Disciplinar: um ato de amor

Disciplinar: um ato de amor

Atualizado: Quinta-feira, 19 Março de 2009 as 12

"Eu repreendo e disciplino a quantos amo" (Ap. 3.19)

A questão da disciplina tem sido objeto de confusão no meio evangélico. Há muitos irmãos que acreditam que disciplinar é sinônimo de castigar e que esse castigo deve ser físico e ainda, para ser fiel à Bíblia, com o uso de uma vara. Um exame mais atento dos textos bíblicos, no entanto, não justifica essa posição. A palavra disciplina, tanto em nossa língua quanto nos originais hebraico e grego, significa primeiramente educação. Tem a mesma origem que "discipular". Para mim é motivo de tristeza pensar em quantas crianças são espancadas com varas e outros objetos por pais, que pensam estar sendo obedientes a Deus ao usarem técnicas educativas. A base destas técnicas, na realidade, está em uma psicologia - o chamado behaviorismo - que vê o ser humano como um simples animal, destituído de qualquer aspecto espiritual.

A bem da verdade, uma de minhas filhas, que se especializou em adestramento de animais, já me disse que nem com eles se utilizam, hoje em dia, castigos físicos. Há formas bem mais eficazes de conseguir obediência.

Mais ainda, todos quantos estão conscientes das terríveis conseqüências que o medo acarreta para a personalidade de uma pessoa pensariam muitas vezes antes de utilizá-lo para obter submissão.

Toda e qualquer forma de educação é também uma forma de disciplina; disciplinamos por palavras, por exemplos, pela atenção, pela compreensão, pela aceitação, pelo carinho e, eventualmente, também por castigos. Estes, aliás, são tanto menos necessários quanto mais existam os outros elementos citados.

Tudo isso não quer dizer que devamos ser permissivos ou excessivamente tolerantes. É preciso levar em conta que toda criança precisa crescer conhecendo limites, sendo orientada sobre o que é certo e o que é errado. Sem isso não desenvolverá a segurança interior que, em grande parte, é resultado da interiorização das atitudes dos pais para com ela - atitudes que precisam incluir firmeza amorosa.

Para aplicar adequadamente qualquer forma de disciplina, precisamos considerar um fato óbvio: nenhuma criança se comportará "mal" se não estiver infeliz. Coloquei entre aspas esse "mal" porque muito do que chamamos de mau comportamento infantil não passa de expressão legítima de sua própria natureza. Fazer barulho, mostrar-se irrequieta, não querer fazer tarefas escolares (ou outras coisas que ela considera, com toda a justiça, aborrecidas) podem contrariar os pais e podem ser objeto de disciplina amorosa, mas é fundamental que os educadores reconheçam - e o expressem - que a criança tem todo o direito de agir assim, de querer ou não querer o que quer ou não quer. Reconhecer preliminarmente esse direito diminui nossa eventual irritação e dizê-lo à criança torna mais fácil obter sua cooperação.

São bastante variadas as causas da infelicidade infantil, infelicidade essa que leva a criança a desenvolver comportamentos indesejáveis. Antes de tentar modificar esses comportamentos por meio de punições é necessário entender a mensagem que eles encerram. Muito freqüentemente, compreender essa mensagem e atender às carências que a criança está expressando por suas atitudes torna desnecessária qualquer outra medida.

É importante conhecer algumas das causas do mau comportamento infantil: a criança não sabe o que é certo, não tem informações, não tem maturidade, está infeliz, se sente rejeitada ou insegura, está sendo desrespeitada, está refletindo o estado emocional do educador (ou educadores). Levando isso em conta, considere como chega a ser revoltante pensar que uma criança pequena pode estar sendo castigada porque, por seus maus modos, está tão-somente suplicando atenção, carinho, asseguramento do amor dos pais ou de quem a educa.

Escrito por: Zenon Lotufo Jr.

Zenon Lotufo Jr. é pastor da Igreja Presbiteriana Independente, psicoterapeuta, membro do CPPC (Corpo dos Psicólogos e Psiquiatras Cristãos) e atua há mais de 10 anos junto a uma instituição de assistência integral à criança e ao adolescente carentes e de conduta infracionária. Com 64 anos, tem 3 netos.

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