Eles decidiram viver sem sexo

Eles decidiram viver sem sexo

Atualizado: Terça-feira, 5 Julho de 2011 as 8:24

Até o casamento ou para o resto da vida, algumas pessoas decidem abrir mão da vida sexual. E os motivos vão muito além da religião   Dois adultos completarem um ano de namoro sem sexo ou qualquer contato físico mais íntimo é incomum, e parece tarefa difícil. Mas, se cumprir essa tarefa é complicado, as explicações de quem opta por esse caminho são simples, e mais variadas do que se imagina. A analista de comunicação Rose Brandão havia acabado de sair de uma relação que considerou desastrosa e resolveu adotar a castidade para conseguir um relacionamento mais saudável, em que as questões sexuais não estivessem em primeiro plano. “Não foi por falta de vontade, apenas uma questão de escolha”, explica.

Ela tinha 27 anos e já não era mais virgem quando conheceu o marido, o engenheiro civil Paulo Costa Brandão. Sem sexo, o passo do namoro para o casamento foi curto. Visualizar uma união e compartilhar os mesmos desejos com o marido foram alguns dos motivos para que a analista conseguisse se manter casta.

“Ficamos juntos cerca de um ano. Neste tempo, limitamos as carícias para que não houvesse a tentação de romper nosso acordo”, conta Rose. “Aliás, foi por isso que deu certo. Eu e meu marido decidimos juntos que seria assim - só faríamos sexo depois do casamento. Não foi uma decisão só minha”.

Psicólogos que observam a evolução dos relacionamentos concordam em uma coisa: a fase é de desaceleração. Na contramão da superestimulação sexual presente nas mais diversas esferas, muitos casais optam, em pleno século 21, por um “namoro casto” antes do casamento, ou até pela eliminação completa da vida sexual.

Rose é protestante e a religião também foi um fator determinante na decisão. Mas não foi a única, nem a principal. “Se existe maturidade para resistir a um desejo carnal, podemos ter maturidade para enfrentar conflitos no casamento, nas finanças. Além disso, há a questão de que, se podemos resistir no namoro, também podemos resistir às tentações fora do casamento”, argumenta. A terapeuta sexual e presidente da agência de relacionamentos A2 Encontros Claudya Toledo, afirma que a busca pela sintonia e afinidades deve estar em primeiro lugar. “A sexualidade não pode ser encarada como algo explosivo”, diz. “É sagrada e isso independente de qualquer linhagem religiosa. O relacionamento casto surge quando as pessoas percebem que estão colocando os carros na frente dos bois”.

A atitude de manter a castidade afeta os homens. A psicóloga Aldvan Figueiredo. “O que vejo diariamente no meu consultório é a chegada dos homens - são jovens, bonitos, bem empregados e com carrões, que são conhecidos pelo estereótipo de pegadores, mas que não conseguem mais uma transa com facilidade”, diz a psicóloga Aldvan Figueiredo.

Essa busca que algumas pessoas fazem, diz Aldvan, se deve a uma fase de reparação no que diz respeito aos relacionamentos e a velocidade que homens e mulheres empregaram na vida sexual. “Esses namoros castos refletem isso. É como se as pessoas congelassem padrões, idealizações e quisessem construir um relacionamento em cima disso. Mas nos não casamos com ideais. Talvez as pessoas estejam se apegando a isso porque não dá para padronizar os relacionamentos”, conclui.

Casada e abstinente

Mas o casamento nem sempre é um sinal para o fim da abstinência sexual. Questões filosóficas motivam gente que, como a dona de casa Regina Kohl Tavares, 51, abandonou o sexo de vez. A ideia de aderir à abstinência partiu do próprio marido de Regina, há dez anos. Interessados em filosofias orientais e adeptos de um estilo de vida que promove o desapego – o casal, por exemplo, é vegano, o que significa que não consomem nenhum derivado animal – eles abriram mão do sexo, mas não de seu relacionamento de mais de 25 anos.

No começo, não foi tão fácil. “A proposta me pegou de surpresa”, conta Regina. “Claro que me senti insegura, não estava no mesmo nível de pensamento dele, e inicialmente não chegamos a um ponto comum”. Mas, com o tempo, ela aderiu à ideia. “Foi uma coisa natural, com tranquilidade, com grande amor”, diz. “Hoje não me afeta absolutamente em nada. Estou totalmente desapegada”.

Regina tem dois filhos, e diz que nunca houve nenhuma atitude proibitiva dos pais em relação a sexo na criação deles. Mas, mesmo assim, a postura do casal acabou promovendo a abstinência do filho mais velho, hoje com 24 anos. “É por opção dele, uma coisa natural. A gente dá mais valor para outras coisas”, afirma.

Para Regina, o que começou como um susto seguido de insegurança, hoje traz vantagens. “Me sinto cada vez melhor, mais leve, feliz. É uma coisa particular de cada pessoa, não tem como a gente dizer o que é bom para cada um. Mas acho que quanto menos as pessoas se importarem com sexo, melhor. Tem que se importar com o amor, não tem nada que o corpo se envolver com isso”.    

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