Gravidez indesejada e miséria: a realidade de milhões de crianças

Gravidez indesejada e miséria: a realidade de milhões de crianças

Atualizado: Segunda-feira, 30 Maio de 2011 as 9:38

Caminhando por um pedaço da rua Dom Macário, na zona sul de São Paulo, é possível ver uma pequena favela, com casas de vários tipos. Mas há uma que chama a atenção pela precariedade. A residência, construída na calçada, tem cerca de 3 metros, tendo como parede da frente alguns tapumes velhos e de trás um muro que separa um terreno da rua, por onde passam os carros. Nesta casa moram mãe, pai e cinco filhos, sendo um adolescente. O chão da calçada é cru e seco, e no grande frio que tem feito na capital paulista é difícil imaginar como uma família de sete pessoas, vivendo em condições de extrema pobreza, consegue se manter.

No minúsculo lar, todos dormem como podem: duas crianças na cama de cima do beliche, duas na cama de baixo e a outra – a caçula, de apenas 3 anos – fica com os pais em um colchão colocado diretamente ao chão.

“Mas o pior é quando chove”, diz Maria Ana, a mãe. “Já aconteceu de a gente estar dormindo aqui (ela aponta para o chão) e acordar todo molhado, com rato passando. A gente tem que levantar e colocar as coisas em cima da cama; fora o frio. É muito triste isso. Não choro porque nem lágrimas tenho mais”, desabafa.

Aos 38 anos, a diarista diz que, como pode, tenta não deixar faltar a alimentação necessária – apesar de ser difícil, ela confessa. E ressalta que não é fácil também ter que criar os cinco filhos praticamente sozinha. O mais velho, de 15 anos, por exemplo, abandonou a escola, e o do meio, de 10, tem déficit de atenção.

Mas a situação dos filhos de Maria é a mesma de milhões de famílias espalhadas pelo País. Esta foi a realidade dela quando criança e, possivelmente, será a de seus netos, caso nada seja feito para mudar.   Neste ponto, podemos perguntar: até onde pode ir a necessidade do planejamento familiar? Como cuidar dignamente de crianças que são afetadas diretamente pela miséria? Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há exatos 16.267.197 de brasileiros vivendo em situação de extrema pobreza, de acordo com as classes de Renda Zero e Renda Nominal Mensal Domiciliar per capita, de pessoas que vivem com R$ 1 a R$ 70. E o que piora a realidade é que no Brasil a miséria tem uma cara inocente e indefesa, já que 38,8% das crianças são as grandes vítimas da pobreza acentuada.

Inocência

Durante a conversa com Maria, um dos filhos nos interrompe várias vezes consecutivas:

– Posso entrar no carro, moça? Deixa eu entrar no carro, mãe? Posso entrar no carro, moça?” – Quem pergunta é o menino que tem déficit de atenção, que insiste até convencer a equipe e a mãe a entrar, por alguns instantes, no carro de reportagem.

– Um dia vou te dar um carro, menino. – Fala Maria, que sonha mesmo é em ter uma casa, um local que, de fato, possa chamar de lar, e que possa ser espaçoso para permitir a ‘peraltagem’ das crianças.   Isso porque, por morarem em uma calçada estreita, na extrema divisão entre um muro e a rua de movimentação regular de veículos, a filhinha de 3 anos já foi atropelada. Sem falar no risco que o filho de 10 corre de sumir, visto que, por ser hiperativo também, já desapareceu, deixando a mãe em desespero. Prevenção

O desejo de Maria, tão simples, vem acompanhado do pesar de ter tantos filhos sem possuir condição digna de sustentá-los. Maria afirma que se soubesse que estaria nesta situação hoje, jamais teria engravidado. Não pelas crianças, a quem ama, mas pela realidade despida, quase literalmente, na qual sobrevivem.

É por isso que ela tenta, como pode, se prevenir de engravidar. Apesar da situação, não consegue fazer laqueadura pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas procura sempre outros métodos que evitem outra gestação. Até porque, para ela, melhor que o aborto é mesmo a prevenção.

Assim, a questão é: por que cada dia mais mulheres engravidam sem ter condição de criar seus filhos? Se há pessoas informadas, como Maria, quanto aos métodos contraceptivos, o que as leva à gravidez indesejada de um filho após outro?

Se, como Maria, há tantas famílias nessa situação, seria apenas a conscientização das mulheres a solução para o planejamento familiar?

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