo Palavra Cantada. Sua filha Lua, hoje com 26 anos, tinha apenas 8 quando a banda surgiu e ela era uma das meninas do coral. Consequência ou não, ela continua envolvida com a arte, como bailarina profissional. Vinte e quatro anos após o nascimento de Lua, Paulo repetiu os pensamentos para o futuro, com Luiza, sua filha de 2 anos. "Criei a Lua para o mundo e quero fazer o mesmo com Luiza, e vê-la feliz."

É papel dos pais apresentar as possibilidades aos filhos, sem medo de direcionar. "Criar um filho livre não é privá-lo de referências. Uma cultura de origem é muito importante. E você deve se orgulhar dos erros e acertos do passado", afirma o pedagogo Juan Uribe.

DESDE AS PEQUENAS COISAS

Vícios e virtudes podem ser mostrados no dia a dia mesmo. Você fica sabendo de uma situação de preconceito, uma amizade não correspondida ou até uma tirada de sarro com uma pitada de maldade, tão comum nas crianças. E se pergunta: "Será que eu me intrometo?" O coração vai fazer você querer fazer qualquer coisa para a história terminar logo. Mas a razão vai levar você a outro destino: é na experiência que ele aprende a se defender.

O que está ao seu alcance, sem dúvida, é dar subsídios para que a criança tome as próprias decisões. Conversar com ela sobre os motivos da agressão e perguntar de que forma ela gostaria de resolver tudo, é uma dessas formas. E cuidar da formação do caráter também entra nessa conta. Para Denise Fraga, ética, por exemplo, deve ser uma discussão dentro de casa e o papel dos pais é mostrar que somente uma relação com base na gentileza traz boas experiências. "Acredito nessa rede. É assim que você faz amigos de verdade e pode pedir ajuda depois."

Pode ser duro assistir às dificuldades que surgem na vida de seu filho, mas se elas não existirem, ele vai deixar de desenvolver certas habilidades. Momentos de solidão e de tensão são imprescindíveis para as crianças aprenderem a pensar por si próprias e se tornarem adultos independentes e conscientes. Para enfrentar o mundo é preciso tentar, arriscar. E errar.

É como no começo da vida com eles. Tente se lembrar dos primeiros dias do bebê em casa, da hora da troca da fralda e da roupa, um daqueles momentos em que você o sente completamente dependente de seus cuidados. Com o passar do tempo isso vai mudando. Um dia ele consegue colocar o bracinho na manga do casaco, mas ainda com a sua ajuda, claro. Em outro, você o flagra tentando enfiar as pernas nas calças, com aquele desequilíbrio engraçado. Quando se dá conta, aconteceu: seu filho abre o armário e escolhe - sozinho - uma roupa para usar.

Essa imagem parece cotidiana demais para uma reportagem com o tema "criar uma criança para o mundo"? Pois não é. A partir de escolhas aparentemente fáceis ou simples é que seu filho, desde bebê, vive a cada minuto uma espécie de manual de "como me virar na vida sem meus pais por perto". Veja com a internet, por exemplo. Tem mundo maior do que esse tão disponível no momento? Por mais que você procure estar ao lado dele sempre, é preciso ensiná-lo a estar seguro diante das tantas possibilidades - e perigos - da web. É prepará-lo para a vida, no mundo virtual quanto real.

Caminhar juntos é aprendizado até não acabar mais. O dia a dia na escola, o encontro com os amigos na lanchonete, as descobertas na internet, dormir fora de casa e viajar com os avós são convivências que, por mais difíceis que sejam para você, ensinam muito e formarão bagagem emocional para seu filho, hoje e sempre. E o melhor: fará com que ele procure se sentir bem ao seu lado ou em qualquer outro lugar que esteja vivendo. Mesmo que longe de "suas asas", não é?

Por: Bruna Menegueço e Cristiane Rogerio

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