Histórias da Paternidade

Histórias da Paternidade

Atualizado: Quinta-feira, 6 Agosto de 2009 as 12

Alguns são esportistas. Outros fazem o gênero intelectual. Há até aqueles jeitosos, que sabem consertar tudo. Seja qual for o perfil, porém, uma coisa os pais têm em comum: eles são o modelo no qual os filhos - tanto os meninos quanto as meninas - espelham-se por toda a vida. Expressões do tipo "tal pai, tal filho" e "ele é a cara do pai" são evidências da importância da figura paterna na estrutura da família. Em qualquer endereço de qualquer cidade ou aldeia de qualquer país, eles são alvo da maior das homenagens.

Ou alguém tem dúvida de que o maior presente é o amor dos filhos? Ainda que as cenas possam ser diferentes, os personagens desta história eterna de amor entre pais e filhos conhecem bem o roteiro, e todos sabem com convicção quem é o herói.

Você vai ler cinco histórias diversas que ilustram alguns dos aspectos da experiência da paternidade - todas igualmente marcantes e definitivas, cada uma a seu modo.

Coragem hereditária

O mais famoso salva-vidas carioca, o ex-comandante geral do Grupamento Marítimo (G-Mar) do Corpo de Bombeiros do Rio, coronel Marcos Aurélio da Silva, 51 anos, é talvez o mais significativo exemplo do que pode ser chamado "pai herói".

Até o início do mês de abril deste ano, havia realizado 7226 salvamentos em 18 anos de serviço. "Investi minha carreira na formação de homens, no crescimento do caráter de cada soldado que conviveu comigo. Esta é a minha vida", diz, com os olhos cheios de lágrimas.

De fato, a paixão pelo trabalho contaminou de tal maneira sua família que os filhos Marcos, 22 anos, e Monique, 20, participaram de centenas dessas ações em alto-mar. O exemplo do pai fez com que Marcos fosse além: ele é um dos mais novos oficias da corporação. "Ele tem o salvamento no sangue. Para mim, é um orgulho", diz o coronel. Ambos contam que a maior batalha da dupla foi enfrentada, curiosamente, longe do mar. Em janeiro de 1998, a família morava num dos 44 apartamentos do Edifício Palace II, na Barra da Tijuca. Pai e filho percorreram os apartamentos do prédio, salvando centenas de pessoas, meia hora antes de o prédio ruir.

Como a areia da praia

Ao fazer sua promessa de conceder a Abraão uma linhagem incontável, o Senhor comparou a descendência que o patriarca inaugurou aos grãos de areia do mar. No entanto, uma prole numerosa pressupõe mais trabalho na transmissão de uma fé bem fundamentada.

No caso de Carlos Alberto Bezerra, líder da Comunidade da Graça, uma tarefa multiplicada por seis: além de três filhos biológicos, ele é pai de outros três filhos adotivos. Conciliar as atenções entre a igreja e a família nunca foi problema para ele. "A família sempre foi prioridade para mim e para a Suely, minha esposa. Todos os meus filhos servem a Deus", afirma, com satisfação. Reconhecido como um especialista em relacionamentos familiares, ele acredita que não há fórmulas mágicas para garantir o diálogo e o respeito dos filhos. "A Bíblia nos dá orientações claras quanto a ensinar a criança o caminho no qual deve andar.

Por isso, o que devemos fazer é colocar a Palavra de Deus em prática. Ela nos dá o modelo e garante os resultados que esperamos", ensina.

O aprendizado mais sublime

Com toda insegurança da economia, ter um filho já é um ato ousado. Criá-lo no Rio de Janeiro, considerando os altos índices de violência da cidade, passa a ser uma façanha. Assustado com a responsabilidade, mas muito determinado, o técnico em contabilidade José Francisco do Amaral Fernandes, 35 anos, festeja a chegada do pequeno Matheus, de dois meses. "Minha vida e a vida da minha mulher, Márcia, mudaram totalmente. Mas ele é uma bênção dos céus", diz o pai novato.

Francisco diz que vai criar o filho dentro dos padrões de valores cristãos. Para isso, tem pedido a Deus discernimento e sabedoria. "É só o que peço a Deus, diante de todos esses desafios que vamos enfrentar."

Ele diz que ainda está assustado com a responsabilidade de cuidar de um ser tão indefeso, mas não perde a oportunidade e sonha com o futuro do moleque. "Ele terá todo o direito de optar pelo caminho que vai seguir na vida", diz, para logo fazer uma restrição ao pequeno Matheus: "Só queria que ele fosse um grande goleiro, como o pai", diz ele, sorrindo, lembrando-se da posição em que joga nos campos de futebol, seu esporte favorito.

Longe dos olhos, perto do coração

Estar perto do filho, vê-lo crescer, alimentá-lo diariamente e depois vê-lo partir, seguindo a vida. Este parece ser um ciclo natural, inevitável. Mesmo assim, a separação é algo difícil de assimilar. A distância deixa saudades. Principalmente para aqueles pais cujos filhos foram para tão longe, fazendo com que as visitas se tornassem raras. O comerciante Antonio Cantelmo, 68 anos, é mais um daqueles pais que viram os filhos seguirem para os Estados Unidos atrás do sonho de uma vida melhor. Ronald, 32 anos, e Maciel, 39, estão há quase uma década lutando na chamada "terra do Tio Sam", um em Miami, outro em Nova York.

Apesar de os filhos ligarem quase toda semana, Cantelmo diz que a distância machuca a alma. "Fico cheio de saudades. Eles vêm aqui de dois em dois anos ou até em espaços maiores, mas foi este o caminho que escolheram. Então, tenho que aceitar, não é?", questiona, tentando dar espaço à resignação. Cantelmo confia que a mão divina está sobre eles, e só desta forma consegue ficar mais tranqüilo. "Filhos fazem parte da gente. Eles são nosso investimento", completa.

Escrito por: Marcelo Dutra

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