"Deus não quer moralismo, Deus quer pureza", diz Jasiel Botelho em entrevista sobre sexualidade

"Deus não quer moralismo, Deus quer pureza", diz Jasiel Botelho em entrevista sobre sexualidade

Atualizado: Quinta-feira, 27 Agosto de 2009 as 12

Por Juliana Simioni - www.guiame.com.br

Pastor e missionário, Jasiel Botelho sonhou com o ministerio aos 17 anos e  fundou, em 1968, a Missão Jovens da Verdade, com o objetivo de evangelizar jovens, edificá-los e treiná-los para que estivessem engajados na tarefa de estender o Reino de Deus no Brasil e no mundo. Na década de 70, comprou um sítio em Arujá (SP), que é hoje o Acampamento Jovens da Verdade.

Palestrante, Botelho trabalha com sua esposa Ivone no aconselhamento de casais, além do ministerio com jovens. É autor de livros de humor e para a juventude, como "Rir é coisa séria", "Fonte da juventude" e "Em busca da costela perdida".

Em entrevista, Botelho, que também é chargista e mantém o blog Humor Cristão , fala com liberdade sobre sexo na juventude, visão da igreja sobre o tema, medidas adotadas por pais e pastores quanto ao relacionamento dos jovens, e defende: "Poucas vezes ouvi alguém falar bem do sexo, por isso eu tenho levantado essa bandeira de que vale a pena se preservar virgem para o casamento".

Guia-me: Por que, em sua opinião, algumas pessoas veem o sexo como pecado?

Jasiel Botelho: A sexualidade é um assunto que ainda é um tabu tanto na igreja quanto na sociedade. E não deveria ser tabu na igreja porque quando a gente vai trabalhar a questão da sexualidade, a gente percebe que esse tabu está em todas as pessoas, até nos casais. As dificuldades que as pessoas enfrentam para desfrutar da excelência do relacionamento sexual é um conceito errado que eles tem do sexo. E esse conceito errado tem várias causas. A primeira é a educação, ou seja, as pessoas não aprendem com os pais e aprendem com os amigos. Os pais até hoje tem dificuldade, com raras exceções, de ensinar para os filhos. E a juventude de hoje não aprendeu de uma forma correta. Todas as informações de sexualidade que eles tem, são informações erradas.  A outra é a questão da própria igreja que tem muito tabu por causa da carnalidade. A palavra carnalidade é muito combatida na bíblia e a gente entende como sexo e que tem a ver com o corpo, quando, na verdade, a carnalidade tem a ver com a natureza pecaminosa da pessoa. A pornografia é outra causa que ajuda a criar esse conceito de pecado. Tudo isso leva a gente a ter esse fantasma de que sexo é uma coisa ruim. Sexo foi feito por Deus antes da queda, foi uma bênção que Deus deu e a queda afetou a sexualidade, mas no casamento você pode ter uma sexualidade completamente pura e santa com seu cônjuge. Luto para ver essa juventude mudar, principalmente a juventude cristã. Não deixar se perpetuar esse tabu e imagem negativa que se tem a respeito do sexo, isso não ajuda o jovem a ter uma vida pura. A gente pensa em não instruir sobre sexo para não despertar curiosidade, mas o adolescente e o jovem tem todo o direito de saber tudo sobre sexo, quanto mais souber, mais protegido estará. Ele só não deve fazer, mas deve saber.  

Guia-me: O senhor acredita que o pecado relacionado à sexualidade seja visto como um pecado mais grave?

Jasiel Botelho: Ainda é. Você vai encontrar pastores extremamente vaidosos e soberbos, mas que não acontecesse nada com eles, e um dos pecados que Deus mais resiste é a soberba.  Você vai ver pastores que ficam pregando 'abobrinha', pregando heresias, pastores que pintam e bordam com dinheiro, pegam o dinheiro da igreja para conquistar seus próprios patrimônios e também não acontece nada com eles, mas se ele faz qualquer coisa nessa área sexual, é disciplinado. Não estou dizendo que não deva ser disciplinado, mas a igreja realmente tem o pecado sexual como praticamente o único pecado. Na teoria não, mas na prática é assim.

Guia-me: Como a igreja tem dialogado com o jovem sobre a sexualidade e como pode dialogar?

Jasiel Botelho: A gente fala generalizando, mas eu creio que a igreja ainda tem muita dificuldade de tratar esse assunto com a juventude. O jovem está à frente de seus líderes e o pastor ainda não se sente preparado ou com liberdade para falar desses assuntos. Eu que trabalho nessa área, conheço poucos colegas que são pastores e líderes e tem liberdade e coragem de tratar a sexualidade. Vejo outros tratando, mas com muita espiritualidade e acho que não é por aí, claro que o sexo é uma coisa espiritual, mas sair espiritualizando tudo fica difícil, tudo na base do pecado. Poucas vezes ouvi alguém falar bem do sexo, por isso eu tenho levantado essa bandeira de falar bem do sexo para o jovem e de que vale a pena se preservar, se conservar virgem para o casamento porque é uma coisa boa e não por medo de que ele vá ser castigado, vá pegar uma doença, vá pro inferno ou qualquer coisa assim. O sexo é uma necessidade humana, tanto que os presos também tem esse direito. Mas eu creio que a igreja evangélica ainda tem muita dificuldade em tratar isso com o jovem.  

Guia-me: Quando e como as experiências sexuais do jovem podem afetá-lo mais tarde?

Jasiel Botelho: Creio que tudo que acontece na sexualidade do jovem de uma forma errada vai afetá-lo no futuro, em seu casamento. Por exemplo, uma menina que é abusada quando adolescente ou se alguém usou de libidinagem com a moça, ela vai ficar marcada e no casamento terá dificuldade em manter um relacionamento de liberdade com seu esposo. Um namoro com mais libertinagem, com amassos ou mesmo uma relação sexual, vai produzir na moça ou no rapaz um fantasma que, quando eles tiverem um relacionamento sexual dentro do casamento, vão sentir-se acusados por estarem fazendo coisa errada e se eles não tratarem o problema, nunca vão chegar a um relacionamento pleno, com liberdade.

Guia-me: Como os pais devem tratar esse assunto com naturalidade se o ensinamento que eles passam é contrário ao que diz a sociedade?

Jasiel Botelho: A sociedade foi para o outro lado. O que eu tenho orientado aos casais é que eles devem tomar banho com seus filhos até certa idade, 9 ou 10 anos, porque isso tira a curiosidade da criança na questão do corpo e da nudez. Antes, a gente orientava os pais a falarem sobre sexo quando o filho perguntasse, mas agora a gente sabe que não pode ser assim. Antes de a criança ir para a escola com 6 anos, ela já deve estar sabendo, portanto, o pai e a mãe devem encontrar um meio de ensinar a ela, porque senão ela vai aprender na escola e da forma errada. É claro que é difícil você passar ao seu filho uma coisa que seu pai não passou para você, essa é a maior dificuldade dos pais em falar de sexo com o filho, sendo que seus pais não falaram de sexo com ele. Difícil dar uma coisa que não recebeu, por isso, os pais devem procurar o recurso dos livros sobre sexualidade. Aconselho os pais a darem um livro sobre sexo para seu filho adolescente, que ele não precise ler no banheiro, no escuro e nem escondido, mas que ele possa ler na sala e, claro, faça um esforço para orientar sobre a menstruação, a polução noturna, os órgãos genitais, a gravidez e conversar naturalmente sem se sentir chocado com as perguntas dos filhos. Quanto mais aberto tiver esse 'canal', mais seguro estará o adolescente ou o jovem. Quando a criança aprende sobre sexo pela boca dos pais, é completamente diferente de quando aprende por terceiros.   

Guia-me: O senhor concorda com o namoro de corte e tempo de oração estipulado por pastores e líderes para que os jovens iniciem um relacionamento?

Jasiel Botelho: Eu não experimentei, sou de uma igreja tradicional e isso é prática de algumas comunidades. Não acho errado e não tenho experiência nisso, mas pelo o que eu já ouvi falar, às vezes é um exagero por parte da liderança. Já vi casos de jovens se revoltarem e eu acredito que você tem que tomar cuidado para não impedir a liberdade da pessoa, porque o evangelho nos traz liberdade. Como os pais podem mandar no coração dos filhos? A gente recomenda que até os 18 anos o jovem deva ter a autorização e o apoio dos pais para se envolver com uma pessoa, mas a gente sabe que depois dos 18 anos a pessoa tem liberdade de tomar decisões. Os jovens já têm dificuldade em mostrar seus sentimentos. Se hoje a menina gosta de um rapaz, ela tem uma dificuldade muito grande em dizer isso para ele e vice-versa. Se tiver mais essa pressão e esse controle da igreja de que para namorar tem que passar pela autorização do pastor, fica difícil. A gente não manda no coração, por isso eu fico mais com o pé atrás do que dizendo 'jóia'. Por outro lado, minha sobrinha esteve nesse esquema e deu certo. Mas e se o pastor diz sim e os pais dizem não? Ou se o pastor diz não e os pais dizem sim? A quem ele vai ouvir, aos pais ou ao pastor?

Guia-me: E quanto aos símbolos de castidade adotados por algumas comunidades? Servem de estímulo para o jovem se manter sexualmente puro?

Jasiel Botelho: Eu acho válido todo esforço para ajudar o jovem a preservar-se virgem. Quando eu comecei a namorar minha esposa, ela havia sido discipulada por uma missionária que a ensinou a namorar somente com o 'semáforo' (sinal verde, amarelo e vermelho). Porque eu sempre digo, todo rapaz tem uma mão boba ou as duas [risos] e no namoro a gente quer fazer carícia, sendo que a fase do namoro é para o carinho. A carícia é para o casamento. Interessante que depois do casamento, a reclamação das mulheres é que os maridos não são cariciosos. Então, no nosso namoro, toda vez que a mão boba ia agir, ela falava: 'Oh, sinal amarelo' e eu tinha que recuar.

Acredito que tudo isso ajuda para que o jovem se preserve e, com tudo isso, ainda corre perigo, todo cuidado é pouco. Eu tenho colegas que criaram suas filhas com tanto carinho e elas engravidaram, é vergonhoso. Ter uma filha grávida deveria ser uma coisa maravilhosa e é maravilhoso, mas dentro do tempo certo, com a pessoa certa. Então, todo esforço, menos a violência, menos a ignorância, o tabu, é válido para ajudar o jovem a preservar-se.

Guia-me: O senhor acredita que a mídia seja a grande influenciadora da sexualidade distorcida dos jovens?

Jasiel Botelho: A mídia traz coisas boas e ruins. Não acho de todo mal essa abertura da sexualidade, porque o tabu prejudica mais do que a liberdade. Por outro lado, a mídia também tem a sua censura. Embora a sociedade mostre isso, nenhum pai e mãe quer ver sua filha grávida antes do tempo. A mídia mostra, mas não é verdade. Ela mostra coisas que causam indignação nas pessoas, assim como mostra o homossexualismo de uma forma positiva, mas a sociedade reage. Toda essa luta para legalizar o homossexualismo com passeatas e marchas é rejeitada pela sociedade, porque não fomos criados para isso.

Acredito que seja na faculdade que o jovem passe mais dificuldade. Onde há muita liberdade, as construções morais são quebradas e é quando o jovem costuma praticar sexo. Aí vem o sexo com preservativo, que a igreja é contra, mas não pode ser contra, porque se o jovem vai fazer de qualquer maneira, entre uma relação protegida e uma relação desprotegida, melhor que use preservativo para evitar doenças e a própria gravidez.

Creio que às vezes a mídia exagera por causa do nosso moralismo. Deus não quer moralismo, Deus quer pureza. Por isso, eu falo que a gente pode contar piada de sexo, desde que ela não seja obscena. O sexo é uma coisa bonita, divertida. Eu acho que a igreja exagera no moralismo e no tabu. Se ela levasse o assunto com mais liberdade, a mídia não precisaria ficar provocando.

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