Games ajudam as crianças a desenvolver habilidades e afinam o raciocínio

Games ajudam as crianças a desenvolver habilidades e afinam o raciocínio

Atualizado: Terça-feira, 17 Agosto de 2010 as 1:34

Celulares, computadores e videogames deixaram de ser coisas inacessíveis há algum tempo. Nos últimos anos viraram objeto de desejo de crianças e adolescentes, que se debruçam em telas cada vez mais atrativas. Parte desse fascínio juvenil se dá sobre os jogos eletrônicos, capazes de prender a atenção de meninos e meninas por horas. Mas até que ponto os games devem fazer parte da vida das crianças? Ao contrário do que possa parecer, essas novas formas de recreação estão longe de serem vilãs da formação dos jovens. E podem, até mesmo, melhorar uma série de habilidades cognitivas.

Isso porque o jogador está, a todo momento, sendo testado pela máquina. "Os jogos estimulam várias funções cerebrais ao mesmo tempo, eles representam um desafio para a cabeça da pessoa", afirma a neurologista Márcia Lorena Chaves, coordenadora do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Associação Brasileira de Neurologia (ABN). Márcia, inclusive, indica o uso de jogos eletrônicos por pacientes idosos que precisam melhorar a memória.

Nas crianças, os games trabalham uma série de habilidades: a concentração, a capacidade de processamento de informações, de resolução de problemas em tempo real, a motricidade, o raciocínio lógico e a acuidade visual. "Além disso, muitos jogos são on-line, a criança tem que se comunicar o tempo inteiro com algum interlocutor e isso melhora a capacidade de comunicação", aponta o professor Gilberto Lacerda, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Gilberto, especialista em tecnologia aplicada à educação, explica que esses recursos estimulam novas formas de comunicação, informação e expressão.

"Nesse exato momento, muitas crianças e jovens estão se expressando abrindo sites, blogs, tirando fotografias e colocando na internet, conversando com amigos, fazendo críticas de livros. Nesse sentido, as tecnologias são uma extensão das capacidades humanas", ressalta o professor da UnB. Os jogos seriam uma dessas linguagens surgidas com os computadores e videogames. "E como qualquer linguagem, ela precisa ser trabalhada no ambiente escolar de maneira moderada", defende Gilberto.

O grande desafio da escola é saber quais games(1) podem ajudar no desenvolvimento de meninos e meninas. Os educadores também têm a missão de orientar os pais sobre o assunto. "O papel do professor é muito mais complexo hoje em dia, na medida em que as crianças têm acesso irrestrito às tecnologias na escola e fora dela", lembra o especialista da UnB. O menino Caio César Ribeiro, 7 anos, teve o primeiro contato com jogos de computador no colégio onde estuda, aos 3 anos. Desde estão, Caio leva quase que semanalmente tarefas para casa que precisam ser feitas na máquina.

"A escola orienta o uso de alguns games, manda links de internet para consulta. Eu acho ótimo, essas coisas estimulam a inteligência da criança", opina a estudante Luana Rodrigues Gonçalves, 31 anos, mãe de Caio. A proatividade dos professores do menino, porém, ainda não é a regra. O sucesso no uso dessas ferramentas depende muito dos educadores, que precisam estar atentos às possibilidades da tecnologia. "Esse professor tem que ser complexo. Mas, infelizmente, os centros de formação estão a milhões de quilômetros de formar esse profissional", lamenta o especialista da UnB.

Excessos

Outro problema da avalanche tecnológica é a utilização abusiva de videogames e computadores. Médicos, pedagogos, psicólogos são unânimes nesse tema: há uma geração de crianças que está sendo submetida ao julgo das máquinas. "Esses equipamentos acabam virando uma espécie de babá eletrônica. É o que faz o menino ficar quieto na mesa do restaurante, na casa de amigos da família. Os pais usam esse artifício para deixar as crianças sob controle", afirma a psicóloga Milene Bernardes, especialista em ludoterapia, técnica que usa brincadeiras para tratar crianças.

Milene não receita jogos eletrônicos como forma de tratamento, porque acredita que a máquina prejudica a relação humana necessária na terapia. Mas a psicóloga usa a relação de seus pequenos pacientes com computadores, videogames e celulares para tentar entender melhor cada caso. "Tento verificar qual a admiração que eles têm em cada jogo, como fazem a escolha dos personagens, o que conseguem em cada fase", enumera.

No consultório de Milene, a maioria dos casos são de crianças com transtorno de déficit de atenção (TDA) e hiperatividade — problemas que acompanharam o estudante Gabriel Rezende, 14 anos, durante toda a infância. A mãe do jovem conta que uma das poucas coisas capazes de manter Gabriel concentrado é o videogame. "Os jogos o deixam muito atento ainda hoje, a ponto de eu chamá-lo e ele não me responder", diz Ruth Rezende, 37 anos. "Eu acho que é um exercício para mim, tenho que estar sempre ligado para impedir qualquer erro", diz o garoto.

Para o professor Gilberto Lacerda, os pais precisam se esforçar para entrar no mundo tecnológico dos filhos. "Hoje, a família não sabe mais interferir como antigamente, e os meninos vão ficando à deriva de uma única forma de comunicação, informação e expressão", critica. "A família delega o poder de entreter, educar e ocupar ao computador. E a gente não sabe o resultado disso, é uma coisa a se ver na próxima geração", alerta.

1 - Todos os tipos

Os jogos eletrônicos podem ser lúdicos, educativos ou lúdico-educativos. A escola tenta se aproximar dessa terceira categoria, com games que chamem a atenção dos pequenos e, ao mesmo tempo, ajudem na formação escolar.

Por: Carolina Vicentin

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