Falar demais sobre experiências ruins pode piorar problemas

Falar demais sobre experiências ruins pode piorar problemas

Atualizado: Quarta-feira, 18 Maio de 2011 as 10:45

Foi traída pelo marido? Aquele chefe chato não larga do seu pé? Perdeu um ente querido? Todos os exemplos citados são motivos legítimos para correr e desabafar com as amigas ou com a família. Mas é preciso prestar atenção se estas “reclamações” não estão ocorrendo de forma extremamente repetitiva. Remoer e reviver os problemas não é saudável para a saúde mental de ninguém. Pode levar a transtornos graves que devem ser tratados por especialistas.   “A pessoa que passou por uma situação difícil estará revivendo este momento todas as vezes que contá-lo a alguém. Ela poderá ter mudanças emocionais e neuroquímicas importantes como uma liberação em maior quantidade de adrenalina e cortisol, o que pode contribuir para o aparecimento de um quadro depressivo”, explica a psicóloga da Santa Casa de São Paulo Roseli Lage de Oliveira.

O neurologista e diretor clínico do Hospital Santa Virgínia Moacyr Bustamante explica que depressão é doença e deve ser encarada como tal. “A depressão é uma doença grave que precisa ser tratada com remédios por um médico e com psicoterapia pelos profissionais habilitados. Ainda existe muito preconceito quando falamos neste assunto. O deprimido muitas vezes é julgado pela sociedade”, diz.

Além da depressão, outros transtornos emocionais podem surgir. “Viver diversas vezes a mesma situação ruim pode causar melancolia, ansiedade e, até mesmo, dores de cabeça. O emocional chega a afetar a saúde do corpo”, afirma a psicóloga Daniela Mafra de Oliveira.

Ver sempre o lado negativo “É preciso ficar claro que nem sempre desabafar com pessoas queridas é ruim. Ter amigos e compartilhar nossas vidas com pessoas que amamos é extremamente benéfico”, ressalta Daniela.

É preciso ficar atento, porém, para perceber quando a pessoa passa de uma interação social saudável para uma excessiva repetição das mesmas lamentações. “Não é apenas a freqüência que vai indicar que a pessoa não para de remoer os problemas. Também é necessário observar como a situação é encarada. Pessoas que só conseguem ver o lado negativo dos fatos, muitas vezes, se enquadram neste padrão”, observa Roseli.

“Uma pessoa que fica remoendo os problemas desenvolverá a depressão se já tiver uma tendência para isso. Nem sempre isso acontece. Mas é um sinal importante da doença e é preciso ficar alerta”, afirma Moacyr.

Amigos podem atrapalhar “Os amigos ou familiares, às vezes, não conseguem ver o lado bom daquela situação ruim que o outro está vivendo. Ao contrário do profissional que tem como missão oferecer uma perspectiva mais positiva sobre o que aflige a pessoa”, pontua Daniela.

Roseli lembra que amigos e família ficam muito envolvidos com a história contada. Ela diz que profissionais treinados para lidar com este tipo de pessoa têm o distanciamento necessário para poder enxergar o problema com a dimensão que ele realmente deve ter. É muito comum que quem revive seus problemas a todo momento não consiga ver uma saída. “É aí que o trabalho do profissional faz toda a diferença”, completa.

“Um amigo pode ajudar quando encaminha ou encoraja um deprimido a procurar ajuda. Dar conselhos como ‘compre uma roupa nova’ ou ‘saia mais de casa’ não resolve. Só quem vai conseguir fornecer tratamento e conselhos adequados aos que sofrem de depressão são os médicos e os psicoterapeutas”, afirma Moacyr. Isolamento social “Pessoas que reclamam o tempo todo acabam provocando o afastamento dos que convivem com elas. Ouvir problemas dos outros pode ser penoso muitas vezes. Amigos e família acabam se esgotando mentalmente com tantas lamentações”, diz Daniela.

Para conseguir deixar para trás a tendência de remoer demais os problemas, os profissionais ensinam que atividades prazerosas devem ser praticadas, como ouvir música ou ler um livro. Outro conselho unânime entre os especialistas consultados: manter-se ocupado. Uma boa alternativa é o trabalho voluntário. “Além de ajudar quem precisa, conseguimos nos distrair de nossos próprios problemas”, ensina o neurologista.    

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