Dez inspirações para aumentar a cumplicidade e o afeto com seu filho

Dez inspirações para aumentar a cumplicidade e o afeto com seu filho

Atualizado: Terça-feira, 2 Agosto de 2011 as 3:47

Você já percebeu como a relação com seu filho é feita nos detalhes? Passa pela troca de olhares com ele ainda bebê; pelo colo, que é só seu, para se aninhar antes de dormir; pela conversa franca logo após uma nota vermelha e até por fazer as pazes, aos poucos, depois de uma briga. É pura cumplicidade. Ceres de Araújo, uma das mais importantes psicólogas em crianças e adolescentes no Brasil e autora de Pais que Educam – Uma Aventura Inesquecível (Ed. Gente), explica que, desde o início da vida, é estabelecida naturalmente uma relação muito íntima entre pais e bebês, e a criança vai se desenvolver emocionalmente a partir dela. “A cumplicidade vai ser construída, e depende da possibilidade de se colocar no lugar do outro, ouvir suas razões, ainda que não se concorde com todas elas”, diz. Do amor incondicional às frustrações, esse sentimento se revela em muitas situações e quando existe é sinal de que a relação com seu filho está completa. Inspirem-se nas experiências de pais e especialistas e veja como a cumplicidade pode acontecer onde você menos imagina.

O TOQUE E O COLO

A cumplicidade acontece desde a gestação, mas é no dia a dia, num ambiente seguro e de parceria, que essa relação vai se fortalecer. “É com o seu bebê nos braços que você vai perceber a cumplicidade nascer. Ele vai descobrir a melhor forma de se aninhar em seu colo e vai repetir muitas e muitas vezes essa posição para adormecer. Também vai buscar por você quando estiver em um colo desconhecido ou insatisfeito com alguma coisa. Essa confiança é a base da cumplicidade”, diz a psicóloga Maria Luísa Valente, especialista no relacionamento entre filhos e pais e professora da Unesp, em Assis (SP). Muita gente pode até ficar dizendo que colo demais estraga, mas ele é importante, sim.

CARINHO EM PISTAS

Sair de casa logo pela manhã, voltar só à noite e, ainda assim, manter uma relação próxima com os filhos – que desafio! Nessa situação, a melhor maneira de ter esse vínculo intacto é demonstrar o quanto você se lembrou deles ao longo do dia. A contadora de histórias Ivani Magalhães, grávida de 23 semanas, troca cumplicidade com a filha Luana, 8 anos, por meio de pistas de carinho. “Deixo recadinhos nas coisas que ela vai usar durante o dia e percebo o mesmo cuidado dela comigo. Pode ser um bolinho de chuva, feito com a ajuda da babá, guardado especialmente para mim, ou um desenho caprichado”, diz.

ATÉ NO CASTIGO

Engana-se quem pensa que a cumplicidade só aparece em bons momentos. Foi a surpresa da revisora de textos Camila Ávila, mãe de Miguel, 5 anos. “Estávamos na casa da minha mãe, que tinha acabado de limpar toda a cozinha, quando o Miguel decidiu que queria fazer uma gemada. Eu disse não e ainda assim ele abriu a porta da geladeira e pegou um ovo. Claro que ele caiu no chão e sujou tudo. Como castigo, coloquei-o sentado no sofá imediatamente e desliguei a TV, que ele estava assistindo antes. Minha mãe logo me repreendeu, dizendo que eu estava sendo dura demais e que na casa da avó não era lugar disso, e avisou ao neto que ele poderia sair do castigo. Já tínhamos discutido sobre esse comportamento dela, mas naquele momento eu me calei. O Miguel, no entanto, me olhou, continuou no lugar em que estava e disse à minha mãe que sabia que eu não estava brava e que tudo ia ficar bem.”

PELAS AFINIDADES

Para o fotógrafo Caio Vilela, criar uma relação de cumplicidade com os filhos é prioridade. E, olha, são três – Tomas, 7 anos, e os gêmeos Artur e Martin, 5 – com personalidades bem diferentes. Uma das maneiras que ele descobriu para se aproximar dos meninos foi justamente viajar. Nada de passeios comuns, como ir à praia ou a um hotel, por exemplo. Caio faz ecoturismo com os filhos. “Aproveito que a Ana, mãe dos meninos, não é das mais aventureiras e combinamos passeios só de meninos. Ficamos mais próximos e eles se sentem mais livres e mais responsáveis. Para me ajudar, se enxugam, se vestem, comem sozinhos e até preparam o próprio leite com chocolate no café da manhã. Nossa cumplicidade cresce assim, no esforço de estarmos juntos, de vivermos um novo desafio e nos ajudarmos”, diz. E tudo que eles aprendem naquele momento reflete no restante do dia a dia deles também.

MANTER O VÍNCULO À SUA MANEIRA

É fácil buscar cumplicidade em declarações de amor. Surpreendente, no entanto, é saber que ela também pode estar no silêncio. É esse amor sem palavras que o escritor australiano Stephen Michael King retrata no livro O Homem que Amava Caixas (Ed. Brinque-Book). A história gira em torno de um pai que adora caixas, de todos os tamanhos, cores e tipos. Ele tem um filho, que o ama, mas o adulto não sabe como retribuir esse carinho. A sua solução é usar as caixas para fazer brinquedos para o menino. A ideia dá tão certo que ele passa a participar também das brincadeiras. Os vizinhos e os amigos não entendem essa comunicação, mas isso não tem a menor importância. O melhor de tudo é que filho e pai descobrem uma nova e divertida forma de se relacionar.

APRENDER A DIVIDIR

Compreender que o outro precisa de ajuda e ceder. Foi assim que a professora de línguas Silvia Manuela Franco percebeu a cumplicidade entre ela e o filho Pedro, 7 anos. “Foi um dia atípico, minha filha Sofia, 10, teve uma crise de asma, eu estava preocupada, com um montão de coisas para resolver. Mas, no dia anterior, eu já havia combinado de sair com o Pedro para comprar uma chuteira nova. Quando disse que não poderia, ele ficou bravo e chorou, mas eu não tive tempo de conversar com ele. Horas depois, eu estava sentada no sofá cuidando da Sofia, e senti a mão do Pedro nas minhas costas: ‘Mãe, eu entendo que hoje você está precisando mais de mim do que eu de você’. Fiquei emocionada com a postura dele”, conta Silvia.

OLHAR DE CONFIANÇA

Há cenas do dia a dia com os filhos que estamos cansados de ver em propagandas de televisão ou filmes, mas só vivendo para se dar conta de sua importância. Para a decoradora Graziela Andreoli, essa cumplicidade com a filha Bia, 1 ano, aconteceu em um parque de diversões. “A Bia ainda não tinha brincado no escorregador. Quando a coloquei sentada na parte de cima, ela me olhou e percebi que estava insegura. Segurei-a firme, e, aos poucos, fui descendo até o final do brinquedo. Não preciso dizer que ela adorou e repetimos muitas vezes a brincadeira. O que mais me marcou, no entanto, foi a troca de olhares antes de escorregar para garantir a segurança com ela ainda tão pequena”, diz Graziela.

NEM TUDO SÃO FLORES

A situação é desesperadora: Chris e seu filho Christopher, 5 anos, estão em uma estação de metrô, sozinhos. Sem casa e sem dinheiro, apenas com uma mala de roupas e a última máquina de raios X que Chris tentava vender para conseguir o sustento de mais alguns dias. De repente, Christopher – que havia escutado durante o dia de um velho na rua que aquele aparelho era uma máquina do tempo – convida o pai para brincar. Juntos, eles apertam o botão e imaginam que estão cercados por dinossauros e “homens da caverna”. Filho e pai entram na mesma sintonia da brincadeira e o pai aproveita o entusiasmo da criança para “procurar uma caverna” para se esconderem. A “caverna” dessa fantasia criada por eles é o banheiro da estação que serve de abrigo para aquela noite. Apesar do desconforto, o menino logo adormece nos braços do pai. Dias depois, quando não conseguem se hospedar em um abrigo municipal, o garoto sugere ao pai que voltem para a caverna. A história real foi contada no filme À Procura da Felicidade, em 2006. “Muito dessa cumplicidade entre os dois soa verdadeiro porque os atores Will e Jaden Smith são pai e filho na vida real”, lembra o jornalista Humberto Luiz Peron, editor da revista Monet, da Editora Globo.

NOVA ROTINA

Adaptar-se a uma nova rotina, novos horários e até a um novo endereço após a separação é apenas alguns dos desafios que a situação implica. Mas depois que a poeira baixa, a cumplicidade se dá em situações inesperadas. Para o empresário Júlio de Camargo, o vínculo com a filha Elisa, 12 anos, ficou ainda mais forte após o divórcio. “Desde que me separei da Marta, mãe da Elisa, há seis anos, minha relação com minha filha está muito mais carinhosa. Conversamos mais e aproveitamos para fazer coisas diferentes juntos. Logo no primeiro mês após a separação, a Elisa levou para a minha casa dois vestidos que havia ganhado da mãe. Eu estava na sala, ela foi até o quarto, colocou a roupa e veio desfilar para mim, como fazia quando eu morava com a mãe dela. O desfile era uma forma de carinho entre nós. Para ela, mostrar a roupa nova para o pai era muito importante e eu adorava esse momento, me senti especial para ela”, conta Júlio. Os desfiles viraram costume e ele aprendeu até a ajudá-la arrumar o cabelo para as festas.

TEMPO PARA A CUMPLICIDADE

Adotar uma criança traz uma série de desafios. Construir uma relação com intimidade, confiança, amor e respeito. Aos poucos, você vai se sentindo pai e a criança filho, e a cumplicidade vem chegando, crescendo, no dia a dia. A gerente de marketing Elaine Sodré passou por isso quando adotou Lis. A menina tem 3 anos e está com Elaine há pouco mais de um, após um longo processo. Aconteceu bem na fase do desfralde. “Cada aviso para o xixi era uma correria. Lis chegou tímida e, aos poucos, foi se soltando, contando lembranças do abrigo, pedindo novos brinquedos e, claro, avisando sobre a vontade de fazer xixi. No final, o desfralde foi um sucesso e ainda ajudou (muito!) a criar a nossa cumplicidade.”

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