Grávida vê tudo com lente de aumento

Grávida vê tudo com lente de aumento

Atualizado: Sexta-feira, 1 Abril de 2011 as 10:32

Grávida vê tudo com lente de aumento. Ter dúvidas e inseguranças é mais do que normal, e livros, televisão e internet são ótimos para procurar informações. Mas, acredite, o melhor mesmo é confiar no médico para não surtar com o que lê por aí

Lara Lins, filha de Carlos e Alina, já achou que seu bebê ia nascer com hepatite, que teria um distúrbio sério nos rins ou que precisaria fazer cesárea porque as condições dentro da barriga já não eram ideais para a filha Eduarda, nascida de parto normal com 38 semanas e supersaudável. Tudo isso porque, teimosa, preferia esclarecer suas dúvidas na internet em vez de conversar com o obstetra.

 “No caso da hepatite, eu tentei interpretar os resultados do exame sozinha. Suspeitei de problema nos rins porque o médico me disse que meu líquido amniótico estava baixo e, de novo na internet, encontrei que poderia ser algum problema renal no feto. Depois, o obstetra pediu um exame por suspeita de retardo de crescimento intra-uterino. Entrei no Google e achei que ia precisar fazer cesariana”, conta, rindo, agora que tudo já passou. “Eu devia ter telefonado para o meu obstetra”, completa.

Toda vez que Letícia Villas, filha de Maria de Lurdes e Paulo, entra no consultório do seu obstetra ele a cumprimenta assim: “Chegou a neurótica do ultra-som!”. Ela já fez oito. “Uma vez vi no exame um tal de valor de percentil. A primeira coisa que fiz foi entrar na internet para saber se estava tudo certo”, conta.

Assim como Lara e Letícia, várias grávidas têm o olho maior que a barriga: uma fome de informações sobre a saúde de seus bebês quase tão grande quanto o apetite por comida. E se, no passado, as mulheres tinham de se contentar com livros e com os temas abordados nas revistas e na TV, hoje, com a web, o céu é o limite.

Por um lado, isso é sensacional. Dá para dividir experiências nos fóruns e conhecer mais sobre os estágios da gravidez. Por outro, pode dar acesso a casos que deveriam ficar restritos ao meio médico e plantar caraminholas na cabeça das mais ansiosas. Daniela Lucci, mãe de Sophia, sentiu uma dor na virilha aos cinco meses de gravidez e, como sua médica estava em um congresso, não pôde tirar a dúvida com ela.

Foi pesquisar no computador e descobriu que a dor tinha a ver com o dilatamento da bacia, mas, mesmo assim, não acreditou muito. “Você sempre acha que tem algo errado”, diz ela, que precisou confirmar tudo com a médica. O final? Sophia nasceu muito bem, obrigada.

Percepção seletiva

O obstetra Bruno Liberman, pai de Gabriel e Isabela, lembra que a tendência é registrar somente as histórias de gravidez ou partos malsucedidos que ouvimos. “As pessoas não guardam por muito tempo o que é normal”, explica.

Gisele Ramon, filha de Creuza e Olímpio, e grávida de nove semanas do primeiro filho, conta que uma vez assistia num canal de TV a cabo à história de uma modelo que sofreu um aborto, mas tinha engravidado de novo.

 “Eu fiquei tão impressionada com a história triste que comecei a chorar e não parei mais. Perdi o fim da matéria e precisei pesquisar na internet para descobrir que tinha dado tudo certo da segunda vez.” Ela, que sofre de síndrome de Pânico, conta que apesar da doença percebe quando está exagerando. “Se mudo de canal e está passando algo sobre lábios leporinos, por exemplo, já acho que é um sinal.”

Perda de tempo

Claro que seria melhor evitar toda essa ansiedade, mas, em geral, o máximo que ela causa é perda de tempo e energia, confirma o ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana Flavio Garcia de Oliveira, pai de Maria Fernanda, Lucas, Marcelo, Maria Carolina, Pedro, Manoela e Gabriel.

“A não ser que seja um caso que realmente cause um estresse muito forte na mãe, como tirar o apetite e o sono, essas preocupações não atrapalham o desenvolvimento do bebê”, explica o doutor Flavio.

O corpo fala

Há também fatores fisiológicos que podem explicar a ansiedade. Na gravidez, ocorrem mudanças hormonais que deixam todos os processos corporais mais lentos. A psicoterapeuta especializada em trabalhos com gestantes, bebês e pais Eliana Pommé, mãe de Luana, Naila e Petrus, esclarece que o lado emocional também fica mais devagar. “A grávida vive as coisas com intensidade, tudo parece ser maior do que é de fato, que são características mais próximas da infância. Isso ocorre para que ela fique mais próxima do bebê e possa cuidar dele depois.”

Eliana alerta que para evitar as pirações é importante que a grávida se conheça e saiba balancear suas intuições. “Se ela sente que tem algo que não está bem, deve procurar o médico e confiar nos dados de realidade que ele passa, como exames da mãe e do bebê.” Só não vai ajudar em nada se você segurar a ansiedade ou tentar resolvê-la sozinha, acreditando no que está escrito em qualquer site.

Passando uma peneira na rede

O Ministério da Saúde adverte: informação demais pode fazer mal à sua saúde e à do bebê

Letícia tem como lema a frase “O Google é meu senhor e nada me faltará”. O único problema é que nem o Google nem qualquer outro site do tipo avisa sobre seus “efeitos colaterais”, como provocar desespero em gestantes curiosas demais. “Eu desaconselho minhas pacientes a pesquisarem sobre doenças. Elas vão encontrar casos complicados e com detalhes dos quais não precisam saber”, declara o doutor Bruno Liberman, que recomenda a leitura do livro O Que Esperar Quando Você Está Esperando, de Arlene Eisenberg.

Páginas de maternidades e de empresas reconhecidas, que têm produtos relacionados a grávidas e crianças, são geralmente bastante confiáveis. O conselho do doutor Flavio Garcia de Oliveira é sempre procurar pelo responsável técnico do site, que deve ser algum profissional da área de saúde. Embora as páginas de universidades e hospitais tenham informações corretas, elas não são recomendadas para quem não trabalha com saúde. “Se os textos contiverem termos que você não entende, ele não é feito para leigos e não deve servir como fonte.”

Ou seja, na era da informação a grávida pode, sim, valer-se da internet como ponto de apoio, mas tem de saber que nem tudo o que está ali disponível é útil para ela. Na dúvida o conselho é simples e bem tradicional: consulte e confie no seu médico.

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