Filhos atrapalham a intimidade do casal?

Filhos atrapalham a intimidade do casal?

Atualizado: Terça-feira, 27 Julho de 2010 as 10:21

Sem dúvida, as crianças trazem muita alegria ao casamento. Porém, com o nascimento dos filhos, muitos casais acabam se afastando e deixando o romantismo de lado. A vida corrida do dia a dia e o estresse são as desculpas mais frequentes para esse afastamento.

Além disso, alguns comportamentos observados em diversos lares complicam ainda mais essa situação como, por exemplo, os filhos pequenos que dormem frequentemente na cama dos pais, tirando sua privacidade; casais que deixam de fazer programas a dois como jantar fora ou fazer um passeio romântico, entre outros. Para saber mais sobre esse assunto, a equipe do Terapia do Amor conversou com a psicóloga Laura Cavalcanti, especialista em comportamento e idealizadora do projeto "Emagrecer Dói?", que esclareceu algumas questões sobre a relação entre pais e filhos no casamento.

Terapia do Amor – Alguns casais permitem que seus filhos durmam na cama com eles. Isso é normal?

Laura Cavalcanti – É normal que os filhos queiram dormir na cama dos pais. Eles vivem a fantasia de serem atendidos em todas as suas demandas. Essa é a primeira forma de fazerem contato com o mundo, pois sua percepção é egocêntrica, ou seja, eles se vêem como centro do universo e, como tal, é natural desejarem ocupar todos os espaços. Cabe aos pais construir o limite entre o que o filho deseja e o que é possível realizar. Esse limite é importante para ajudar a criança a desenvolver autonomia e tornar-se um adulto independente emocionalmente.

TA – Até que ponto pode ir essa liberdade?

LC – Vai depender do contexto, da maturidade da criança e do conceito de liberdade da família. É preciso respeitar o vínculo familiar e o fluxo natural do desenvolvimento subjetivo da criança. Porém, o adequado é garantir a ela um espaço privado para dormir, desde o seu nascimento. Quando isso não é possível, é importante criar valores de propriedade para a criança entender a diferença entre o espaço que ela ocupa e o que os pais ocupam, ou seja, cada um deve ter a sua cama.

TA – É preciso estabelecer limites?

LC – Não só é preciso, como necessário. A vida impõe limites e se isso não acontecer desde cedo, provavelmente irá gerar conflitos mais à frente. É necessário não confundir limite com desamor, pois não estamos falando de barreiras, estamos falando de espaços individuais. Limite promove autonomia saudável, permitindo um relacionamento com o mundo também de forma saudável. Uma criança educada com limites cresce fluindo nos espaços alheios sem se tornar um invasor indesejado.

TA – Como o casal pode preservar a intimidade sem que haja a interferência dos filhos?

LC – Em primeiro lugar, é necessário que o casal entenda a presença do filho enquanto um terceiro na relação. Desta forma é possível incluir esse terceiro, demarcando o espaço que lhe cabe. A partir dessa demarcação inclusiva, o tempo pode ser dividido razoavelmente a fim de atender à demanda do filho e do casal. É de suma importância manter a privacidade a dois; considerando a complexidade dos cuidados que um bebê evoca, é natural que essa divisão seja em partes desiguais no início da vida a três, porém, é preciso paciência e generosidade para suportar essa desigualdade que caminha ao longo do tempo para uma divisão mais equiparada. Independente desse cuidado concentrado é preciso salvaguardar o espaço do casal, mesmo que em pequenas doses de tempo, porém, o suficiente para fortalecer a dupla perante a jornada maternidade/paternidade sem deixar esquecida a jornada marido/mulher.

TA – Trabalho, tarefas de casa e filhos podem diminuir o desejo da mulher?

LC – Quando falamos em desejo da mulher, normalmente associamos à sexualidade. Porém, desejo e sexualidade é muito mais do que sexo. Diz respeito à energia vital que nos faz vibrar diante de alguma coisa que pode ser sexo ou não. Desta forma, podemos concluir que o acúmulo de tarefas maternais, domésticas e profissionais tendem a causar esvaziamento dessa energia vital, e em contrapartida, provocar a falta de vibração, em geral. Não necessariamente o desejo diminui. O que normalmente tende a diminuir é a fonte de energia para vibrar desejosamente.

TA – O que o casal pode fazer para manter a chama sempre acesa?

LC – Criatividade e generosidade são as palavras de ordem. É preciso aprender a lidar de forma generosa com as mudanças que um filho promove na vida. O casal tende a vivenciar muitos impedimentos no relacionamento. Na prática, o tempo torna-se escasso e a disposição para intimidade também. Essas alterações são de certa forma naturais, porém, é preciso ter atenção para evitar o afastamento do casal em si. É necessária a proximidade emocional não só para dividir as tarefas, como para desfrutar das alegrias em torno do filho. Cuidar da família, em parceria, ajuda a revitalizar as energias individuais e, com isso, o canal criativo permite aproveitar os pequenos espaços de tempo nos quais a chama pode não só acender, como queimar.

Enfim, dando atenção ao filho em conjunto, sobra tempo e energia para a atenção mútua. No que diz respeito à maternidade/paternidade, existe, por um lado, muita fantasia em torno desse momento e, por outro lado, a repressão dos sentimentos negativos em relação ao choque de uma nova realidade. É preciso diminuir as expectativas de perfeição e controle que circulam em torno dessa experiência geradora de tanta ansiedade.

Na medida em que aceitamos generosamente as frustrações diante da realidade cotidiana da chegada de um bebê na família, torna-se possível criar espaço criativo para desfrutar a beleza do relacionamento parental. Existem dias difíceis, não há como negar; são muitas as novidades e sua respectiva falta de experiência, porém, quem já não se emocionou com um primeiro sorriso ou primeiro passo de um filho? A vida tem diversas vertentes e cada uma com sua especificidade positiva e negativa. Resta permitir a caminhada enquanto família, atravessando, desfrutando e integrando as diversidades.

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