Faculdade na terceira idade

Faculdade na terceira idade

Atualizado: Segunda-feira, 7 Junho de 2010 as 3:16

Jogar xadrez na praça, passar o dia fazendo bolinhos ou tricotando na cadeira de balanço. Essa imagem que tínhamos dos idosos hoje mais parece ilustração de histórias infantis. As pessoas com mais de 60 anos de idade somam quase 21 milhões da população brasileira e estão cada vez mais ativas, realizando projetos e, com uma maior expectativa de vida, buscando mais conhecimento.

A proporção de idosos cresceu mais de 23% nos últimos 10 anos, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilio (Pnad) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A expectativa é de que, em 2025, existam 64 milhões de brasileiros com mais de 60 anos.

Com acesso à saúde e à tecnologia, a turma da "melhor idade" também tem se preocupado com os estudos. Se antes, muitos não puderam frequentar uma sala de aula, hoje têm cadeira cativa em vários cursos. E a procura tem sido tão grande que algumas universidades foram abertas especialmente para atendê-los, em todo o País.

Os benefícios do estudar na melhor idade

Estudar é bom a qualquer momento, mas voltar ao banco da escola na terceira idade só traz benefícios para o corpo e mente. Cláudia Ajzen, psicóloga especializada em Gerontologia e Educação em Saúde e professora da Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que as pessoas que procuram estudar nessa fase passam a ter uma melhor qualidade de vida física, mental e espiritual, abrangendo preferencialmente a área da saúde, sem contar o quanto a integração cultural e social faz bem. "Pelas nossas observações e partindo também dos relatos dos alunos, há melhora em estados depressivos - com diminuição de medicamentos ou até sem uso deles -, maior sociabilidade, auto estima aumentada, reciclagens e atualizações em conhecimentos, o despertar de novos projetos, novas amizades, preparo para o envelhecimento saudável, entre outras coisas", afirma Cláudia.

De acordo com a psicóloga, o idoso que retorna à sala de aula, ou a frequenta pela primeira vez, adota uma postura firme de aluno propriamente dito: "Ele assume a responsabilidade do compromisso, uma vez que a opção é realmente dele desta vez. Ou seja, não veio por obrigação, e desta forma o prazer é bem diferente. A participação é intensa, com debates em sala de aula, trabalhos em grupo, passeios temáticos e a descoberta de novas amizades."

Cursos para idosos

Há 16 anos a Universidade de São Paulo (USP) iniciou o programa Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI),  para pessoas com mais de 60 anos, com o objetivo de possibilitar ao idoso atualização, novos conhecimentos, promoção da saúde, bem-estar psicológico, social, e exercício da cidadania. Segundo dados da UnATI, no início dos cursos, em 1994, foram matriculados 847 alunos. Em 2009, o número chegou a 9.627.

O programa, desenvolvido em todos os campus e unidades da USP no estado de São Paulo, acontece por meio de oficinas, palestras e disciplinas dos cursos de graduação oferecidas semestralmente, que podem ser selecionadas pelos alunos de acordo com o interesse.

Podem participar dos cursos pessoas com idade a partir de 60 anos. Para matricular-se nas oficinas e palestras, não se exige a apresentação de diplomas ou certificados de escolaridade concluída anteriormente. Quem quiser mais informações pode consultar o site http://www.usp.br/prc/3idade/.

Já a Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), possui cursos de extensão não profissionalizante para pessoas acima de 50 anos. Os cursos básicos possuem seis turmas com 30 alunos cada. Há também atividades extracurriculares como inglês, português, informática, dança sênior, coral, corte e costura e cursos não presenciais para quem não pode frequentar a faculdade. "Algumas de nossas aulas são online, num curso com duração de 4 meses", diz Cláudia, que também monitora o curso da UATI Virtual.

Iniciada em 1999, já foram formadas 18 turmas do curso básico. E a procura, segundo a professora, tem aumentado. Hoje, cerca de 400 alunos passam por ano pela faculdade. Os cursos têm inscrição anual e só há lista de espera para o curso básico. Para se inscrever, é preciso entrar em contato com a UATI, fornecendo os dias de preferência e horário disponível. O curso é oferecido duas vezes por semana, com duração de duas horas por dia. O e.mail para contato é [email protected] .

"A realização de um sonho é algo indescritível"

Nunca é tarde para recomeçar, para realizar sonhos, segundo a pedagoga Neide Simioni Betiol, 56 anos. Na adolescência, ela abdicou dos estudos para trabalhar. Depois, casou-se e o sonho de criança, que era um dia ser professora, foi adiado. "Não dava para conciliar casa, família e filhos pequenos", diz. Aos 45 anos, já com os filhos adolescentes, ela voltou a estudar. Entrou em turma especial, que assim como ela estava, depois de um longo período, retornando ao banco da escola.

Neide se formou em magistério e passou a dar aulas de educação infantil. Depois de ser aprovada em um concurso público, entrou na faculdade e, no ano passado, realizou o sonho de receber o diploma de pedagogia. "A realização de um sonho é algo indescritível. O fato de voltar a estudar me fez sentir mais viva, mais jovem, com vontade de vencer. Aumentou a minha autoestima. Faço várias outras coisas: caminhada, hidroginástica, e ainda trabalho com o que gosto, que é lecionar", ressalta. E como os dois filhos de Neide, de 34 e 30 anos a veem? "Como um exemplo de que nunca é tarde para realizar os nossos sonhos", conclui a professora.

Por: Elliana Garcia

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