Gravidez eternizada

Gravidez eternizada

Atualizado: Sexta-feira, 6 Maio de 2011 as 11:49

Gravidez não muda só o corpo. Entre o primeiro e o nono mês, mais do que uma barriga acentuada, a mulher parece ganhar um novo olhar – desses que implicam em novos conceitos e maneiras de encarar a vida. Natural, portanto, que haja a necessidade do registro, de reter no tempo o momento da virada, da completude. E é indo ao encontro das futuras mães, que fotógrafos profissionais oferecem uma forma de registro à altura da ocasião.

“Comecei a fotografar amigas, depois notei uma procura e resolvi investir na área. Hoje tenho estúdio e fila de espera”, revela a fotógrafa Ana Oliveira, pioneira na Bahia a realizar ensaios fotográficos com mulheres grávidas. Há 15 anos, ela recebe em seu estúdio, que reúne duas salas comerciais na Avenida Tancredo Neves, mulheres na busca de eternizar o momento em que vivem. “A maioria chega nervosa, tímida. Mas, já na maquiagem, assumem a postura de modelos”.

Quando estava grávida de Lucas, a lojista Dinamara Ribeiro foi uma dessas modelos. Ligou para Ana, marcou uma sessão, e foi certa do que queria. “Olha, fiquei bastante à vontade. Cheguei a fazer fotos nuas. E meu marido também participou. É um momento especial, único, queria registrar da melhor forma possível”.   Durante o ensaio, a conversa e a intimidade criada entre o fotógrafo e a futura mãe não são apenas elementos fundamentais para produzir boas fotos, mas também o início de uma parceria. “Algumas dizem que já faço parte da família. Com outras, faço a segunda gravidez, ensaio da família, batizado. Tem até uns bebês que já estão crescidinhos e me chamam de tia”, conta a também fotógrafa Bianca Martinez, que dedica parte do seu trabalho aos ensaios com grávidas.   Mudança   – A atitude de mostrar o corpo e encarar a gravidez de forma desencanada, a ponto de resultar em um ensaio fotográfico, já foi algo impensável. Não é preciso retornar muito no tempo para lembrar da atriz Leila Diniz, que na década de 70 exibia sua gravidez de oito meses nas praias cariocas e escandalizava as concepções mais tradicionais. Ou de Demi Moore, que, em 1991, apareceu grávida (e nua) na capa da revista americana   Vanity Fair   – e, assim, fez surgir o debate em torno da beleza feminina durante a gestação.

“A gravidez sempre esteve relacionada a tabus. Mulher grávida posando nua, fazendo ensaio? Isso é resultado de um processo que envolve informação e, sobretudo, autoconhecimento”, constata a psicóloga Teresa Soares. “Exibir o corpo durante a gravidez é uma atitude que está inserida dentro de um processo amplo, que envolve a própria emancipação feminina”.

Quando engravidou, a última coisa que a médica Ana Cristina Batalha queria era aparecer em uma foto. Mostrar o corpo, então, nem pensar. “Me sentia gorda, desproporcional, feia”. Com o tempo, foi compreendendo as mudanças. No oitavo mês, ainda com um pouco de receio, resolveu fazer um ensaio. Não só gostou da experiência, como a repetiu na segunda gestação. “Perdi o receio de mostrar minha barriga”, revela.

Acostumada a lidar com esse tipo de situação, que sempre inclui inúmeras dúvidas e questionamentos, Ana Oliveira revela que fotografar mulheres grávidas é um desafio. “É um momento de extrema sensibilidade, de redescoberta, e exige um cuidado especial. Mesmo com toda a informação e a onda de liberdade, a mulher sempre vai questionar o corpo, vai ter dúvidas. Realizar um bom ensaio não é só fazer um registro, mas mostrar para própria mulher a beleza do momento em que vive”, conclui.  

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