Eles também precisam conciliar filhos e trabalho

Eles também precisam conciliar filhos e trabalho

Atualizado: Segunda-feira, 19 Abril de 2010 as 12

Quem é mãe sabe que é preciso muito jogo de cintura para conseguir equilibrar o tempo dedicado à profissão e aos filhos. Agora, acredite: esse drama não é mais privilégio delas. Assim como aconteceu com as mulheres há algumas décadas, os homens estão vivendo o mesmo dilema e ainda precisam lidar com a intransigência dos chefes e a falta de apoio das próprias famílias.

A mudança chega aos poucos. Na Inglaterra, onde a questão é discutida em artigos e reportagens na imprensa, 36% dos pais tiraram, em 2005, as duas semanas de licença-paternidade a que tinham direito, segundo pesquisa da Comissão para Oportunidades Iguais. Três anos antes, em 2002, o número era de 22%. O número cresceu, mas muitos pais abrem mão da licença para não enfrentar os chefes. A situação se repete no Brasil, onde a licença-paternidade é garantida pela Constituição Federal, mas nem sempre aproveitada. "Os pais que tiram a folga chegam a ser motivo de chacota para os colegas, que os acusam de preguiçosos", diz o psicólogo Jorge Lyra.

Por mais flexibilidade

A licença-paternidade não é o único motivo de discórdia entre patrões e pais. Ter crianças significa necessidade de horários flexíveis para levar ao médico, buscar na escola ou mesmo ficar junto, brincando. Antigamente essas funções ficavam restritas às mulheres, que acabavam aceitando empregos inferiores à sua formação em troca da flexibilidade. Hoje, alguns homens insistem em priorizar o tempo dedicado à convivência com os filhos. Segundo o estudo da comissão, sete entre dez pais ingleses, em 2005, fizeram algum tipo de ajuste na rotina de trabalho depois que os filhos nasceram, número três vezes maior que em 2002. Alguns flexibilizam os horários, outros começam a trabalhar meio período, uns pedem demissão e passam a trabalhar em casa. Possibilidades ainda distantes da realidade brasileira.

Beto TchernobilskySegundo a antropóloga Mirian Goldenberg, autora, entre outros, do livro De Perto Ninguém É Normal, além da dificuldade de lidar com as empresas, há pressão da própria família, acostumada com o modelo do pai provedor e, às vezes, até da esposa, que não quer ter seu padrão de vida diminuído e sente-se ameaçada pela presença do marido. "Por séculos a maternidade foi a única esfera de poder da mulher", diz Mirian. "Ainda é difícil para elas abrir mão desse poder e reconhecer que o homem pode ser tão competente quanto elas no cuidado com as crianças."

Vencer a desconfiança da esposa, da família e da sociedade não é fácil. "O conflito vai existir, assim como existiu um dia para as mães que queriam trabalhar fora", diz Mirian. Porém, se os homens não baterem o pé e enfrentarem os preconceitos, nunca poderão exercer a paternidade da maneira como querem. Para poder barganhar, os pais devem ter acesso à informação, descobrir quais são seus direitos e exigir o cumprimento deles. O esforço recompensa. "Pais que fazem essa opção são mais felizes e plenos", diz Mirian. E os filhos agradecem.

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