Família mais que curiosa

Família mais que curiosa

Atualizado: Sexta-feira, 25 Março de 2011 as 11:44

Era para ser apenas mais uma rotineira viagem de elevador. Uma viagem do térreo ao oitavo andar, que não levaria mais que uns 20 segundos. Até que, na altura do terceiro andar, Beatriz espichou seus lindos olhos castanhos e os fixou no painel. A pergunta veio com a força de um daqueles arremessadores de beisebol em minha direção:

– O que quer dizer esse botão aqui com as letras P e O? – apontou o dedinho para a última fileira dos botões.

Beatriz tinha 5 anos e estava começando a reconhecer as letras. Não lembro quantas viagens eu já havia feito no mesmo elevador. Morava naquele prédio havia dez anos. No mínimo fazia duas viagens diárias. Numa conta rápida, portanto, entrei naquela cabine pelo menos 7.300 vezes e nunca tinha me preocupado com as duas letrinhas do botão. Mesmo assim, para não deixá-la sem resposta, rebati uma explicação:

– PO é a abreviatura de “porta”, filha! A gente aperta esse botão em caso de emergência e a porta se abre.

Beatriz fez um sinal de aprovação com a cabeça e eu saí do elevador feliz da vida por ter mais uma curiosinha dentro de casa. Mas com uma dúvida: será que respondi corretamente?

Depois que lancei o primeiro volume da coleção   O Guia dos Curiosos   (Ed. Panda Books), em 1995, costumo dizer que me transformei num curioso profissional. Devo isso muito a meus filhos. Minha missão passou a ser descobrir e responder perguntas que parecem sem resposta. Comecei a fazer isso em jornais, revistas, rádio, TV, site, blog e, recentemente, Twitter. E treinar esse olhar quase infantil se tornou muito importante em cada uma dessas tarefas. Quando elogiei a Beatriz pela pergunta, o mais velho, Rodrigo, se sentiu um pouco enciumado. No dia seguinte, no hall dos elevadores, ele tirou uma carta da manga: “Pai, extintor de incêndio pega fogo?”. Essa me colocou na fogueira. Se as crianças não têm vergonha de fazer as perguntas mais inusitadas, eu também não deveria ter. Foi assim que nos transformamos numa família de curiosos.

O bichinho da curiosidade mordeu a todos. Minha mulher, Maísa, me liga da rua e, eufórica, anuncia: “Tenho uma pauta para você! O que significa o nome das pastilhas de chocolate M&M?” Respondo que deve ser “Marcelo & Maísa”. Ela acha graça, mas diz que quer saber a resposta verdadeira. Anoto tudo no bloquinho que carrego sempre no bolso. Às vezes esqueço até a carteira, mas nunca o bloquinho. Rodrigo manda um link de um site que acabou de descobrir, Beatriz fala do jovem cantor que virou febre entre as adolescentes e Antonio, que está começando a descobrir o mundo, já inicia três quartos de suas frases com um “por que isso?” ou “por que aquilo?”. Dia desses, a caminho de uma visita ao Museu do Ipiranga, o caçula me perguntou do nada o que queria dizer Jamaica. Prometi dar a resposta assim que chegasse em casa. Ou seja, passamos todos a “trabalhar” em família. Nos passeios, nas viagens, na rua, os quatro vivem me abastecendo de novidades. Também conto para eles tudo o que descubro. Por isso, não há monotonia no nosso dia a dia. Estamos sempre procurando lugares novos para conhecer ou atividades novas para fazer.

Tem mais: todos incentivam minhas loucuras. Certa vez, de férias em São Francisco, nos Estados Unidos, fiquei sabendo de uma sorveteria com sabores inusitados. Colocamos o endereço no GPS e rodamos quase meia hora pela cidade. Saímos totalmente do roteiro turístico para encontrar a tal sorveteria. De fato, havia alguns sabores diferentes. Escolhi o de gergelim. O sorvete era cinza, horroroso. Dei duas colheradas e joguei o copinho cheio na lata do lixo. Fizemos o caminho de volta e ninguém reclamou.

Como meus três filhos são de faixas etárias diferentes, os interesses também variam muito. Isso aumentou o meu repertório e me ajuda bastante na hora de criar. Eu me sinto sempre atualizado. Além disso, o despertar desse lado curioso também ensinou-os a prestar atenção em tudo o que acontece ao redor deles. São mais observadores, mais concentrados e descobriram outras possibilidades. Essa troca funciona muito bem na relação familiar. Participo do universo deles e eles do meu.   Agora, se me dá licença, preciso acabar com as dúvidas da minha turma de curiosos que foram aparecendo nesse texto: “ Rodrigo , as partes de borracha do extintor de incêndio podem pegar fogo, sim. O cilindro é que não.”

“ Antonio , encontrei a reposta no livro   A Origem dos Nomes dos Países , de Edgardo Otero: Quando Cristóvão Colombo chegou à Jamaica, ela era habitada pelos índios aruaques, que a chamavam de Xaymaca, que significa “terra de bosques e água”. Com o tempo, Xaymaca virou Jamaica. Bem, quando você chegar aos 8 anos, eu explico de novo.”

“ Maísa , M&M são as iniciais dos sobrenomes dos fundadores da empresa: Murrie Forrest Mars, dono da Mars, e de Bruce Murrie, filho do dono da Chocolate Hershey’s.”

“Ah,   Beatriz , fui checar aquela história de PO ser abreviatura de ‘porta’. Não é nada disso, tá? Voltei até o elevador e liguei para o número da empresa. Descobri que PO era a abreviatura para Push to Open (Aperte para Abrir). Mais uma grande descoberta que devo para minha família. Meus curiosos preferidos!”  

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