Divórcio? Antes pense nisso

Divórcio? Antes pense nisso

Atualizado: Terça-feira, 4 Outubro de 2011 as 9:48

O divórcio é um dos maiores fenômenos sociais do ocidente no nosso século, e, portanto, uma realidade cada vez mais próxima dos lares do mundo inteiro. Pela ótica da quantidade, a separação conjugal hoje, pode até parecer algo aceito e vivenciado naturalmente, visto não se tratar mais de um acontecimento raro. Todos parecem saber sobre o crescimento desse fenômeno, países e continentes com maior número de casos, quantidade de lares desfeitos, número de crianças que moram com apenas um dos pais etc. Considerações estas, que não vão muito além dos aspectos puramente sociológicos.

Porém, estudos psicológicos apontam uma realidade que há muito vem sendo tencionalmente ignorada ou mesmo camuflada, especialmente pela mídia, por não se prestar aos seus interesses. É o que percebemos, por exemplo, nas novelas, onde são exibidos com muita freqüência, casos de separações conjugais, em que os conflitos não vão além de uma mera vingança, resultando muitas vezes, em uma simples substituição de um parceiro por outro, levando os próprios espectadores a torcerem para que tal fato aconteça.  

Nunca essas novelas apresentam a realidade crua dessa experiência dolorosa, que as pessoas vivenciam. Em nenhum momento, essas produções mostram os reais subprodutos de uma separação, os sofrimentos psíquicos que dela advêm.

É importante que saibamos que poucos acontecimentos na vida de uma pessoa são capazes de deixar um rasto de dor e sofrimento tão grandes, como o rompimento de um vínculo conjugal.

O impacto de uma separação, e especificamente, de um divórcio na vida de uma pessoa, só é menor que a morte do cônjuge, segundo a famosa tabela do Dr. Thomas Holmes, da Universidade de Oregon EUA, ao fazer um amplo estudo sobre o estresse humano. Mas o leitor poderá dizer: a tabela do Dr. Thomas Holmes foi feita há muitos anos atrás e não retrata a realidade atual com relação ao divórcio. É fato, que, como um fenômeno social, o divórcio é hoje muito mais aceito e as pessoas divorciadas são também menos descriminadas em nossa sociedade.

Porém, as emoções humanas continuam as mesmas, os sentimentos das pessoas parecem ter sofrido pouca alteração e as dores psicológicas em face da quebra de um vínculo conjugal, parecem não ter  diminuído tanto com a aceitação social desse fenômeno. Para alguns psicólogos mais atuais, que se dedicam ao estudo dos impactos emocionais da separação conjugal na vida das pessoas, a dor que ela causa, é ainda mais difícil de superar do que a morte física do parceiro, porque na separação, tanto a pessoa é invadida pela morte do outro, ou seja, o outro morre em nela, como pela sua própria morte, pois, ela também morre na consciência do outro.

Trata-se também, de um luto plural, pois perdemos amigos, filhos, estilo de vida, posição socio-econômica e também auto-estima. É ainda, um luto contraditório, porque é preciso ao mesmo tempo decidir-se a esquecer o outro e a manter relações, em geral pelos filhos, e às vezes, pelos bens.

A perda e o sentimento de vazio são fatores recorrentes, ainda que variem em quantidade e intensidade. Estes, no entanto, não são os únicos, mas constituem apenas o núcleo de um amplo espectro emocional, e, ainda que seja difícil classificar os mesmos, no decorrer de todo o processo de uma separação conjugal, ficam evidentes sentimentos como: amor, ódio, culpa, tristeza, medo, solidão, mágoa, sensação de abandono, sentimento de fracasso, desorientação, quadros de estresse emocional e físico, etc., tanto na pessoa que foi deixada, como na pessoa que deixou o seu cônjuge. Isto porque, no casamento está, não somente a soma de duas partes, mas toda uma série de variáveis a nível psíquico e interpessoal, e a separação irá mexer em todas essas instâncias fundadoras do vínculo conjugal, deixando de ser apenas o fim de uma união material, formal e externa, mas, o rompimento de vínculos profundos, de laços emotivos, sexuais e afetivos, dependências mútuas, hábitos entranhados, difíceis de serem cortados, ainda que tenham sido criados, não somente pelo amor, mas também, pelo ódio, pelas brigas e pelas reconciliações e por toda uma série de outros elementos construtores dessa relação.

Esse turbilhão emocional decorrente desse desligamento, provoca uma desorganização na identidade da pessoa e,  quanto mais longa e íntima for a união, mas desolador será o processo da separação, mesmo se a intimidade era produto de sofrimentos, incompreensões e ofensas. Diante disso, fica mais fácil entendermos o fato de muitos casais levarem de seis meses a dois anos para decidirem se separar, após perceberem que a relação está morrendo, e ainda outros passarem a vida toda numa relação que não mais justifica a permanência do casamento.

Um estudo americano mostrou que 25% das separações se realizam com conflito pequeno, 25% com conflito moderado e 50% com conflito intenso. Portanto, nenhuma separação acontece com total ausência de conflitos e traumas emocionais, mesmo que isto represente um alívio ou uma sensação de estar se livrando de uma prisão, ou ainda, que esta separação se derive de uma decisão consensual, pois, em geral, as perdas abrem um espaço, ou criam um vazio difícil de suportar.

As pessoas estão se separando por razões efêmeras ou mesmo sem motivos justificáveis, não pensando nas consequências de tal ato, apenas se valendo das facilidades legais. Uma nova lei do divórcio na Grã-Bretanha, por exemplo, propõe que se dispense a apresentação de motivos ou determinação de culpa para a dissolução de um casamento. Essas facilidades hoje, podem até estimular casais a tomarem decisões precipitadas.

Um juiz de certa Vara de Família afirmou o seguinte: "Se antes de procurarem um advogado para legalizarem uma separação os casais procurassem a ajuda de um conselheiro matrimonial, de um líder religioso ou de um psicólogo, metade mudaria de idéia".

Antes de dizerem não a um relacionamento de um, dois, sete anos, ou qualquer que seja o tempo de vida conjugal, os casais precisam pensar muitas vezes, e nunca efetuarem uma decisão antes de tentarem melhorar tudo o que puderem, a começar de cada cônjuge, individualmente, pois o problema, em muitos casos, pode residir exatamente aí.

A título de reflexão, encerro este artigo com a seguinte história: Uma pomba estava constantemente trocando de ninho. O forte odor que os ninhos adquiriam com o passar do tempo era insuportável para ela. Ela queixou-se amargamente disso quando estava conversando com uma sábia, experiente e idosa pomba. Esta balançou a cabeça várias vezes e disse: "Mudando de ninho todo o tempo, tu não mudas nada. O odor que te importuna não provém dos ninhos, mas de ti própria".

Por: Pr. Risan-Joper

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