Ensine ao seu filho o valor da amizade e da vida em grupo

Ensine ao seu filho o valor da amizade e da vida em grupo

Atualizado: Quarta-feira, 4 Agosto de 2010 as 10:02

Ubuntu. Bastou uma Copa do Mundo na África do Sul para a gente descobrir uma palavra que parece resumir tudo o que buscamos ensinar aos nossos filhos para que sejam mais felizes e construam um mundo melhor. Tão africana e tão difícil de traduzir, "ubuntu" significa irmandade, compaixão, solidariedade, amizade. Ou, como explicou o bispo sul-africano Desmond Tutu, Nobel da Paz: a essência do ser humano. "Você não pode viver isoladamente, você não pode ser humano se é só", resumiu. Nosso desafio é conseguir ensinar às crianças, em uma sociedade cada vez mais individualista, que ninguém vive sozinho. Mais do que isso, como diz a música, precisamos mostrar que "é impossível ser feliz sozinho". E aqui não estamos falando de uma vida cor-de-rosa, de finais felizes ou de comunidades hippies. Estamos tratando de sobrevivência pura, estamos falando de saúde.

Parece estranho? Você vai ver como não é: "A saúde é um conjunto de bem-estar 'biopsicossocial', então não é possível promover saúde sem afeto e sem empatia, que estão intimamente relacionados às interações sociais. Mais do que ensinar que ninguém vive sozinho, é preciso admitir que é impossível ser feliz na solidão", afirmam a neuropediatra Lara Cristina dos Santos e a neuropsicóloga Maria Dalva Lourenceti, ambas do Ambulatório de Desvios da Aprendizagem da Unesp de Botucatu (SP). Nem nas histórias infantis, para ficarmos em um assunto que as crianças adoram, heróis e mocinhas conseguem vencer suas batalhas sozinhos. Chapeuzinho Vermelho tem a ajuda do lenhador. Batman, do Robin. Branca de Neve, dos Sete Anões...

A questão é como estimular essas interações sociais. Segundo especialistas, pesquisas e livros consultados pela CRESCER, há vários caminhos possíveis, mas existe um que é infalível: o exemplo dos pais. É nossa missão mostrar o valor de uma amizade, de que forma se exercita a solidariedade (e não é só doar roupas que não usamos mais, mas também deixar um carro entrar na frente no meio do congestionamento, por exemplo) e como precisamos, todos os dias, da ajuda uns dos outros. Ninguém consegue viver sem que o motorista de caminhão trabalhe, porque os alimentos não chegariam a nós, sem que os lixeiros recolham os entulhos, porque a sujeira tomaria conta de tudo... Por mais "invisíveis" que algumas relações possam ser, dependemos delas para viver.

Quando uma criança convive com o outro, ela experimenta sentimentos e pensamentos que contribuem para a formação do seu caráter, da sua moral e do seu senso de justiça, explicam as especialistas da Unesp. "Assim, os pais são, ou pelo menos deveriam ser, os primeiros facilitadores do processo de convivência, mediante interações saudáveis, vínculos positivos e modelos adequados. Não adianta falar para a criança uma coisa e agir contrariamente." Cabe a nós, ainda, ensinar as regras da vida em sociedade e dizer o que é certo e o que é errado. Segundo estudo norte-americano de 2006, que examinou dezenas de pesquisas sobre como as crianças se relacionam com os amigos, vários dos comportamentos infantis são influenciados diretamente pelo modo de agir dos pais. Quando os pais ensinam o que é permitido fazer (e seguem seus ensinamentos, claro!) e estimulam a empatia, os filhos têm maior tendência a levar os sentimentos dos amigos em consideração e conseguem construir vínculos sociais mais sólidos.

Claro que as crianças já nascem com traços de personalidade definidos e uma menina introvertida jamais será a miss simpatia da escola, ainda que seus pais sejam as pessoas mais sociáveis do mundo. O que acontece é que, quando elas veem o exemplo dos pais, sentem-se mais encorajadas a repetir o comportamento. Só é preciso ter cuidado para que não sejam estabelecidos apenas relacionamentos superficiais. Aprofundar o vínculo com um amigo é tão gostoso - e importante - quanto fazer uma nova amizade. Outra preocupação, lembram os especialistas, é com a perda da individualidade. Às vezes uma criança quer tanto ser aceita pelo grupo que se torna uma maria vai com as outras e deixa de ter opinião, gostos e sonhos próprios.

Manter as características de cada integrante é um desafio no grupo musical Pequeno Cidadão. Com oito adultos e dez crianças no palco, a produção se vira para respeitar a personalidade de cada um. Os figurinos, por exemplo, levam em conta o gosto de todas as crianças. Taciana Barros, mãe de Daniel e Luzia, que teve a ideia de formar o grupo com Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Antônio Pinto, lembra que é preciso respeitar também os momentos de reclusão de cada um. Não é porque eles estão em uma turma grande que não têm direito à solidão. "É importante saber curtir os momentos individuais e equilibrá-los com os momentos em grupo. Às vezes é preciso estar só pra compor, refletir, pensar... Em outras horas, a parceria é fundamental e acrescenta muito."

Cada um de um jeito. Cada um com um gosto. Cada um com seu sonho. As amizades de verdade têm espaço para tudo: para a discordância, o respeito, a cumplicidade, a solidariedade, a saudade, as brigas, as pazes, os abraços, as lembranças inesquecíveis. Ter um amigo, amigo mesmo!, só faz bem para todo mundo

A criança começa a perceber que não está sozinha neste mundo e a ter noção do outro entre os 4 e 6 meses e, conforme vai crescendo, mostra interesse real por outras crianças e aumenta seu círculo social. No começo, são as brincadeiras que permitem que ela se socialize e adquira habilidades como assertividade, manutenção de conflitos, conquista de respeito e controle da agressividade. É também brincando em grupo que ela expõe sentimentos, expande o processo do pensar e tem experiências com a linguagem e as regras sociais. Dessa forma, descobre que pode se doar ao outro e que é capaz de viver sentimentos complexos como a compaixão.

Em alguns casos, porém, podem aparecer as chamadas dificuldades sociais, quando as crianças não conseguem se relacionar bem com os colegas. Essas dificuldades podem ser emocionais (falta de estímulos ou de bons modelos), biológicas (problemas como autismo) ou de comunicação interpessoal (timidez excessiva, por exemplo). Na casa de Meire Cardoso das Virgens, 40 anos, o problema foi justamente a timidez. Quando a filha Lígia, hoje com 7 anos, começou a ir para a escola, aos 3, sua personalidade reservada chamou atenção. "Na casa de parentes, ela grudava em mim, não falava 'oi' nem 'tchau' para ninguém", conta a mãe. "Mas na escola a situação piorou. Na sala de aula, ela ficava muda e não expressava opinião." A família decidiu, então, procurar um psicólogo e hoje a menina está mais solta.

Com os amigos, a criança aprende a resolver conflitos

Além de tímida, Lígia é filha única, como as crianças de 15% das famílias brasileiras. Algumas delas têm dificuldade em criar vínculos simplesmente por falta de oportunidades. "Quando colocamos fones nos ouvidos, quando tiramos a TV da sala e deixamos uma em cada quarto, quando dizemos ‘não converse com estranhos’ pensando na segurança, acabamos por afastar as pessoas e não permitir o diálogo. Assim, criamos empecilhos para a vida em sociedade até para as crianças, que são abertas e querem a troca com o outro", afirma o pediatra Paulo Roberto Pereira, um dos diretores da Amana-Key, centro de excelência em gestão e formação de líderes, que tem quatro filhos e dois netos.

Sem dar oportunidades, acabamos por incentivar o individualismo, que se reflete na vida amorosa, na economia, no mercado de trabalho. "O mundo profissional funciona cada vez mais em equipe. Nem o médico é mais um profissional liberal, ele trabalha com enfermeiras, com outros médicos. O problema é que os jovens se formam sem ter competências sociais, entram em pânico quando se veem em uma equipe multidisciplinar e, muitas vezes, perdem a chance de serem bem-sucedidos", analisa. "Precisamos mudar isso", como diz a cientista e escritora norte-americana Margaret Wheatley, que estuda comportamento organizacional. "Nada que vive, vive em isolamento. Nós [homens] criamos a noção de indivíduo, de organizações, de papéis e caixinhas separadas." É hora, então, de unir as caixinhas!

DICAS PRÁTICAS

• Estimule as brincadeiras em grupo. Se tiver filho único, convide amigos da escola, vizinhos ou primos para que passem um tempo juntos. Os neurônios funcionam como "espelhos" e as crianças aprendem por imitação.

• Crie um clima familiar terno. Considerando que a família é a base das relações sociais subsequentes, um clima amoroso tende a ser repetido em outras interações.

• Explique ao seu filho as consequências para o outro das atitudes deles. Se ele morder um colega, por exemplo, mostre que o outro sentiu dor e está chorando.

• Seja um exemplo, um modelo de atitudes que você valoriza. Como já foi dito, o aprendizado de habilidades sociais se dá de forma eficaz pela observação das ações do outro.

Fontes: Children’s Peer Relations And Social Competence: A Century Of Progress, de Gary Ladd; Mauro Muszkat, Neuropsicólogo Infantil Da Unifesp; Antonio Carvalho De Ávila Jacintho, Psiquiatra Infantil Da Unicamp; Censo Demográfico Do Ibge/2000

Por: Daniela Tófoli e Fernanda Carpegiani

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