Erasmo Miranda - Quando a sua virtude vira defeito

Erasmo Miranda - Quando a sua virtude vira defeito

Atualizado: Quarta-feira, 7 Janeiro de 2009 as 12

Todos nós temos um defeito-virtude. Virtude, quando é usado na hora certa, defeito é a mesma coisa quando é usada da forma errada. Isto tem muito a ver com o nosso temperamento, tem muito a ver com a nossa vida.

Os personagens bíblicos são muito humanos, muito transparentes. Não são super-heróis, super-homens. São gente que erra, que escancara seus erros e, dependendo de como lemos as Escrituras, talvez até nos escandalizemos com os erros destes homens. No entanto, nunca deixarão de ser heróis por causa disso.

São heróis, não porque nunca tiveram medo, mas porque foram adiante apesar do medo. São heróis, não porque nunca erraram, mas talvez porque souberam como concertar o erro. São heróis, não porque nunca erraram, mas talvez até por assumir claramente o erro, sendo transparente. É preferível uma pessoa errada assumida, do que um cínico.

Jonas não fica longe disto. Jonas dos profetas, talvez, seja o mais temperamental e ousado. Jonas era o Pedro do Velho Testamento. Pedro que tinha um temperamento sangüineo e gostava de tomar a frente em algumas decisões. Jonas era melancólico, mas também audacioso para tomar algumas decisões.

Niníve era a capital da Ássiria, o grande império da época, a grande ameaça para Israel. Israel, que no período de Davi e Salomão, experimentou uma época de crescimento. Após a morte de Salomão, porém, o reino foi dividido em dois. Houve uma discussão, uma briga, e um dos filhos de Salomão assume o reino. Há uma rebelião contra o império do filho de Salomão, através de um participante do exército de Salomão. Então o reino se divide, o reino do norte passa a se chamar Israel, que tinha como capital Samaria, que foi governada por Jeroboão I, e o reino do sul se chamou Judá, tinha como capital Jerusalém, que ficou com os descendentes de Davi e foi governada por Roboão, filho de Salomão.

Neste período surgiu a nação da Ássiria, que tinha como tática de guerra, o cerco as cidades inimigas, lançando-lhes temor, para que as mesmas aceitassem espontaneamente o domínio inimigo, com o pagamento de impostos. Quem não faziam isto, era destruído. Eles eram terríveis em guerra e muito sanguinários. Jonas surge, debaixo do império de Jeroboão II, que não era filho de Jeroboão I, ao contrário, muitas gerações adiante. Jonas surge debaixo deste império e debaixo deste tempo vem uma palavra de Deus para Jonas dizendo:

"Vai lá, em Nínive, capital da Ássiria, e evangeliza este povo, porque Eu quero que eles se arrependam dos seus pecados, e Eu vou abençoar esta terra".

Para que nós possamos entender o chamado de Deus para Jonas, era como se fosse, nos dias de hoje, a mesma coisa que Deus ordenasse para um iraquiano pregar para o presidente dos Estados Unidos. Jonas não só desobedeceu a Deus, mas O desafiou, indo para o lado ao contrário, porque ele queria a destruição daquele povo, por ser um nacionalista.

Quando em nossas convicções, nos tornamos pessoas idealistas, acabamos ficando insensíveis aos sofrimentos alheios por causa de um idealismo, de uma ideologia mal formulada, a ponto até mesmo de nos mantermos endurecidos à voz de Deus. Esta atitude nos leva a desvios em nossa trajetória nesta vida. Nesse momento nos assemelhamos a uma criança birrenta que, por pirraça, acaba fazendo aquilo que é contrário à vontade de seu pai, tentando moldá-lo à sua vontade, por achar-se diferenciado em relação às pessoas a que o pai quer fazer o bem. No caso de Jonas, por vontade do Pai Eterno, essas pessoas eram o povo de Niníve.

Queridos, temos que tomar cuidado, pois quando assim agimos e não nos arrependemos, temos a tendência de tentar manipular a vontade de Deus para nos favorecer; usando até mesmo, a Palavra de Deus para justificar um ponto de vista ou também para dar base a uma situação pela qual estamos passando, estereotipando as pessoas que discordam da nossa ideologia, como contrários ao agir do Espírito Santo. Mas, muitas vezes, o contrário é verdadeiro.

SENHOR, misericórdia! Perdoa-nos se assim temos agido, moldá-nos à sua vontade, através do Espírito Santo, para que sejamos libertos de todo idealismo, pois queremos, assim como Tu, agir com misericórdia pelo nosso semelhante, no poder do Espírito Santo. Em nome de Jesus. Amém.

"Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra O temerão" - (Salmo 67:7)

Erasmo Miranda de Araújo é presbítero e trabalha nos ministérios de Ação Social e Ensino

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