Filhos imaginários

Filhos imaginários

Atualizado: Quarta-feira, 9 Junho de 2010 as 10:53

Tenho hábitos irrecuperáveis. Ando olhando para cima. E observo com insistência os fios elétricos, aguardando pipas mais do que passarinhos. Mesmo sabendo que a época é outra, o céu está em jejum, que as mãos das crianças não mais serpeiam as rabiolas coloridas em Porto Alegre.

O que eu enxerguei de menino continua enxergando em mim. É um impulso, quase como uma rédea de pensamento. Algo me puxa a conferir a fiação elétrica e recompor a eterna festa junina. O que eu vivo aconteceu de alguma forma.

Não desejo fazer nenhuma tese mística. Chamo atenção para como projetamos em demasia os sonhos nos filhos. A criança dorme um cansaço somente nosso.

A criança nem nasceu e já tem que atender a uma série de expectativas. Ela chega com o enxoval pronto, com a cor definida do quarto, com o berço no lugar. Tampouco descobrimos seu rosto e definimos um nome. O bebê não saiu do ventre e tem time de futebol, tem escolinha no bairro, tem horários, tem pratos prediletos, tem profissão, tem anúncio no jornal. A ecografia tornou-se um teste vocacional: esse menino será jogador de futebol, essa menina será bailarina.

A mania de profecia barra a espontaneidade. Paternidade e maternidade não são feitas para longo prazo; é minuto a minuto, reação a reação. Talvez seja necessário acompanhar mais do que apressar. Enxergar mais do que adivinhar.

Um nenê inventa seu lugar no mundo, não ocupa um lugar predeterminado.

Repare na dor do pintor Vincent van Gogh. Nasceu um ano após a morte de seu irmão. Como forma de homenagem, seus pais o batizaram igualzinho ao falecido. Quando atravessava o cemitério, próximo à sua casa, identificava o túmulo com seu próprio nome. Carregou a sensação de ser um farsante, ou de estar simbolicamente morto. Isso afetou sua maneira de encarar o mundo.

Será que o filho não surge para preencher o molde de um filho imaginário?

Só que, ao invés da lápide de uma criança morta, oferecemos nossa infância.

Um bom filho não é aquele que nos surpreende com seu temperamento. É o que imita o filho imaginário. Elogiado de acordo com o que esperamos dele, incentivado quando obedece ao que julgamos apropriado.

Um filho imaginário não substitui o filho real. Não somos pais ou mães por encomenda. Os filhos também não devem saciar dívidas antigas e promissórias.

É compreensível que os pais procurem se antecipar para não faltar na hora. É compreensível que os pais acalentem toda uma gestação alegre e ansiosa.

O impasse é que não deixamos a criança criar suas necessidades. É tanta véspera que esvaziamos o presente. Qualquer mudança de percurso é depreciada como tragédia. Se o filho aparece com um problema, nos sentimos enganados por Deus e esquecemos que nos enganamos por pensar que filho existia antes da concepção. Ou acreditamos em cegonhas?

Aceito lentamente que não há pipas nos fios. O que não muda em nada a eletricidade do meu olhar.

Fabrício Carpinejar é poeta, autor de Meu Filho, Minha Filha (Ed. Bertrand Brasil, 2007), entre outros livros, entre outros livros, e pai de Mariana, 15 anos e Vicente, 7 anos

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