Família não é democracia

Família não é democracia

Atualizado: Quarta-feira, 23 Março de 2011 as 9:07

Quando a gente tem filho, pode descobrir que não pensa tão parecido assim com o parceiro. Ok, conflito de autoridade é normal entre pai e mãe. Mas a discordância aberta traz prejuízos para o filho e para o casal. Depois que a segunda filha de Bianca Almeida nasceu, o trabalho dobrou, óbvio. Dar atenção, educar e impor limites a duas crianças está longe de ser moleza, a gente bem sabe. Para ter sucesso, toda mãe precisa impor-se como autoridade e sua palavra deve ser ordem, sim. Já é difícil dizer “não”, imagine, então, quando a mãe diz “não” e o pai diz “sim”...

As irmãs Alicia, de 4 anos, e Joana, de 1 ano e 6 meses, filhas de Bianca, tiveram suas guloseimas restritas só aos finais de semana. Claro que elas tentam descolar um pirulito antes do jantar, e, para conseguir, sabem bem pra quem pedir: pro pai, adivinhou? Isso é o que acontece na casa de Bianca, mas não é muito diferente da maioria das famílias de hoje. O pai vê pouco os filhos e, durante o tempo em que estão juntos, quer passar uma imagem amável. Ou seja: o pai da nova geração está adorando ser um pouco “mãe” e não quer muito mais saber da função paterna – aquela antipática, mas fundamental, de estabelecer limite e tal. E aí, sobra tudo para a mãe, que fica sendo meio que a megera, ainda por cima desautorizada pelo pai bacana... O conflito de autoridade é um dos grandes problemas de qualquer processo que envolva educação, criação e cuidado. Mas, segundo o psicanalista Christian Dunker, pai de Mathias e Nathalia, não é a discordância em si a questão; o problema é um desautorizar o outro na frente da criança, pois essa atitude mostra aos filhos que as diferenças individuais do pai e da mãe sobrepõem-se à tarefa comum entre eles, que é a de lhe transmitir valores, algo que deve ser mais forte que as diferenças.

Essas desautorizações explícitas causam danos aos filhos, sim, principalmente aos que têm entre 3 e 5 anos de idade, período em que a criança está numa passagem crucial de transferir o respeito às leis familiares para o respeito às leis sociais (escola, por exemplo). E ter um exemplo de desrespeito justo em casa não é um bom começo... É importante que o filho perceba uma relação de respeito entre os pais, principalmente do pai para com a mãe, por vários motivos. O relacionamento do casal será uma referência para as futuras relações amorosas da criança, além de ser muito importante para a fixação do papel da mulher, seja para o menino como para a menina. Outro bom motivo para que os pais não se desautorizem na frente do filho é que criança não é nada boba e se aproveita da situação, testando a aliança entre pai e mãe. Muitas vezes, a criança começa a “orquestrar” o conflito a seu favor. Dunker dá como exemplo um caso clássico: antes de sair, a mãe proíbe que o filho veja TV. “Ingenuamente”, o pequeno pede autorização ao pai para assistir a seu programa preferido, omitindo a ordem da mãe. Quando volta, a mãe vê o filho diante da TV: “...mas o papai deixou.”

Segundo o psicanalista, uma simples conversa entre os pais resolveria a questão. Mas, às vezes, a criança usa a própria desautorização do pai como instrumento de seu benefício, deslocando o conflito para os pais. Claro que pai e mãe não precisam ser unânimes em tudo, nem dá mesmo. Não faz mal mostrar pro filho que, às vezes, eles podem pensar diferente. O importante é ter um acordo sobre os princípios educativos básicos, quer os pais estejam juntos ou separados. Também não faz mal que os filhos descubram que seus pais podem se enganar e errar. Voltar atrás, pedir desculpas ou rever uma decisão não vai retirar autoridade do pai ou da mãe; pelo contrário, só reforça o sentido de respeito. E o papel do pai é, sim, ajudar a mãe nesse processo todo.

CONSULTORIA: CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER, PSICANALISTA, PROFESSOR LIVRE DOCENTE DO DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CLÍNICA DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP, PAI DE MATHIAS E NATHALIA, TEL.: (11) 3887-0781, [email protected] * ANA CAMILA RAMALHO, PSICÓLOGA E MÃE DE MATHEUS, TEL.: (11) 2503-5069, WWW.PSICOLOGACAMILA.COM.BR * ANA MARIA BURIHAN ESCOBAR, PSICOPEDAGOGA E TERAPEUTA FAMILIAR, MÃE DE LUIS GUSTAVO, ANA CAROLINA E ANA AMÉLIA, TEL.: (11) 3168-1345

veja também