Guardar mágoa fazem mal para a saúde e a carreira

Guardar mágoa fazem mal para a saúde e a carreira

Atualizado: Terça-feira, 3 Maio de 2011 as 10:54

Nem sempre é possível levar para casa -- e numa boa -- aquela piada de mau gosto feita por alguém do escritório. Também não dá para ficar exatamente satisfeito quando você percebe que vira-e-mexe o colega da mesa ao lado se apropria de uma idéia sua. Ninguém aqui está pedindo para você ter sangue de barata. Mas, pense bem: será que há mesmo motivo para tanto melindre? Não é melhor deixar pra lá do que ficar dias e dias ruminando a raiva? Pode apostar que sim -- e não é só pelo bem do ambiente de trabalho. A razão, na verdade, é mais egoísta: guardar ressentimento acaba com a saúde e faz a produtividade despencar (leia quadro Veneno na Veia). "Rancor não deixa de ser um tipo de estresse e desencadeia uma reação física que, a médio prazo, deixa a pessoa tensa, cansada, ansiosa e com dificuldades para dormir", diz a psicóloga Margareth dos Reis, do Instituto H. Ellis, em São Paulo. E aí, meu amigo, tente trabalhar direito com um barulho desses. Pisaram no seu calo? Conte até dez e deixe para conversar no dia seguinte. "Assim, você não age por impulso. Mas é preciso deixar tudo às claras depois. Porque engolir sapo também faz mal", diz Marcia Hasche, diretora da consultoria paulistana Valor Pessoal, especializada em ambiente de trabalho. Se você perceber que errou, não hesite em pedir desculpas. É verdade que o cenário corporativo atual não contribui para que as pessoas perdoem ou peçam perdão. Mas o respeito pelo outro deve ser levado a sério e, para isso, o melhor caminho continua sendo o diálogo. "Se para qualquer um é difícil perdoar, pior ainda para o latino-americano, que é mais emocional e sempre leva as questões para o lado pessoal. E tem outro fator: a idade. Para perdoar é preciso maturidade, e ela só vem com o passar dos anos", diz a consultora Marcia. O advogado paulista Antônio Fernando Siqueira Rodrigues, de 60 anos, é um exemplo típico do que Marcia está falando. Recebeu um pedido de perdão de ninguém menos do que o presidente da empresa em que trabalha -- ele é diretor jurídico da subsidiária da Mapfre no Brasil, companhia espanhola de seguros (leia quadro Reconheço que Errei). Com certeza, você deve estar pensando: "Também, que louco não iria perdoar o chefe?". Acontece que Antônio já viveu a mesmíssima situação em outra companhia quando era bem mais novo. Na época, cansado das grosserias do presidente, chutou 17 anos de trabalho para o alto. "A ironia é que tudo aconteceu perto do Natal, uma data propícia para o perdão. Mas eu não consegui, porque percebi que desculpar mais uma vez o mau gênio dele não iria ter nenhum efeito em seu comportamento", diz Antônio. Ok, vamos combinar que é bem menos complicado perdoar uma grosseria do que o roubo de uma idéia, fato relativamente comum -- e irritante -- no ambiente de trabalho. Confesse: você deixaria pra lá se isso acontecesse com você? Não iria ferver de raiva e tirar satisfação com o espertinho? Então, como perdoar? Para o psicanalista Jorge Forbes, de São Paulo, esta é uma queixa sem sentido, porque qualquer pessoa hoje em dia pode ter essa sensação. "Não dá para falar em autoria na era da globalização e da internet, pois as informações circulam com uma velocidade vertiginosa. E, depois, quem faz questão de uma única idéia é porque tem sérias limitações profissionais", diz Jorge. A dica do psicanalista é: roubaram uma idéia sua? Fique feliz, porque é sinal de que ela tem valor. "Ser conhecido como um gerador incansável de idéias é muito mais importante do que ficar conhecido como alguém que teve uma única boa idéia", diz. Está vendo? O fato de não se importar mais com isso significa que, sem querer, você já perdoou o ladrão. Reconheço que errei

"Eu poderia ter deixado passar, porque o 'ofendido' não estava presente. Mesmo assim, resolvi me desculpar. Há poucos meses, durante uma reunião, fiz uma crítica ao diretor jurídico na frente de um advogado e um outro diretor da empresa. Quando cheguei em casa percebi que tinha exposto o Antônio [Fernando Siqueira Rodrigues]. Fiz uma reflexão e achei que cometi um erro, porque me coloquei no lugar dele e percebi que fui injusto na minha avaliação. Até que, no sábado seguinte, liguei para sua casa. Expliquei o que tinha acontecido e me desculpei. Ele reagiu muito bem e me agradeceu. Depois disso, nosso relacionamento ficou ainda melhor."

VENENO NA VEIA

Coração acelerado, músculos tensos, sangue fervendo. Tudo isso acontece quando você está com raiva de um colega. Acontece na hora em que se passou o fato e depois também, se você insistir em ruminar a história. O mais perigoso é deixar a situação se prolongar. Você obrigará seu corpo a trabalhar em um ritmo diferente do normal e com o tempo vai provocar doenças. Sem falar que verá sua produtividade despencar. "A fonte de energia é uma só. Por isso, se você direcioná-la para a raiva e o ressentimento, vai faltar para o que é importante -- criar, se concentrar e produzir", diz a psicóloga Margareth dos Reis, do Instituto H. Ellis.  

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